thumb|right|300px|Dentre muitas outras, a tradição popular atribui às Incelenças a faculdade de facilitar a morte dos agonizantes, de modo minimizar-lhes o sofrimento. De forma similar, são entoadas em meio a orações contra males perniciosos, tempestades e inundações, bem como em preces para abrandar as estiagens. Na foto, o velório do comediante chileno Eduardo Tompson. As Incelenças, também denominadas Incelências (em língua portuguesa: Excelência, por corruptela), Cantigas de Guarda, Cantigas de Sentinela ou Benditos de defuntos constituem uma forma de expressão musical típica de localidades do Ceará, Sertão Nordestino, cidades do Vale do Paraíba e, em escala maior, em outras regiões do Brasil.M. H. de Melo Santana. INCELÊNCIAS: o povo canta seus mortos. O termo Incelença remete a uma ampla coletânea de pequenos cânticos executados especialmente em virtude de falecimentos. De forma similar, podem ser também executados sob a cabeceira dos enfermos terminais, substituindo a extrema unção na ausência de sacerdote e apressando-lhes a morte, diminuindo-se-lhes, então, o sofrimento.Valente (1988), pg. 67 Neste âmbito, credita-se às Incelenças a propriedade de despertar nos agonizantes o remorso sobre os pecados, incitando-os ao arrependimento.Aluísio Alves (Angicos, 320) Não obstante associadas, no mais das vezes, aos ritos mortuários, há registros de sua utilização em meio a preces contra males infecciosos, inundações ou mesmo para amenizar as duras estiagens que castigam a região do semiárido. Em outras acepções, porém, a utilização destas cantigas fora dos contextos estritamente fúnebres é considerada um agouro de morte.Fonca e Barbosa (19937

Marcadas pela perpetuação de sua oralidade (estendendo-se de pai para filho e de benzedores para jovens através da memória), as Incelenças apresentam uma estrutura rítmica bastante simples e compõem-se sempre de doze estrofes - o número dos apóstolos de Cristolente (1988), pg. 41 -, idênticas à primeira exceto pela marcação numeral no início de cada uma. A execução de tais cantigas é feita sem acompanhamento instrumental, sendo, geralmente, iniciada por uma ou mais vozes femininas, que cantam os primeiros versos de cada estrofe e às quais se segue um coro em uníssono, entoando os demais.Fonseca e Barbosa (1993), pg. 37 Outras vezes, embora mais raramente, podem ser rezadas, cantadas em solo, uníssono ou coro.Oliveira e Barroso (2003), pg. 329 Seja como for, acredita-se que uma vez iniciada a execução das incelenças não podem ser interrompidas, nem mudados seus executantes, sob pena de a alma do falecido não alcançar a salvação.

Embora tenham sido, no passado, parte integrante da generalidade dos velórios sertanejos, a severa repressão policial, em parceria com o descaso das autoridades católicas, tornou a utilização das Incelenças restrita às zonas rurais mais isoladas e distantes das grandes aglomerações urbanas. Atualmente, entretanto, medidas pontuais vêm sendo tomadas para reavivar a tradição das Incelenças em certos contextosSem Nome. Tradição das 'incelenças' é perpetuada por mulheres no Ceará, em G1.com. Acesso em 23 de abril de 2013

Origem thumb|left|200px|De origem lusitana, as Incelenças e os Benditos se propagaram pelos sertões brasileiros através da ação catequizadora dos padres jesuítas e dominicanos.Brito(1999), pg. 147 Na ilustração de Rugendas, padres jesuítas entre os índios. Derivada da fusão entre certos rituais fúnebres lusitanos e cantigas de origem cristã-nova, o uso das Incelenças remonta aos primórdios da colonização brasileira. Suas matrizes portuguesas remontam uma forma similar de expressão oral denominada Excelência,Dias (1929),pg. 59 que, por sua vez, provém de antigas tradições mouriscas, adaptadas à realidade católica.Lima (1948), pg. 183 Usada em propósitos semelhantes nas regiões de Douro, Beira e Minho, as Excelências seguem uma ordem numérica rígida, que se inicia com um e prossegue até doze, repetindo os versos conforme a quantidade anunciada no início da canção.Lima (1948), pg. 185 Acerca do fato, o filólogo e folclorista português Augusto César Pires de Lima exemplifica com a Excelência conhecida como Doze Excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça,Lima (1948), pg. 189 aqui representada de forma a facilitar a compreensão.

Uma excelência que deu o Senhor à Senhora da Graça

Duas excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça Duas excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça

Três excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça Três excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça Três excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça

[...]

Doze excelências que deu o Senhor à Senhora da Graça (12 vezes)

Uma forma ritualística semelhante é encontrada em Marrocos, onde são entoados certos romances bíblicos que não podem ser interrompidos.Pidal (1924), pg. 120 No Brasil, a propagação das Incelenças se deveu principalmente à ação catequizadora dos padres jesuítas e dominicanos, que se utilizavam de sua estrutura simples e mnemônica para difundir entre a população indígena e cabocla os rudimentos da fé católica, tendo também contribuído o grande afluxo de colonos beirões que se fixaram por toda a Região Nordeste do Brasil.

Melodicamente, as incelenças se assemelham a outras tradições da musicalidade popular nordestina, a exemplo dos aboios e das toadas, compartilhando com elas características como o excessivo alongamento e deliberada nasalização das vogais, além da melodia lenta e lúgubre.

Embora tenham inicialmente integrado a cultura das classes rurais pobres do sertão nordestino, as incelenças eventualmente penetraram todos os estratos sociais, tendo sido, por muito tempo, entoadas indistintamente em funerais de ricos e pobres. Em tempos mais recentes, entretanto, a tradição das incelenças foi paulatinamente se perdendo na grandes cidades, e, em seguida, também nas médias e pequenas, estando hoje confinada às zonas rurais mais isoladas do interior nordestino.

Estrutura

As incelenças constituem-se de doze estrofes de quatro versos, idênticas umas às outras exceto pela marcação numérica crescente em cada uma delas.Martins (1969), pág. 178 A numeração das estrofes, aliás, é geralmente encontrada no início de seu primeiro verso, sendo mais comum a contagem das próprias incelenças. Em outras palavras, canta-se "Uma incelença..." para a primeira, "Duas incelenças..." para a segunda, e assim sucessivamente até se cantarem doze, conforme se pode observar nesta conhecida incelença: Uma incelença, entrou no paraíso Uma incelença, entrou no paraíso Adeus, irmãos, até o dia do juízo Adeus, irmãos, até o dia do juízo (...) Doze incelenças, entrou no paraíso Doze incelenças, entrou no paraíso Adeus, irmãos, até o dia do juízo Adeus, irmãos, até o dia do juízo Em se tratando do velório de crianças, as estrofes se repetem apenas nove vezes Contexto ritual das incelenças: a Sentinela thumb|300px|right|Nas sentinelas, a continuidade da celebração é geralmente confiada a grupos de mulheres, enquanto a maioria dos outros convidados conversa, come, bebe ou joga. Na foto, cantadeiras de incelenças em Crato, Ceará. No Nordeste brasileiro, a utilização fúnebre das Incelenças tradicionalmente insere-se num contexto ritual conhecido como Sentinela, Guarda, Guardamento ou Fazer Quarto. Nessa forma tradicional de velório, realizada na própria casa do falecido e que se estende por toda a noite anterior ao sepultamento, atribui-se às Incelenças a propriedade de invocar os anjos e santos, que, segundo a crença, acompanhariam a alma do falecido até o destino conveniente. De acordo com as crenças do catolicismo popular, o "caminho" é longo e diante das tentações do demônio, é indispensável a presença protetora dos Anjos e Santos. O arcanjo São Gabriel e a Virgem Maria são os mais invocados. Miguel, com a sua balança na mão, pesa cada alma. O papel de advogada, então, cabe à Maria. De perpetuação basicamente oral, as Sentinelas não formam um ritual homogêneo, variando imensamente conforme a região ou outros fatores, como a vontade dos presentes.Marluce Lima de Morais. Lamentos que encantam:as incelências e a religiosidade piauiense. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. p. 1 Em tais celebrações, há uma amálgama entre práticas oficiais da Igreja Católica com as práticas da religiosidade popular e manifestações lúdicas. Em muitos casos, versos cômicos, Incelenças parodiadas e trechos de cordel sem qualquer significado mística são utilizados para consolar os parentes do falecido. Um caso notório deste costume são as chamadas "Incelenças de Joaquim do Ouro"Fonseca e Barbosa (1993), pg. 227: forma de Incelença parodiada em que o defunto é retratado de maneira debochada.

O objetivo principal do ritual da Sentinela seria o de "convecer" a alma do falecido - que permaneceria entre os convivas até o fim da celebração - a seguir ao destino que lhe é reservado. Este ritual, que, segundo a crença marca a cisão defitiva entre o corpo e a alma do falecido, tem como ápice o canto da Incelença de Despedida ou de saída, onde os familiares despedem-se de seu ente querido desejando-lhe um bom destino. Durante toda a sentinela, costuma-se servir bebidas alcoólicas e petiscos aos convidados, além dos tradicionais café, chás, bolachas e caldos, concedendo às sentinelas um ar que beira o festivo.Almeida(1996), pg. 64 Em se tratando do velório de crianças, o ritual despe-se mesmo de seus últimos resquícios morbidade e se converte numa grande celebração, pois, segundo a crença, as crianças mortas transformar-se-iam em anjos, passando a interceder por sua família e por toda a comunidade.Valente (1988), pg. 66Gomes e Pereira (1994),pg. 299