Orsina Francioni da Fonseca (Niterói, 17 de dezembro de 1858 – Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1912) foi a primeira esposa do marechal e 8.º presidente do Brasil Hermes da Fonseca. Exerceu, entre a posse presidencial do marido, em 15 de novembro de 1910, e sua morte, em novembro de 1912, a posição de primeira-dama do Brasil.

Filha do militar e político Pedro Paulino da Fonseca, Orsina pertencia a uma das famílias mais influentes entre os militares republicanos brasileiros do final do século XIX. Embora mantivesse um perfil público discreto, participou de iniciativas relacionadas à assistência à infância e à educação profissional de mulheres. Foi próxima da professora e militante Leolinda Daltro, apoiou a instalação de uma escola feminina e foi descrita pelo CPDOC como favorável ao feminismo, ainda que não tenha assinado a ata de fundação do Partido Republicano Feminino.

Orsina morreu durante o exercício da Presidência do marido. Seu velório no Palácio Guanabara e o funeral no Cemitério de São Francisco Xavier mobilizaram membros do governo, parlamentares, militares, associações femininas e grande número de populares. Na Câmara dos Deputados, sua morte foi então apresentada como o primeiro falecimento da esposa de um presidente da República durante o mandato presidencial. Seu nome foi posteriormente incorporado ao do Instituto Profissional Feminino mantido pela municipalidade do Rio de Janeiro, atual Escola Municipal Orsina da Fonseca.

Primeiros anos e família

Orsina nasceu em 17 de dezembro de 1858, na então cidade de Niterói, capital da Província do Rio de Janeiro. Era filha de Francisca Francioni da Fonseca e do coronel honorário Pedro Paulino da Fonseca, militar e político que posteriormente governou o estado de Alagoas, entre 1889 e 1890, e exerceu mandato no Senado Federal.

A família da Fonseca possuía destacada presença no Exército Brasileiro e na política durante a transição do Império para a República. Pedro Paulino era irmão de Manuel Deodoro da Fonseca, proclamador da República e primeiro presidente do Brasil, e integrava o mesmo núcleo familiar ao qual pertenciam o marechal Hermes Ernesto da Fonseca e seu filho, Hermes da Fonseca.

Em 16 de abril de 1879, Orsina casou-se com Hermes da Fonseca, à época capitão do Exército. O casamento ocorreu antes da ascensão de Hermes aos principais postos da hierarquia militar e precedeu em mais de três décadas sua eleição para a Presidência da República.

Do casamento nasceram Mário, Maria, Josefina, Leônidas, Euclides, Manuel Deodoro e Hermes Filho. Maria e Josefina morreram antes da mãe. Os cinco filhos homens sobreviventes — Mário, Leônidas, Euclides, Manuel Deodoro e Hermes Filho — encontravam-se ao lado da família durante os últimos momentos de Orsina, segundo o relato publicado por A Imprensa no dia seguinte à sua morte.

Alguns dos filhos seguiram carreiras públicas ou militares. Mário Hermes da Fonseca tornou-se oficial do Exército, deputado federal e presidente da Câmara dos Deputados, enquanto Euclides e outros irmãos também estiveram ligados à carreira militar.

Esposa de militar e presidente

Durante as primeiras décadas do casamento, a trajetória familiar acompanhou a progressão de Hermes na carreira militar. Ele comandou unidades do Exército, chefiou a Brigada Policial do Distrito Federal, exerceu o Ministério da Guerra no governo de Afonso Pena e alcançou o posto de marechal. Em 1910, após uma eleição marcada pela disputa entre a candidatura militar de Hermes e a Campanha Civilista de Rui Barbosa, o marido de Orsina foi eleito presidente da República.

Hermes assumiu a Presidência em 15 de novembro de 1910. Como sua esposa, Orsina passou a desempenhar funções sociais e cerimoniais associadas à família presidencial, embora a posição de primeira-dama ainda não constituísse cargo público, estrutura administrativa ou função legalmente regulamentada.

A residência e os espaços de representação da família presidencial incluíam o Palácio do Catete, sede oficial da Presidência, e o Palácio Guanabara. Orsina participou de recepções, solenidades e encontros com representantes da sociedade civil, militares, educadores e integrantes de associações femininas.

Atuação pública

Assistência à infância

A atuação social de Orsina esteve parcialmente relacionada à assistência de mulheres e crianças. Por ocasião de sua morte, o conselho administrativo do Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro registrou-a como uma de suas “damas da assistência” e determinou manifestações de luto em sua homenagem.

A imprensa também associou sua imagem à concessão de auxílios particulares. A Imprensa relatou que moradores pobres das proximidades da residência presidencial compareceram ao Palácio Guanabara após sua morte e descreveu-os como pessoas às quais Orsina prestava assistência. A mesma edição reproduziu homenagem da Brigada Policial do Distrito Federal, cujo comando havia sido exercido por Hermes, mencionando o “bem” que ela teria distribuído durante a passagem do marido pela corporação.

Esses relatos foram publicados em um contexto no qual a participação pública das esposas de dirigentes políticos era frequentemente apresentada pela imprensa por meio de atributos familiares, religiosos e assistenciais. As atividades de Orsina não constituíram um programa governamental próprio, mas contribuíram para sua projeção junto a instituições filantrópicas e setores da população da capital federal.

Relação com Leolinda Daltro e o movimento feminino

thumb|esquerda|Hermes da Fonseca, Orsina da Fonseca e Leolinda Daltro durante uma atividade relacionada ao Partido Republicano Feminino, em 1911.

Orsina manteve relações com mulheres que atuavam nos movimentos educacional e feminista do início do século XX. A mais documentada dessas aproximações ocorreu com a professora baiana Leolinda Daltro, defensora da educação laica dos povos indígenas e uma das principais lideranças da luta pelos direitos políticos das mulheres durante a Primeira República.

Em outubro de 1910, pouco antes da posse presidencial de Hermes, Leolinda homenageou publicamente Orsina e referiu-se a ela como uma “grande amiga”. No mesmo período, Daltro e outras mulheres organizaram o Partido Republicano Feminino, associação registrada no Rio de Janeiro com o objetivo de promover a emancipação feminina e reivindicar o direito de voto para as mulheres.

De acordo com o verbete do CPDOC dedicado ao Partido Republicano Feminino, Orsina mostrava-se favorável ao feminismo e mantinha interlocução com Leolinda, mas não assinou a ata de fundação da organização. Não há, portanto, base documental suficiente para apresentá-la como fundadora ou dirigente formal do partido.

A proximidade com Leolinda teve como principal resultado público o apoio dado por Orsina à criação de uma escola profissional destinada às mulheres. Por meio de contatos com a família presidencial e autoridades municipais, Daltro obteve um imóvel público para o funcionamento da Escola de Ciências, Artes e Profissões Orsina da Fonseca.

Escola de Ciências, Artes e Profissões

A Escola de Ciências, Artes e Profissões Orsina da Fonseca, fundada e dirigida por Leolinda Daltro, foi inaugurada em junho de 1911, com a presença de Orsina e do presidente Hermes da Fonseca. A escritora e poetisa Gilka Machado, então vinculada aos círculos femininos da capital, participou da solenidade e pronunciou um dos discursos de abertura.

A instituição oferecia cursos gratuitos voltados à formação intelectual e profissional de mulheres. Entre as disciplinas e atividades anunciadas estavam língua portuguesa, matemática, datilografia, enfermagem, costura, tipografia, esgrima e tiro. A diversidade do currículo refletia o projeto de ampliar as possibilidades de atuação feminina para além da educação doméstica tradicional.

No decorrer de 1911, estudantes da escola participaram de uma marcha comemorativa da primavera e foram recebidas no Palácio do Catete por Hermes e Orsina. Segundo a documentação reunida pela Biblioteca Nacional, a instituição chegou a declarar mais de mil alunas matriculadas, embora enfrentasse dificuldades financeiras e dependesse do apoio de autoridades para conservar sua sede e manter as atividades.

A escola criada por Leolinda não deve ser confundida com o Instituto Profissional Feminino mantido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Este último já existia antes da Presidência de Hermes e recebeu o nome de Orsina somente depois de sua morte.

Compromissos sociais e culturais

Além das atividades assistenciais e educacionais, Orsina compareceu a compromissos culturais associados à Presidência. Um dos episódios conhecidos ocorreu em junho de 1912, quando acompanhou Hermes a uma exposição de caricaturas da artista Nair de Teffé, realizada no Rio de Janeiro. De acordo com notícias da época analisadas posteriormente pela historiadora Bethânia Luisa Lessa Werner, Orsina elogiou os trabalhos apresentados pela artista.

Nair de Teffé, que se casaria com Hermes em dezembro de 1913 e sucederia Orsina como primeira-dama, registrou em suas memórias um encontro anterior com o casal presidencial no Palácio do Catete. A pesquisa de Werner observou, contudo, que a memorialista mencionou Orsina apenas brevemente e omitiu sua presença ao recordar posteriormente a visita presidencial à exposição de 1912.

Doença e morte

Na última semana de novembro de 1912, o estado de saúde de Orsina agravou-se. A imprensa da capital acompanhou a enfermidade por aproximadamente seis dias, publicando boletins e informações sobre a presença de familiares e autoridades.

Orsina morreu às 6h50 de 30 de novembro de 1912, no Rio de Janeiro, dezessete dias antes de completar 54 anos. Estavam junto à família o presidente Hermes da Fonseca, os filhos Mário, Euclides, Leônidas, Manuel Deodoro e Hermes Filho, além das irmãs Albertina, Maria Amália e Ernestina.

Após a morte, o corpo foi transportado em uma ambulância do Hospital Central do Exército até o Palácio Guanabara, onde chegou por volta das 7h40. A transferência demonstra que o palácio foi o local do velório e da exposição pública do corpo, não havendo nas fontes contemporâneas consultadas confirmação suficiente para defini-lo como o lugar exato da morte.

No Palácio Guanabara, o corpo foi colocado em câmara ardente e vestido com traje escuro. Coroas e homenagens foram enviadas por autoridades, repartições, unidades militares, associações, escolas e representantes estrangeiros. Durante o dia, milhares de pessoas passaram pelo local ou se concentraram nos arredores para acompanhar as cerimônias.

Funeral e repercussão

thumb|Hermes e Orsina da Fonseca. O casal permaneceu casado de 1879 até a morte de Orsina, em 1912.

A morte de Orsina provocou manifestações públicas de pesar no então Distrito Federal. Estabelecimentos comerciais fecharam ou interromperam parcialmente suas atividades, bandeiras foram hasteadas a meio-mastro e prédios públicos exibiram sinais de luto. Jornais da capital dedicaram extensas reportagens ao falecimento e ao funeral.

Na Câmara dos Deputados, parlamentares discursaram sobre o acontecimento e os trabalhos foram suspensos em sinal de pesar. O deputado Maurício de Lacerda afirmou que se tratava da primeira ocasião, desde a instalação da República, em que a esposa de um presidente morria durante o exercício do mandato. O Senado também nomeou uma comissão de representantes e encerrou a sessão após manifestações de condolência.

O cortejo deixou o Palácio Guanabara por volta das 17h30. Participaram autoridades civis e militares, parlamentares, oficiais das Forças Armadas, representantes diplomáticos, associações e populares. Ao longo do percurso, uma multidão acompanhou a passagem do féretro ou permaneceu nas ruas para observar o cortejo.