A expressão alemã Reichskirche (Igreja do Império, Igreja do Reich, também chamada de Igreja Nacional do Reich) é aplicada a diferentes e grande fases e partes da história sobre a relação entre Estado e Religião na Alemanha. Ela designa uma estreita conexão ideal, institucional, e comunitária entre um sistema político governante e uma religião cristã difundida em uma determinada área, que durante o Terceiro Reich foi gradualmente moldada de cristianismo positivo em culto pagão. Além disso, a Igreja era subordinada ao Estado ou autoridade monárquica, e sem isto não havia legitimidade moral nem legal, e, em contrapartida, era protegida materialmente e promovida. Como herança, ainda hoje a Igreja na Alemanha é vinculada ao Estado.
O Sistema das Igrejas no Sacro Império Romano-Germânico
Nesta fase, do Sacro Império Romano-Germânico, havia uma confusão entre o Estado e a Igreja (Religião), até mesmo por uma questão de conveniência.
O Kaiser alemão teve de reconhecer que os feudos não eram suficientes para administrar a sua terra. Havia dentre os vassalos a tendência de transformar as propriedades feudais em propriedades hereditárias próprias, tirando-as da influência do Cáiser (Imperador).
Portanto, o Cáiser passou a dar as terras para os bispos católicos, que não podiam ter filhos, e assim o problema da hereditariedade não se colocava (esse período é por vezes chamado de “A Feudalização da Igreja”). Essa relação se tornou problemática quando a reforma da Igreja de Cluny (Saône-et-Loire) levou a tarefa pastoral da Igreja mais a sério, e os Eclesiásticos – inclusive os bispos – tiveram de deixar de jurar fidelidade às autoridades temporais para jurar fidelidade apenas ao Papa. Isso levou a disputas entre o Papa e o Cáiser, o que culminou na Questão das Investiduras.NELSON, Lynn H. The Feudalization of the Church: 850-1000. Disponível em http://www.the-orb.net/textbooks/nelson/cluny.html Acesso em 05 de novembro de 2009.
Entretanto, a relação entre o Papa e o Kaiser (Imperador) permaneceu próxima, pois, a partir de Oto I, o Grande até a mediatização alemã de 1803, muitos dos bispos alemães também eram cumulativamente os Príncipes do Império.
Durante o Terceiro Reich
Nesta fase, a Igreja Nacional do Reich ou Igreja do Reich (em alemão: Reichskirche) foi uma criação, com base na Gleichschaltung, que forçou as Igrejas Protestantes alemãs a unirem-se em uma só na Alemanha nazista, considerada a "igreja oficial" do regime,História das Religiões. Crenças e práticas religiosas do século XII aos nossos dias. Grandes Livros da Religião. Editora Folio. 2008. Pág.: 123. ISBN 978-84-413-2489-3 cujo objetivo era abranger e "nacionalizar" todos os alemães protestantes numa única instituição.
Como resposta, em sua oposição, foi criada a Igreja Confessante, um movimento cristão de resistência ao Partido Nazista na Alemanha. A Igreja Confessante defendia que a Igreja do Reich atentava contra princípios do protestantismo, tais como a liberdade religiosa e a liberdade de associação.HAMMOND, Peter. Reformation and Revival. Disponível em http://www.reformationsa.org/articles/Reformation%20and%20Revival.htm Acesso em 05 de novembro de 2009.RIETH, Ricardo Willy. Associativismo e protestantismo na imigração e colonização: o caso da Associação Gustavo Adolfo. Disponível em http://www3.est.edu.br/publicacoes/estudos_teologicos/vol4702_2007/ET2007-2b_rrieth.pdf Acesso em 05 de novembro de 2009.Nascimento, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. Associações Voluntárias, Missões Protestantes e a História da Educação. Disponível em http://www.anped.org.br/reunioes/32ra/arquivos/trabalhos/GT02-5281--Int.pdf Acesso em 05 de novembro de 2009.
Foi criada em julho de 1933, quando os representantes das igrejas protestantes alemãs que se sujeitaram a isso (na maioria dos casos, forçadamente) escreveram uma constituição para uma Igreja do Reich, criada a partir da fusão das 28 igrejas luteranas e reformistas alemães, que englobavam em torno de 48 milhões de adeptos. Sua criação foi formalmente reconhecida pelo Reichstag no dia 14 de julho.Ascensão e queda do Terceiro Reich - Triunfo e Consolidação 1933-1939. Volume I. William L. Shirer. Tradução de Pedro Pomar. Agir Editora Ldta., 2008. ISBN 978-85-220-0913-8 Adolf Hitler disse: "Por meu intermédio, a igreja Protestante poderia tornar-se a igreja oficial, como na Inglaterra".O Santo Reiche - Ricahrd Steigmann-Gall pg. 197, ed. Imago. ISBN 9788531209215 Apesar da tentativa do partido nazista, a Igreja do Reich porém não conseguiria nazificar com êxito os protestantes e, já em 1934, suas relações com a Alemanha nazista começaram a se deteriorar, e a partir de 1936, os resistentes que não se sujeitaram a força do Reich, passaram a ser presos e mortos.
Ideologia A ideologia da Igreja do Reich era baseada no "cristianismo positivo".The 1933 German Protestant Church Elections: Machtpolitik or Accommodation? by Shelley Baranowski. Church History, Vol. 49, No. 3 (Sep., 1980), pp. 298–315. Published by: Cambridge University Press on behalf of the American Society of Church History. Durante a Segunda Guerra Mundial o regime nazista visava aplicar um programa de trinta pontos para a Igreja do Reich, no qual, pretendia-se substituir o cristianismo pelo paganismo germânico, eles foram apresentados por Alfred Rosenberg, editor do Völkischer Beobachter, assumidamente pagão, dentre os pontos mais importantes estão:
7. A Igreja Nacional não tem escribas, pastores, capelães ou padres, mas oradores do Reich para falar em seu nome.
Segundo Shirer, após "cristãos alemães" (entre aspas) terem feito uma reunião liderada pelo líder de uma seita, Reinhard Krause, em novembro de 1933, que propôs o abandono do Antigo Testamento e a revisão do Novo Testamento; estes que exigiam a retirada do Antigo Testamento e reformulação do Novo Testamento, reunidos, solicitavam fidelidade dos pastores à Hitler, e insistiam que fossem retirados os judeus das igrejas. O bispo Muller desautorizou o KrauseWilliam Shirer; tradução de Pedro Pomar; Ascensão e Queda do Terceiro Reich, RJ, 2008, Vol 1, pág 322, ISBN 978-85-220-0913-8
O Bispo e clero do Reich thumb|left|200px|Discurso de Ludwig Müller após a sua posse formal como Bispo do Reich em Berliner Dom, 23 de setembro de 1934.
Imediatamente após a criação da Igreja do Reich, surgiu uma luta para a eleição de seu bispo. O Führer Adolf Hitler insistia que ele devia ser dado a Ludwig Müller, o conselheiro de Hitler em assuntos da Igreja Protestante e chefe dos "cristãos alemães" (um grupo protestante neo-pagão).George P. Blum, The Rise of Fascism in Europe, Westport, CT, Greenwood Press, 1998, pp. 109-110 Os dirigentes da Federação das Igrejas propuseram o pastor Friedrich von Bodelschwing, porém, o governo nazista interveio, dissolveu uma quantidade de organizações eclesiásticas provinciais, suspendeu diversos importantes dignitários das igrejas protestantes, utilizando a S.A e a Gestapo, aterrorizando os que apoiavam Bodelschwing.
Na véspera da eleição dos delegados ao sínodo que escolheria o bispo do Reich, Hitler pessoalmente ocupou o rádio para exortar à eleição os cristãos alemães, dos quais Müller era candidato. Bodelschwing retirou sua candidatura, e a eleição apresentou uma maioria de cristãos alemães que em setembro, no sínodo de Wittemberg, local escolhido por ser onde Martinho Lutero pela primeira vez desafiara a Igreja Católica, Müller foi eleito bispo do Reich. Uma vez que Lutero foi antisemita,Luther’s Works, Pelikan, Vol. XX, pág.: 2230).Dennis Prager e Joseph Telushkin: Why the Jews? The reason for anti-Semitism (Por que os Judeus: A causa do antissemitismo) (Nova York: Simon & Shuster, 1983), p. 107Oberman, Heiko A. The Roots of Anti-Semitism in the Age of Renaissance and Reformation. James I. Porter, trans. Philadelphia: Fortress Press, 1984. ISBN 0-8006-0709-0. frequentemente os líderes nazistas apelavam para seus escritos para justificarem seus pontos de vista. Por exemplo, em 5 de outubro de 1933, o Pastor Wilhelm Rehm de Reutlingen, declarou publicamente, que "Hitler não teria sido possível sem Martinho Lutero".in Heinonen, Anpassung und Identität 1933-1945 Göttingen 1978 p.150
No dia seguinte a posse de Müller, o dr. Reinhard Kraise propôs em uma reunião que o Antigo Testamento, de origem judaica, fosse abandonado e o Novo Testamento fosse revisto de acordo com as doutrinas nazistas, mais sua ideia foi considerada exageradamente extremista e foi abandonada e Kraise suspenso. Müller não foi capaz de estabelecer a unidade ou nacionalizar completamente as igrejas protestantes, renunciando no final de 1935 depois que a Gestapo prendera setecentos pastores da Igreja Confessional, a opositora da Igreja do Reich.
Confrontos com a Igreja Confessional Em oposição a Igreja do Reich o pastor Martin Niemöller, já em 1934, constituía resistência espiritual e discordava de algumas ideologias nazistas. Tornou-se o líder da Igreja Confessional e da Liga de Emergência dos Pastores, em 1934, no Sínodo Geral, em Barmen, e Dahlem, a Igreja Confessional declarou-se a legítima Igreja protestante da Alemanha e estabeleceu uma direção provisória, em oposição a Igreja do Reich. Assim, havia dois grupos afirmando constituírem legalmente a Igreja.
Já em julho de 1935, Hitler indicara um advogado nazista, dr. Hans Kerrl para o cargo de Ministro de Negócios da Igreja, com instrução de conduzir acordo com a resistência espiritual protestante. Kerrl obteve grande sucesso inicialmente, organizando um Comitê Eclesiástico dirigido pelo dr. Zöllner. Niemöller cooperou com o Comitê, embora o grupo de Niemöller ainda afirmasse ser a única igreja legítima, em oposição à Igreja do Reich. Então, no final de 1935, houve a prisão de 700 pastores da Igreja Confessional pela Gestapo. Após as prisões, o Capelão nazista do exército, a despeito da sua intimidade com Hitler, renunciou ao cargo e saiu de cena. Em 1936, Niemöller enviar uma carta a Hitler e acusa o regime nazista de anticristão e antissemitismo. Como reação,a Igreja Confessional teria seus fundos confiscados, foi proibida de fazer coletas e centenas de seus pastores foram presos e alguns mortos. Zöllner se demitira em 1937 por ter sido impedido de visitar alguns pastores presos pela Gestapo em Lübeck, e foi acusado por Kerrl de não ter conseguido avaliar a doutrina nazista corretamente, revelando a hostilidade do governo perante a Igreja protestante e católica:
"O Partido [disse Kerrl] se fundamenta no cristianismo positivo, o nacional-socialismo (…) O nacional-socialismo é a execução da vontade de Deus (…) A vontade de Deus revela-se no sangue alemão (…) O dr. Zölnner e o conde Galen [bispo católico de Münster] quiseram convencer-me de que o cristianismo consiste na fé em Cristo, como Filho de Deus. Isso fez-me rir (…) Não, o cristianismo não depende do credo dos apóstolos (…) O verdadeiro cristianismo é representado pelo partido, e o povo germânico é agora convocado pelo partido, e especialmente pelo Führer, para realizar o verdadeiro cristianismo (…) O Führer é o precursor de uma nova revelação."Stewart W. Herman Jr., It’s Your Souls We Want, p. 157-8. Herman era pastor da Igreja Americana em Berlim, de 1936 a 1941