Almino Monteiro Álvares Afonso (Humaitá, ) é um advogado e político brasileiro, com atuação destacada na vida parlamentar e sindical entre as décadas de 1950 e 1990. Foi ministro do Trabalho e Previdência Social no governo de João Goulart (1963), deputado federal pelo Amazonas (1959–1964) e por São Paulo (1995–1999), e vice-governador de São Paulo na gestão de Orestes Quércia (1987–1990).
Cassado pelo AI-1 após o golpe de Estado no Brasil em 1964, viveu doze anos no exílio na Iugoslávia, Chile, Uruguai, Peru e Argentina, retornando ao Brasil em 1976. Parlamentarista convicto, é autor de diversos livros sobre a crise política de 1964 e o sistema de governo. É filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e membro da Academia Amazonense de Letras.
Origens familiares e formação
Almino Afonso nasceu em Humaitá, no Amazonas, em 11 de abril de 1929, numa família vinculada à economia da borracha no Norte do país. O pai, Boemundo Álvares Afonso, chegou a chefiar o executivo municipal de Porto Velho; a mãe era Dolores Monteiro Álvares Afonso. Pelo lado paterno, descende de Almino Álvares Afonso, figura central da campanha abolicionista no Ceará e no Amazonas (1882–1884), que chegou ao Senado pelo Rio Grande do Norte na última década do .
Quando a família se mudou para Porto Velho, estudou no Grupo Escolar Barão dos Solimões. O secundário foi cursado em Manaus, no Colégio Dom Bosco (em regime de internato) e no Colégio Estadual do Amazonas, período em que começou a atuar no movimento estudantil.
Começou a cursar Direito no Amazonas e, em 1949, transferiu-se para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Na capital paulista, envolveu-se na mobilização pelo monopólio estatal do petróleo, vinculando-se ao CEDPEN (Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional). Reconhecido pela eloquência, foi eleito orador oficial do Centro Acadêmico XI de Agosto e sagrou-se campeão de um torneio nacional de oratória em 1952, o que lhe rendeu a alcunha de "Uirapuru da eloquência". Naquele mesmo ano, ocupou a secretaria de cultura da União Estadual dos Estudantes (UEE), então dirigida por Fernando Gasparian, e no ano seguinte chegou à presidência da entidade. Bacharelou-se ao final de 1953.
Início da vida política
Filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), engajou-se na campanha que levou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo em março de 1953 — vitória que projetou Jânio na cena nacional. Em 1954, integrou a Comissão do IV Centenário da capital paulista e trabalhou pela eleição de Jânio ao governo do estado.
Em 1958, cedendo à insistência de aliados amazonenses e da deputada Ivete Vargas (PTB), deixou suas atividades em São Paulo e voltou a Manaus para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Numa campanha breve, de três meses, calcada na bandeira do nacionalismo econômico e amparada pelo governador Plínio Coelho, elegeu-se deputado federal como representante único do Partido Social Trabalhista (PST) pelo Amazonas.
Deputado federal pelo Amazonas
Primeiro mandato (1959–1963)
Logo após a posse, em fevereiro de 1959, juntou-se à Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), na qual exerceu a função de subsecretário. Ao filiar-se ao PTB, fundou com deputados como Fernando Santana, Luís Fernando Bocaiúva Cunha, Clidenor Freitas e Armando Temperani Pereira o "grupo compacto", núcleo radical do partido comprometido com a reforma agrária e o avanço do controle estatal sobre setores estratégicos.
Em março de 1961, assumiu a liderança da bancada petebista na Câmara. Após a constituição do bloco oposicionista formado por PSD, PTB e PSP contra o governo Jânio Quadros, passou a exercer a vice-liderança dessa maioria a partir de junho.
A crise da renúncia de Jânio Quadros
Com a renúncia de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961, Almino interpretou o gesto como manobra golpista visando ao retorno com poderes ampliados. Diante do veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart, então em visita oficial à China, a crise institucional se agravou.
Almino manteve contatos telefônicos com Goulart e foi designado para a comissão mista de seis deputados e seis senadores criada para examinar o impasse. A saída encontrada pelo grupo foi conciliatória: um parecer recomendando a adoção do parlamentarismo, de modo a restringir as prerrogativas presidenciais. Em 2 de setembro, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional nº 4, que formalizou o novo regime. Em 5 de setembro, Almino fez parte da delegação parlamentar que recepcionou Goulart em Brasília, empossado dois dias depois na presidência.
Reeleição e contexto internacional
Em outubro de 1962, Almino Afonso obteve a maior votação entre os candidatos à Câmara pelo Amazonas, conquistando a reeleição com 13.870 votos. Após o pleito, posicionou-se contra a adesão brasileira ao bloqueio naval a Cuba imposto pelos Estados Unidos durante a crise dos mísseis de Cuba, alinhando-se a Leonel Brizola, a Sérgio Magalhães (então à frente da FPN) e a representantes da UNE e do CGT.
Ministro do Trabalho
Com a vitória do presidencialismo no plebiscito de janeiro de 1963, João Goulart compôs novo gabinete. Almino Afonso recebeu a pasta do Trabalho e Previdência Social, com a tarefa de assegurar a adesão do movimento sindical ao Plano Trienal — programa de estabilização econômica concebido por San Tiago Dantas e Celso Furtado.
Gestão e conflitos
Ao tomar posse em 24 de janeiro, fez apelo aos trabalhadores grevistas para que interrompessem temporariamente as paralisações enquanto a nova gestão avaliava as demandas da categoria. O CGT, contudo, não recuou: manteve os movimentos e seguiu pressionando por um reajuste salarial de 70%, o dobro dos 40% contemplados pelo Plano Trienal.
Nas primeiras semanas no cargo, pressionou empresas a cumprir acordos salariais e a saldar dívidas com os institutos previdenciários. Anunciou também planos de substituir as diretorias dos institutos de aposentadoria e pensões — historicamente atreladas ao clientelismo petebista na Guanabara e em São Paulo — e de reformar órgãos como a Comissão de Imposto Sindical e a Comissão Técnica de Orientação Sindical, ligados à estrutura corporativa do ministério.
Em 2 de março de 1963, assinou, ao lado de Goulart, San Tiago Dantas e José Ermírio de Moraes, a Lei nº 4.214 — o Estatuto do Trabalhador Rural —, que abriu caminho para a organização sindical no campo em todo o território nacional.
No início de abril, revogou portaria ministerial de 1954 que vedava a organização horizontal de trabalhadores acima das confederações por categoria e editou novas instruções que reconheciam o CGT como entidade legítima, com fundamento nos direitos constitucionais de associação e reunião. A medida desagradou o presidente Goulart e provocou reação dos industriais, que se manifestaram por meio da FIESP e da CNI, mas conquistou o respaldo dos setores de esquerda.
Em maio, representou o Brasil na Conferência Interamericana de Ministros do Trabalho, convocada pela OEA em Bogotá, onde criticou publicamente os resultados da Aliança para o Progresso.
Demissão
O acúmulo de divergências com Goulart — Almino gravitava cada vez mais para a órbita de Brizola e das lideranças sindicais, enquanto o presidente buscava enfraquecer o CGT — e o naufrágio do programa econômico precipitaram a queda de quase todo o gabinete em junho de 1963. No dia 16, Almino cedeu lugar ao senador petebista Amaury de Oliveira e Silva, figura sem expressão nos meios sindicais.
Retorno à Câmara e cassação
Destituído do ministério, Almino retomou sua cadeira de deputado federal e liderou o "bloco compacto" do PTB na Câmara. Nessa condição, bateu-se pelo monopólio público dos recursos minerais, da energia elétrica e das telecomunicações, bem como pela estatização do setor bancário e da indústria farmacêutica, pela restrição das remessas de lucros ao exterior, pelo direito de voto dos analfabetos e pela elegibilidade dos sargentos.
Em dezembro de 1963, subscreveu o manifesto da Frente de Mobilização Popular (FMP), que cobrava a reformulação do gabinete numa chave nacionalista e popular e propunha a inclusão de Leonel Brizola.
Nos primeiros dias de abril de 1964, após o movimento político-militar de 31 de março, esteve com Goulart em Brasília — junto a Darcy Ribeiro, Waldir Pires, Armindo Doutel de Andrade e Tancredo Neves — para avaliar as chances de resistência. Na ocasião, ajudou a redigir, com Doutel de Andrade e Tancredo, um pronunciamento gravado por Goulart para a Rádio Nacional, no qual o presidente denunciava a natureza do levante e apontava supostos vínculos com a inteligência norte-americana. Na noite seguinte, Goulart partiu para Porto Alegre.
No dia 10 de abril, teve o nome incluído na primeira lista de punidos pelo AI-1: perdeu o mandato parlamentar e ficou com os direitos políticos suspensos por uma década.
Exílio
Abrigado na embaixada da Iugoslávia em Brasília, partiu para um longo período fora do país. A estadia inicial na Iugoslávia, de alguns meses, foi compartilhada com o colega Rubens Paiva.
Seguiu para o Chile, onde lecionou na Universidade Católica (1972–1973) e dirigiu a FLACSO (1973–1974). Em Santiago, morou em Los Condes numa casa geminada vizinha à de Paulo Freire, cujos filhos brincavam com os de Almino no quintal. Enquanto estava lá, cogitou retornar ao Brasil após trocar cartas com Rubens Paiva, mas desistiu ao saber do desaparecimento do amigo.
Em 1973, com o golpe de Estado no Chile em 1973, juntou a família para queimar papéis comprometedores e pôs os filhos para levar outros documentos em mochilas para serem atirados num rio próximo. Passou ainda pelo Uruguai, pelo Peru e pela Argentina, sempre ligado a organismos do sistema da ONU.
Retorno ao Brasil e o PMDB
Em agosto de 1976, regressou ao Brasil vindo de Buenos Aires e fixou-se em São Paulo, onde retomou a advocacia. Em janeiro de 1977, participou da criação do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), ao lado de Francisco Weffort e outros acadêmicos.
A partir do fim de 1977, tornou-se articulista semanal da Folha de S.Paulo, discutindo temas como a abertura política e a reorganização partidária. Defendia a formação de uma nova legenda vinculada às classes trabalhadoras e a convocação de uma assembleia nacional constituinte. De 1979 a 1983, integrou o Conselho Federal da OAB.
Em fevereiro de 1979, encontrou-se com Leonel Brizola em Lisboa e com Miguel Arraes em Paris, debatendo a convergência das forças oposicionistas. De volta ao Brasil, aproximou-se de lideranças sindicais como Luiz Inácio Lula da Silva, então à frente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e principal articulador do nascente PT.
Em maio de 1979, filiou-se ao MDB. Com a extinção do bipartidarismo, ingressou no PMDB, assumindo a coordenação de sua tendência popular. Em agosto de 1981, requereu a impugnação da tentativa de Jânio Quadros de se filiar ao PMDB; a comissão executiva nacional acabou por barrar o ingresso do ex-presidente.
No pleito de novembro de 1982, concorreu ao Senado por São Paulo pelo PMDB, obtendo 1,86 milhão de votos — segunda colocação na legenda, atrás de Severo Gomes.
Secretário e vice-governador de São Paulo
Em 1983, o governador André Franco Montoro o nomeou para a Secretaria dos Negócios Metropolitanos de São Paulo, cargo que exerceu até 1986. Durante sua gestão, enfrentou o escândalo conhecido como Mogigate, quando cassou a permissionária dos transportes São Paulo–Mogi das Cruzes que operava desde 1940.
Em 1986, concorreu a vice-governador ao lado de Orestes Quércia, cuja chapa do PMDB venceu o pleito. Exerceu o cargo de governador nos impedimentos e viagens do titular. Mesmo antes do início da gestão, defendeu a aproximação com o PT, em oposição aos setores peemedebistas que pretendiam aliança com o PFL.