O talian ou taliano (também conhecido como vêneto brasileiro e vêneto sul-rio-grandense) é uma variedade da língua vêneta falada no Brasil, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e em pontos do Paraná, Mato Grosso e Espírito Santo.Colônias do interior do PR falam idioma que não existe mais nem em outros países
O talian é um produto da imigração italiana no Brasil que resultou da fusão de várias línguas italianas, com amplo predomínio da língua vêneta e uma significativa contribuição do português.Projeto reúne mais de 40 municípios do RS pela salvaguarda da língua Talian, Gov.br No início do século XX já estava bem desenvolvido, dando origem a obras literárias. No entanto, a partir da década de 1930 foi severamente reprimido no âmbito da campanha de nacionalização imposta pelo governo Vargas, o que prejudicou a memória coletiva, o sentido de identidade, a sociabilidade, a produção cultural e a autoestima dos descendentes de italianos, entrando em rápido declínio. Sua recuperação e normatização ocorreu a partir da década de 1970, e hoje uma série de iniciativas buscam sua preservação e disseminação. É objeto de muitos estudos científicos, já existe significativa literatura, é um patrimônio cultural oficial em estados do sul, foi adotado como língua co-oficial em várias cidades, diversos jornais e rádios publicam em talian, e foi reconhecido como Referência Cultural Brasileira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Em 2015, Serafina Corrêa recebeu o título de capital nacional do Talian.Talian em Serafina Corrêa, breve histórico, Município de Serafina Corrêa Em 2019, Nova Erechim foi reconhecida como a capital catarinense do Talian.Lei Nº 17.778, de 25 de setembro de 2019, Reconhece o Município de Nova Erechim como a Capital Catarinense do Talian (vêneto brasileiro) Em 2021, o governador Ratinho Júnior sancionou a lei estadual 20.757, que torna o município de Colombo a capital do Talian no Paraná. Lei Ordinária Nº 20757, de 4 de novembro de 2021Governador sanciona Lei que torna Colombo a Capital do Talian no Paraná, Jornal de ColomboRatinho Júnior sanciona lei que torna Colombo Capital do Talian no Paraná, Grupo Paraná Comunicação
Período formativo miniatura|As línguas faladas no Nordeste da Itália, estando o vêneto marcado em verde-claro.
Imigrantes italianos começaram a chegar em massa ao Brasil no final do século XIX, através de um programa oficial do governo para ocupação de vazios demográficos, branqueamento racial e criação de uma força de trabalho livre. Os italianos que imigraram para o Brasil eram de diferentes partes da Itália, cada qual com seu dialeto próprio, mas no sul do Brasil e no Espírito Santo predominaram os imigrantes do norte da Península Itálica, principalmente das regiões do Vêneto, da Lombardia, do Trentino-Alto Ádige e do Friuli-Venezia Giulia. Destes, cerca de 60% eram de língua e cultura vênetas.Mengarda, Elias José. "Gênese e Evolução dos Dialetos Trentino e Vêneto". In: Working Papers em Linguística, 2001; 5 (1)
Em algumas localidades onde houve maior concentração de imigrantes provenientes de uma determinada localidade da Itália, ainda é possível reconhecer especificidades dialetais, como exemplo, a comunidade de Pomeranos, onde o dialeto trentino conseguiu se manter. Mas, de maneira geral, as colônias eram habitadas por pessoas de diferentes partes da Itália, colocando em contato vênetos, lombardos, trentinos e, mais raramente, friulanos. Como havia uma predominância demográfica de vênetos, com o passar do tempo a fala vêneta se sobrepôs às demais, embora incorporasse elementos delas, e foi evoluindo para um linguajar mais geral, formando um dialeto vêneto brasileiro, compreendido por todos os italianos e descendentes da região.
Nas primeiras décadas de imigração, havia grande resistência da comunidade italiana em se misturar com os brasileiros. O processo de integração foi lento. Esse isolamento durou cerca de cinquenta anos, a contar do início da imigração, em 1875. No sul do Brasil, muitas colônias italianas eram situadas em regiões de acesso difícil ou relativamente independentes da população brasileira. Isso criou um isolamento cultural e permitiu a manutenção do uso da fala dialetal italiana por gerações. Tal fato não foi possível, por exemplo, no estado de São Paulo onde, apesar da ocorrência do paulistaliano, os imigrantes italianos tiveram contato diário com a população brasileira local, e seus dialetos foram rapidamente suplantados pela língua portuguesa. thumb|Mapa do Rio Grande do Sul. A área de maior concentração dos falantes de talian está entre as regiões 4 e 5
Para o Rio Grande do Sul, houve um fluxo majoritariamente vêneto e lombardo e, na primeira fase, que durou de 1875 a 1910, os imigrantes preservaram seus dialetos regionais vênetos e lombardos, além de falares minoritários trentinos e friulanos. O segundo período iniciou-se a partir de 1910, com a construção da estrada de ferro que liga Caxias do Sul a Porto Alegre. O isolamento começou a ser rompido, aliado ao incremento comercial e industrial. Em consequência, os dialetos menos representativos numericamente foram extintos, ao mesmo tempo que os dialetos lombardos e vênetos se interinfluenciaram, com a predominância dos últimos, surgindo uma fala comum, um koiné, chamado mais tarde de talian.
Durante as primeiras décadas da imigração o italiano conheceu um forte florescimento. Foi ensinado em escolas e usado na imprensa regional, havendo jornais que publicavam exclusivamente em italiano, sem qualquer oposição do governo brasileiro.Pozenato, Kenia Maria Menegotto & Giron, Loraine Slomp. 100 Anos de Imprensa Regional 1897-1987. EDUCS, 2004Cunha, Karine Marielly Rocha da & Gabardo, Diego. "Talian: língua negada e (re)conhecida pelos descendentes vênetos de Curitiba e região metropolitana". In: Revista X, 2020; 15 (6) Nesta época inicial a imprensa se expressava geralmente no italiano padrão adotado pelo Reino da Itália após sua unificação, pois se voltava para um público amplo, mas difuso no espaço e linguisticamente heterogêneo. Isso representava um problema, pois a maioria dos imigrantes não dominava o italiano padrão e só falava seus dialetos regionais. Já a Igreja Católica, religião da esmagadora maioria dos imigrantes e dotada de notável influência política e social, para bem doutrinar e exercer seu papel pastoral precisava se fazer entender, e, podendo atuar localmente, tendia a privilegiar os dialetos majoritários de cada comunidade, usando-os nos púlpitos, publicando jornais e mantendo muitas escolas e associações comunitárias onde esses dialetos eram reproduzidos, sendo um agente importante para a preservação e padronização linguística, ajudando a fundir as variantes numa língua geral que possibilitasse o entendimento entre todos, sendo, neste sentido, tanto pelo culto em comum como pelo trabalho linguístico, o principal elo agregador na organização social das comunidades. O governo brasileiro inicialmente também era sensível às diferenças, promulgando em 1871 a Lei 771 que mandava a criação de aulas elementares nas colônias onde os professores deviam ser fluentes no dialeto mais usado no local.
O vêneto, como já foi dito, acabou predominando, e teve entre suas primeiras expressões escritas importantes os contos de Carlo Porrini publicados no jornal Corriere d'Italia, e os poemas de Angelo Giusti, autor da letra da canção La Mérica, que se tornou uma espécie de hino da italianidade no sul do Brasil. O primeiro grande monumento literário do talian, contudo, foi Vita e Stòria de Nanetto Pipetta, escrita pelo frei Aquiles Bernardi, publicada em forma de folhetim pelo jornal Staffetta Rio-Grandense entre 1924 e 1925, que foi um grande sucesso entre a população italiana e marcou o início da consolidação da variante que se conheceria como talian. Pouco depois essa situação favorável começaria a mudar.
Declínio
thumb|left|Reunião da família Benvenutti em Caxias do Sul, 1928.
Para muitos imigrantes e a sua primeira geração nascida no Brasil, em vista da situação mais ou menos autossuficiente das colônias, o aprendizado do português não foi visto como uma necessidade absoluta, embora tenham sido atestados muitos casos em que se manifestou interesse por esse aprendizado, na constatação de que a integração no longo prazo era inevitável e o domínio da nova língua facilitaria o progresso econômico e social do italiano. Porém, especialmente entre os mais velhos, houve muitos que jamais chegaram a aprender o português, ou no máximo adquiriram um conhecimento muito rudimentar. Isso produziu um contexto de relativo isolamento cultural e ao mesmo tempo uma consciência da existência de uma comunidade étnica, mas segundo Giralda Seyferth, no interior das colônias não havia um conflito entre uma vinculação primordial com uma nação ou pátria de origem e a condição de brasileiros, tanto que "festejavam-se nas colônias as datas e heróis nacionais dos respectivos países de origem, sem prejuízo de manifestações de patriotismo em relação ao Brasil". Por isso foi possível para os italianos desenvolver uma retórica ufanista e épica claramente baseada na etnicidade, no ethos do trabalho e na milenar herança cultural italiana.
Porém, a situação de "enquistamento cultural" começou a preocupar alguns políticos já na República Velha, vendo o programa imigratório do Império como desastroso por introduzir no país grupos estranhos às origens nacionais tradicionalmente portuguesas. Havia ainda outros interesses em jogo. Parte das elites regionais luso-brasileiras percebia como uma ameaça o inconteste sucesso econômico de muitas colônias, a ascensão de italianos a postos de liderança e as suas reivindicações de direitos iguais. Para cercear a competição, negava-se à etnia italiana imigrada a qualidade de brasileiros, montando um discurso de exclusão com forte argumentação nacionalista.Seyferth, Giralda. "As identidades dos imigrantes e o melting pot nacional". In: Horizontes Antropológicos, 2000; 6 (14)
Com a instalação do Estado Novo, passou-se a culpar a República Velha por não ter resolvido uma questão que agora adquiria a dimensão de "problema de segurança nacional". Este movimento político-ideológico foi a base da criação da campanha de nacionalização, que instituiu o aprendizado obrigatório do português e proibiu o uso da fala dialetal italiana. Outros grupos imigrantes também foram afetados da mesma maneira. Os italianos passaram a ser vistos como potenciais traidores da Pátria brasileira e houve grande repressão policial nas colônias contra o uso do dialeto. Pessoas foram presas e até espancadas pela polícia ao serem pegas falando dialeto nas ruas, nomes italianos de locais, acidentes geográficos, logradouros públicos, associações, clubes e municípios foram mudados para nomes brasileiros, e reduzida ao silêncio, toda a estrutura da sociabilidade, da memória, da identidade e da cultura das comunidades coloniais foi seriamente comprometida.
Durante a II Guerra Mundial, quando o Brasil se tornou inimigo da Itália, a repressão atingiu níveis ainda mais duros. Segundo Cunha & Gabardo, "os cidadãos italianos e seus descendentes, em sua grande maioria, aceitam essa repressão para poderem se sentir integrados na nova realidade, na nova pátria. Em muitos casos há a negação da identidade italiana como forma de aceitação, integração e pertencimento". As consequências desse programa de nacionalização forçada ainda são perceptíveis na atualidade.