Os distúrbios na Grécia em 2008 foram uma série de confrontos violentos entre manifestantes e policiais, iniciados na noite de 6 de dezembro, depois que um estudante de 15 anos, Aléxandros Andréas Grigorópulos () morreu em consequência de ferimento a bala, infligido por um policial, Epaminondas Korkoneas, quando este e um outro policial abordaram um pequeno grupo de adolescentes, no bairro de Exárchia, em Atenas. As investigações seguem sem conclusão.

A morte de Grigorópulos resultou em grandes protestos, com centenas de manifestantes fazendo frente às tropas de choque com coquetéis molotov, tendo sido também registrados episódios de depredação de patrimônio público e privado. Manifestações e protestos se espalharam por muitas outras cidades, incluindo a Tessalônica, a segunda maior cidade do país.

Antecedentes Nem a morte de Grigorópulos, nem os protestos pelas ruas das cidades gregas são incidentes isolados. Ambos possuem como antecedentes uma série de ações e reações que permeiam o século XX, e a história da violência estatal na Grécia contra os grupos de oposição.

De acordo com o Relatório 2008 da Anistia Internacional, migrantes haviam sido vítimas de maus tratos e aqueles que demandam asilo, mesmo crianças, são mantidos em regime de detenção arbitrária e prolongada, sem assistência jurídica nem acesso aos procedimentos de pedido de asilo, em locais superlotados, cujas condições de higiene são questionáveis. Embora a Corte Europeia de Direitos Humanos tenha emitido acórdãos que estabeleciam que houve uma violação, por parte da Grécia, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, o número de casos alegados de maus-tratos imputáveis ​​à polícia aumentou. As alegações de maus-tratos infligidos a pessoas detidas se multiplicavam. As vítimas pertenciam geralmente aos grupos mais vulneráveis. Foram relatados casos de morte durante a detenção. Objetores de consciência foram torturados e roms, expulsos à força.

Segundo os meios de comunicação alternativos de esquerda, o estado grego empreendeu, na década de 2000, uma "guerra secreta" contra muitos grupos militantes de esquerda do país, com o objetivo de diminuir ou mesmo neutralizar sua influência.Comunicado desde a ocupação do Instituto Politécnico de Atenas no Centro de Mídia Independente Brasil (coluna central)

thumb|220px|Avenida Alexandras, em Atenas, durante os motins

Em 1985, Michális Kaltézas, também de quinze anos, foi assassinado por policiais, juntamente com outro rapaz, Chrístos Tsutosúvis. Essas mortes também causaram, à época, gigantescas manifestações, em Atenas e na Tessalônica, durante mais de uma semana. Os policiais que executaram os dois jovens foram posteriormente inocentados pelo sistema judiciário grego.Riksi magazine 19-20

Contexto econômico e social Embora a morte de Aléxandros tenha sido o estopim, os analistas advertem que não se deve subestimar o alcance da rebelião, a qual, acreditam, tenha causas mais profundas, sobretudo o sentimento comum de frustração entre a população jovem, diante dos problemas econômicos do país — especialmente a partir da crise econômica global) e do crescimento do desemprego entre os jovens — e da percepção de ineficiência e corrupção generalizada das instituições do estado grego.

A agitação urbana é, segundo os especialistas, um recurso extremo ao qual se recorre quando se esgotam as vias institucionais. "Quando certas demandas civis não encontram respostas no esquema institucional e político, tendem a se manifestar em forma de conflitos na esfera pública; quer dizer, principalmente na rua e através dos meios de comunicação social", explica o sociólogo Josep Espluga.

As centenas de estudantes que foram às ruas protestavam contra a violência policial, mas principalmente contra o governo e as expectativas de um futuro negro, no qual se veem ganhando 700 euros por mês, com empregos precários e incapazes de deixar a casa dos pais.

"Brutalidade policial e corrupção política, de um lado, e, de outro, perspectivas pessimistas para os jovens na educação, no mercado de trabalho e na formação do próprio lar - a tudo isso somou-se a falta de integração dos imigrantes e o medo da crise econômica mundial", analisa Manos Matsaganis, professor do departamento de estudos econômicos europeus e internacionais da Universidade de Economia e Negócios de Atenas."Os salários para os jovens que começam são baixos em todo lugar, mas em nenhum outro seu futuro profissional está tão bloqueado quanto no sul da Europa e, talvez, na França", acrescenta.

"Existem certas condições socioambientais comuns na Europa (sobretudo na mediterrânea), que também explicam em parte a rebelião das periferias francesas de alguns anos atrás e a que está começando a surgir na Itália," adverte o antropólogo Carles Feixa.

A concentração de toda essa insatisfação, somada à rejeição generalizada ao governo do primeiro-ministro liberal Kostas Karamanlis, deu ímpeto à agitação na Grécia, batizada como o Levante da geração dos "setecenteuristas" (os que ganham salário mínimo de 700 euros, em comparação com os "mileuristas" de outros países). Os cidadãos desconfiam do sistema político (e sua corrupção), do judiciário, da mídia e da Igreja. "Uniram-se grupúsculos antissistema, antiglobalização e anarquistas, mas o grosso dos protestos é integrado por estudantes universitários e colegiais. Todos eles são jovens, embora obviamente nem todos compartilhem as mesmas razões", explica o professor Matsaganis.

O professor lembra que "as atividades do grupo terrorista local 17 de Novembro nunca receberam uma condenação pública firme, semelhante às dirigidas contra o ETA ou as Brigadas Vermelhas. Matsaganis, crítico do governo e ex-militante da Coalizão da Esquerda Radical, da qual se afastou por considerá-la extremista, rejeita francamente a violência política.

Há quem compare dezembro de 2008 ao maio de 1968. "Não é por acaso que essas revoltas coincidem e inclusive se antecipam à crise (em um sentido não só econômico, mas também cultural)", considera o antropólogo Feixa. "Os jovens costumam ser o termômetro das mudanças sociais. Enquanto há 40 anos (1968) anunciavam os limites do progresso, hoje antecipam suas consequências perversas." E complementa: "Na Europa mediterrânea, a juventude se transformou em uma fase da vida extremamente longa, cujo início se antecipa e cujo final se retarda ad infinitum, em consequência das precárias políticas estatais de bem-estar social, moradia e trabalho. O que cria um modelo de 'adultescência' (jovens adultos parcialmente emancipados) viável em situações de bem-estar, mas menos suportável quando há crise. O relevante é que isso afeta não somente os setores marginais, mas também a juventude universitária, que vê seu futuro ameaçado."

"Dezembro de 2008 tem certos ecos de Maio de 68: mais que uma revolta econômica ou política, talvez estejamos assistindo a uma revolta cultural, não menos significativa por ser minoritária."

O advogado Nikos Kairis concorda: "Tudo isso constitui um coquetel explosivo que poderia levar a um novo Maio de 68 em toda a Europa. Por isso todos os governos europeus deveriam escutar as sociedades que representam, tentando enfrentar os problemas humanos mais que os monetários."A faísca grega ou um novo Maio de 68. El País, 28/12/2008

O incidente thumb|Esta é a área onde Aléxandros Grigorópulos foi baleado. O incidente que iniciou os distúrbios e protestos aconteceu na noite de 6 de dezembro de 2008, pouco depois das 21 horas, no bairro ateniense de Exárchia, região central de Atenas. Segundo a imprensa grega, uma dupla de guardas especiais (uma categoria especial do efetivo da Polícia grega, originalmente destinada à proteção de espaços públicos) se envolveu em uma discussão com um grupo de adolescentes na rua principal de Exárchia. Após partirem com o carro de polícia, os guardas passaram por um outro grupo, em um cruzamento próximo. Os dois guardas receberam ordens da central de polícia para saírem imediatamente do local. No entanto, os dois guardas estão sendo acusados de não seguirem ordens. Em vez de partirem, evitando o conflito, os dois policiais preferiram estacionar o carro perto da sede do partido do Movimento Socialista Pan-helênico (PASOK) e ir caminhando pela rua Tzavella com a intenção de confrontar os adolescentes.

Após uma breve troca de ofensas verbais, que, de acordo com diversas testemunhas, foi iniciada pelos policiais, um deles, Epaminondas Korkoneas, disparou sua arma.

O relato inicial da polícia sobre o incidente afirma que o guarda atirou em resposta a um novo ataque dos jovens que jogaram garrafas e pedras contra eles. No entanto, testemunhas entrevistadas pela imprensa grega afirmaram que os guardas não foram atacados pelos jovens. Ainda assim, os guardas se aproximaram do grupo insultando-os verbalmente com a finalidade de provocá-los. O guarda Epaminondas Korkoneas afirmou ter atirado três vezes - dois tiros de aviso para o ar e um terceiro apontado para o chão. Diversas testemunhas acreditam que o policial mirou diretamente contra os adolescentes.

De acordo com o advogado do policial, Alexis Kougias, o exame inicial de balística demonstrou que o garoto fora morto por uma bala que ricocheteou após bater em alguma superfície e não por um tiro direto. No entanto, o relatório balístico não era conclusivo, e outros exames indicaram que o menino fora morto por um tiro direto.

Imediatamente após os tiros, a vítima, Aléxandros Grigorópulos, foi transportada para o hospital mais próximo, onde foi atestada a sua morte.

Manifestações e enfrentamentos thumb|esquerda|Locais dos incidentes em Atenas thumb|Dois participantes dos protestos nas ruas de Atenas thumb|Manifestantes insurretos em Comotini thumb|esquerda|Manifestantes atiram pedras e bombas de fumaça em frente à Universidade Aristóteles de Tessalônica thumb|Grafite de protesto (tradução: "policiais, porcos, assassinos") thumb|esquerda|Nuvens de fumaça encobrem uma rua thumb|esquerda|Prédio destruído da Biblioteca Legislativa Européia, esquina das ruas Sina e Akadimias

Poucos minutos após a morte do estudante, manifestantes furiosos tomaram as ruas de Exarqueia e adjacências, irrompendo em violentos confrontos com a polícia. Simultaneamente, manifestações similares também ocorreram em outras cidades gregas, incluindo Tessalônica, Janina, Comotini, Castória, Patras, Trípoli, Volos, Trícala, Mitilene, Agrínio, Cavala, Corfu, Pireu, Chania, Heraclião, Rodes, Carditsa, Lâmia, Stylida, Drama, Xanti, Lagkadas, Cozani, Alexandrópolis, Lárissa e Corinto.

Após a meia-noite, as manifestações em Atenas transformaram-se em um violento protesto nas ruas centrais da cidade. Na madrugada de domingo, 24 policiais foram feridos e 31 lojas (particularmente na rua Ermou), 9 bancos e 25 carros fora também seriamente danificados ou incendiados, na área central da cidade.

Em 8 de dezembro, a polícia avaliou os danos como agendas diárias e os confrontos diminuíram Por toda a Grécia, vários milhares de estudantes secundaristas marcharam contra a polícia, atirando ovos, balões cheios de tintas e garrafas de água. Os manifestantes também ocuparam campi universitários por todo o país, enquanto organizações como o Partido Comunista Grego anunciaram um protesto para a tarde daquele mesmo dia. As manifestações maciças daquela noite foram reprimidas por tropas de choque, com bombas de gás lacrimogéneo. Cerca de onze prédios públicos localizados ao redor da Praça Sintagma, a principal de Atenas, foram incendiados.

Por toda a Grécia, estudantes protestaram, ocupando instalações escolares em Serres, Emátia, Calcídica, Pieria e Tessalônica. As Universidades Aristóteles de Tessalônica, Técnica Nacional de Atenas e a de Economia e Negócios foram ocupadas. Em 7 de dezembro, 38 veículos foram danificados, 13 agentes policiais acabaram feridos, e 22 insurgentes foram detidos.