Michel Giacometti (Ajaccio, Córsega, 8 de janeiro de 1929 – Faro, 24 de novembro de 1990) foi um etnólogo e coletor corso que fez importantes recolhas etno-musicais em Portugal.Le pionnier de l’ethnomusicologie portugaise nous a quittés : Michel Giacometti (1929-1990) – artigo de Anne Caufriez, Chaiers d’ethnomusicologie, 5 | 1992 : Musiques rituelles, p. 247-255 Foi criado no Norte de África por um tio, funcionário colonial.Magalhães, M. Gonçalves (2015). Michel Giacometti: a voz pelos caminhos da tradição. Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, (12).

Existe na freguesia da Quinta do Conde, em Sesimbra, uma escola do ensino secundário com o seu nome.

Percurso Tendo frequentado o Museu do Homem em Paris,Exposer l'humanité - race, ethnologie et empire en France (1850-1950), na pág. do Museu do Homem que o inspirou no gosto pela etnologia, Giacometti interessou-se particularmente pela música tradicional portuguesa: no museu encontravam-se arquivados registos da sua existência.

Sucede isso quando Henri LangloisGRAÇAS A HENRI LANGLOIS – ciclo na Cinemateca Portuguesa, 13 de setembro 2014Faire-Part: Musée Henri Langlois – referência ao filme de Jean Rouch no Cinecartaz do jornal Público tinha já descoberto e salvo muitos filmes esquecidos, uma boa parte deles cruciais na história do cinema, além de velhas máquinas de filmar e projetar, uma grande quantidade de adereços e manuscritos de peças de teatro que depositou no Museu do Homem. É de admitir que, com certas diferenças, o desejo de salvaguarda de tais bens culturais tenha de algum modo influenciado o esforçado GiacomettiMichel Giacometti – longa militância pela cultura e pela transformação da vida – notícia no jornal Avante nos 35 anos da publicação do Cancioneiro Popular Português (1981-2016), 7 de janeiro 2016, que se empenharia no culto das artes populares em Portugal, enquanto o pioneiro Langlois se rendia a outra divindade em França. Langlois é nessa época estimado no seu país pela pura devoção a um ideal fundador, indiferente a tudo o resto. Giacometti é «herói nacional», «um dos cérebros que levou à derrocada o regime reinante, num país sob ocupação, alguém que organizou, por entre riscos e perigos, a fuga de milhares de militantes clandestinos, o que o levou à prisão».

Veio viver para Portugal em finais de 1959. Veio doente, com tuberculose, para um país em que imperava uma das ditaduras típicas da época, serôdia e hipócrita, sorrateiramente mais branda que aquela que assolava a terra de onde amarguradamente vinha. Antes de chegar, empenhara-se na Missão Mediterrâneo (Mission Méditerranée 56, ano de 1956), trabalho de estudo e recolha da música tradicional das ilhas do território onde nascera. Uma vez chegado, o cheiro do mar leva-o a instalar-se no piso mais elevado de um edifício ribeirinho de Cascais, no meio de casas de pescadores.

Pouco depois de chegar, apresentou à Fundação Calouste Gulbenkian, à recentemente criada Comissão de Etnomusicologia, um projeto de recolha de música popular do Nordeste Transmontano, pedindo apoio, que lhe foi negado. Manuela Perdigão,Manuela Perdigão que trabalhava na fundação, passou-lhe uma carta de recomendação dirigida a Fernando Lopes-Graça. A 23 de maio de 1960, perante tais obstáculos, Giacometti informou Lopes Graça que avançaria sozinho, com alguns apoios nacionais e internacionais. Tenaz, consegue fundar os Arquivos Sonoros Portugueses (outubro de 1960).EB 2,3/S Michel Giacometti

Produz então uma série de programas radiofónicos sobre a música tradicional portuguesa para a Emissora Nacional, Radio France, WDR (Rádio da Alemanha Ocidental), Sveriges Riskradio (Estação pública de rádio da Suécia).

E visto que na tradição popular a música não dispensa a palavra, envolve-se ainda na pesquisa e salvaguarda da literatura oral (ver por exemplo a cantiga José embala o Menino), a par com a musical, país fora, a partir de 1965. Integra a equipa de investigadores da Faculdade de Letras de Lisboa, Instituto de Geografia, no projeto Linha de Acção de Recolha e Estudo da Literatura Popular.Grupo de Investigação 8 - Tradições Populares Portuguesas Professor Manuel Viegas Guerreiro (recolhido no âmbito do Plano de Trabalho e Cultura dirigido por Michel Giacometti, 27 de novembro de 2009)

Fixa-se entretanto em Bragança. Percorrendo o país nas décadas seguintes, até 1982, gravou músicas tradicionais de cantores do povo, que as usava como incentivo lúdico durante o trabalho, tornando-o mais leve e na prática mais eficaz. Seduzido pelo encanto do artifício, acaba por lançar, com a colaboração de Fernando Lopes-Graça, a "Antologia da Música Regional Portuguesa", os conhecidos “discos de sarapilheira”, coleção editada pelos Arquivos Sonoros Portugueses. Recolhe também importantes dados sobre o teatro de marionetes.Vitalité des formes anciennes du théâtre de marionnettes au Portugal: le cas des Bonecos de Santo Aleixo – texto de Christine Zurbach, Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA), Universidade de Évora

A partir de 1970 dirigiu na RTP, durante três anos, o programa O Povo que CantaO povo que ainda canta com filmes realizados por Alfredo Tropa, dando assim a conhecer ao país uma considerável diversidade de cantos de trabalho,Canto de trabalho em Terra Mater um frágil património imaterial em vias de extinção. CANTOS DE TRABALHO em imagens da RTP Dirige em 1975 o Plano de Trabalho e Cultura Arquivo Digital da Tradição Oral no Fundo M. Giacometti (recuperar a cultura popular portuguesa, com estudantes do Serviço Cívico e com a colaboração dos professores Jorge Gaspar, Machado Guerreiro e Manuel Viegas Guerreiro).Manuel Viegas Guerreiro, artigo de Maria Fonseca e de Francisco Ferreira, Finisterra, XXXIII, 65, 1995, pp. 7-10Michel Giacometti e o Plano de Trabalho e Cultura - Serviço Cívico EstudantilRegisto da festa de Santa Cruz na Aldeia da Venda, no concelho de Alandroal, «uma celebração que faz parte do ciclo das Festas de Maio, ou Festas da Primavera, tradição que se perpetua desde a antiguidade.» Produção RTP com realização de Alfredo Tropa

Em 1981 foi editado pelo Círculo de Leitores o Cancioneiro Popular Português, que contou também com a colaboração de Fernando Lopes-Graça. Em 1987 foi inaugurado em Setúbal, por sua inspiração, o Museu do Trabalho.Museu do Trabalho Michel Giacometti O museu beneficiou bastante da intervenção de Giacometti graças à exposição "O Trabalho faz o Homem". Reúne uma vasta coleção de instrumentos agrícolas e de objetos por ele recolhidos. O museu passa a denominar-se Museu do Trabalho Michel Giacometti. Renovado, abre a 18 de maio de 1995. Museu do Trabalho de Setúbal « O Museu do Trabalho de Setúbal, que, em homenagem ao seu fundador e após a sua morte em 1991 passou a denominar-se Museu do Trabalho Michel Giacometti, abriu as portas ao público a 18 de maio de 1995. »Museu do Trabalho Michel Giacometti em This is LisbonCentro de Memórias do Museu de Trabalho Michel Giacometti Projeto ao “Encontro da Memória através do Património” – artigo de Maria Miguel Cardoso em Medi@çõesMichael Giacometti – a descoberta de um povo em 80 anos – referência a uma exposição no Átrio Saldanha

Giacometti, «o andarilho», o «senhor de cabelo e barbas brancas que chegava de burro», morre em Faro no dia 24 de novembro de 1990. Está sepultado, por vontade sua, transmitida ao dirigente do Partido Comunista Português Octávio PatoMichel Giacometti – longa militância pela cultura e pela transformação da vida artigo do Jornal Avante de 7 de Janeiro de 2016, na terra seca da pequena aldeia de Peroguarda,Viagem sentimental “A 25 de Novembro de 1990, dia de chuva branda, uma aldeia alentejana saiu à rua” no concelho de Ferreira do Alentejo. Algum do espólio de Giacometti pode encontrar-se também noutros locais, como no Museu Municipal de Ferreira do Alentejo, no Museu da Música Portuguesa (Casa Verdades de Faria,Casa Verdades de Faria – declaração de legado no Monte Estoril) e ainda no Museu Nacional de Etnologia.

Ilustrando noutra perspetiva os méritos do seu trabalho, é realizado em 1997 o documentário Polifonias - Pace é Saluta, Michel Giacometti,Polifonias - Paci é saluta, Michel Giacometti (1997) em CINEpt de Pierre-Marie Goulet.Pierre-Marie Goulet na UBI A 9 de junho de 2002, foi agraciado, a título póstumo, com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2004 é lançado o livro "Michel Giacometti - caminho para um museu", aquando de uma exposição organizada pela Câmara Municipal de Cascais. Em 2005 tem lugar na Córsega, no Festival Cantares de Mulheres e Instrumentos do Mundo, uma homenagem a Michel Giacometti,[http://www.gaitadefoles.net/imprensa/giacometti_heranca.htm A herança desconhecida] – artigo de António Henriques no semanário Expresso, 6 de março de 1999 (homenagem em Ajácio, Córsega), iniciativa da Câmara Municipal de Cascais que conta com a participação de Amélia Muge, Gaiteiros de Lisboa e Mafalda Arnauth. Ilustrando ainda tal trabalho, é inaugurada a exposição "O Campo e o Canto" com fotografias de António Cunha.Antóno Cunha e a projeção de dois filmes de Pierre-Marie Goulet no Sapo O Setor Intelectual de Coimbra do Partido Comunista Português organiza um "Reencontro com Giacometti", num ciclo de comemorações, entre janeiro e outubro de 2009, cinquenta anos após a sua chegada a Portugal e oitenta depois do seu nascimento.Michel Giacometti – longa militância pela cultura e pela transformação da vida – artigo no jornal Avante, 7 de janeiro 2016 É iniciado em 2016 o Projeto Michel Giacometti, homenagem prestada pelo grupo português Quarteto ARTEMSAX.Projeto Michel Giacometti, «trabalho de parceria entre o Quarteto ARTEMSAX e o compositor Lino Guerreiro, que conta com a participação especial de Grupo Coral Ausentes do Alentejo, os Bardoada - o Grupo do Sarrafo, Marco Fernandes (percussão), Paulo Machado (acordeão) e Trio de Cordas de Palmela»

Discografia Música tradicional Portuguesa – 12 obras fonográficas / 24 discos (1960-1983) (ver Música de Portugal) Antologia da Música Regional Portuguesa – 5 discos (1960-1970) 16 discos sobre a música de Portugal continental: Música nos Açores e na Madeira (Antologia da Música Regional Portuguesa) Trás-os-Montes Ge LDI/1960Trás-os-Montes Algarve Ge LD 12/1963Algarve MinhoMinho Alentejo Ge LD 17/1965Alentejo Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral Ge LD 18/1970Beira Alta - Beira Baixa - Beira LitoralEntrevista com Giacometti Oito cantos trasmontanos Ge AS 101/1961Oito Cantos Transmontanos Cantos Tradicionais do Distrito de Évora GE AS 119/1965 (Ed. dos. Arquivos Sonoros Portugueses e da Junta Distrital de Évora) Bailes Populares Alentejanos/AS 50/1968Bailes Populares Alentejanos em Covil do Vinil Cantos Religiosos Tradicionais Portugueses - Philipps 6499 226/1971Cantos Religiosos Tradicionais Portugueses Cantos e Danças de Portugal - Diapasão 25 005/1981Música Regional Portuguesa

Antologia da Música Regional Portuguesa O primeiro volume intitula-se "Cantos e danças de Portugal". Os seguintes são dedicados ao "Minho", "Trás-os-Montes", "Beiras" e o último ao "Alentejo e Algarve".

Os "discos de serapilheira" O Mistério Giacometti, artigo de José Alberto Sardinha no semanário Expresso são editados em pequenas tiragens. Os discos da Antologia são divulgados em França pela editora Chant du Monde.Chant du Monde Uma seleção dos discos 1, 2 e 3 surge em Visages du Portugal, Le Chant du Monde (LDX A 43).Lista no Museu da Música Portuguesa Em 1998 os discos em vinil são reeditados em CD pela Strauss (que se tornaria a SassettiSassetti) e em 2008 pela Numérica.Célebres LP de capa de serapilheira de Giacometti e Lopes-Graça editados em CD, notícia na Lusa, 19 de abril 2008 Descrição do conteúdo da caixa dos discos em vinil: Volume 1, Volume 2, Volume 3, Volume 4, Volume 5, Volume 6, Volume 7, Volume 8, Volume 9, Volume 10

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