Irina Pavlovna Palei (21 de dezembro de 1903 – 15 de novembro de 1990), foi uma aristocrata russa, tradutora e filantropa da comunidade de refugiantes russos em Paris entre as décadas de 1920 e 1950. Era filha do grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia e da sua segunda esposa, a princesa Olga Valerianovna Palei.

Caso Amoroso dos Pais Irina nasceu em Paris, França. Quando o seu pai, o viúvo grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia, conheceu a sua mãe, Olga Valerianovna von Pistohlkors, ela era casada com o general Erich Gerhard von Pistohlkors, um ajudante-de-campo do grão-duque Vladimir Alexandrovich (irmão de Paulo) que pertencia a um dos regimentos comandados pelo grão-duque Paulo. Os dois começaram uma relação por volta de 1895 e, em janeiro de 1897, Olga deu à luz um filho de Paulo, Vladimir, quando ainda era casada com o seu primeiro marido.

Após vários anos de um relacionamento clandestino, em 1902, Olga apareceu num baile imperial a usar jóias que tinham pertencido à mãe do grão-duque Paulo, a imperatriz Maria Alexandrovna. Escandalizada, a imperatriz-viúva Maria Feodorovna, pediu que Olga fosse expulsa da festa.John Curtis Perry, Flight of the Romanovs, p. 71 O incidente levou o marido de Olga, Erik, a pedir o divórcio da sua esposa, mas este apenas foi concedido vários meses depois pelo czar Nicolau II depois de obter uma promessa por escrito do irmão de Paulo, Vladimir, de que este não se casaria com Olga se ele lhe concedesse o divórcio. No entanto, pouco depois do casamento da sua sobrinha, a grã-duquesa Helena Vladimirovna com o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, irmão da sua primeira esposa, a princesa Alexandra da Grécia e Dinamarca, e após uma reunião tensa com o seu antigo sogro, o rei Jorge I da Grécia, o grão-duque Paulo tomou a decisão de se casar com a sua amante.John van der Kiste, "The Romanovs 1818-1959", p. 166

A cerimónia realizou-se a 10 de outubro de 1902 na Igreja Ortodoxa Grega de Livorno, em Itália. Quando soube da noticia, o czar Nicolau II baniu o seu tio da Rússia, retirou-lhe todos os seus direitos e todos os seus rendimentos foram confiscados. Além disso, os dois filhos de Paulo do seu primeiro casamento, a grã-duquesa Maria Pavlovna e o grão-duque Dmitri Pavlovich, foram retirados ao pai e colocados sob a custódia dos seus tios, o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a grã-duquesa Isabel Feodorovna. Os três filhos de Olga do seu primeiro casamento (Alexandre, Olga e Mariana) eram adolescentes e também ficaram na Rússia.

Infância em França esquerda|miniaturadaimagem|Irina com os seus pais, o irmão Vladimir e a irmã Natália.

Vida Familiar Ainda antes do seu casamento, em 1900, o grão-duque Paulo tinha comprado uma mansão à família Yussupov na elegante Avenida Vitor Hugo em Boulogne-Sur-Seine, um subúrbio de Paris, e foi lá que Irina nasceu a 21 de dezembro de 1903. Segundo as memórias da grã-duquesa Maria Pavlovna, "Educação de uma Princesa", o grão-duque Paulo queria que Maria fosse uma das madrinhas de Irina, mas o grão-duque Sérgio terá recusado a ideia.

Dois anos depois, em 1905, nasceu a sua irmã, a princesa Natália, de quem se tornaria inseparável nos seus primeiros anos de vida. Anos mais tarde, quando colaborou com o escritor Jacques Ferrand, Irina afirmou que "a nossa infância foi maravilhosa porque os nossos pais eram excecionalmente unidos".Jean-Noel Liaut, "Natalie Paley - Princesse en Exil", p.25

Em 1904, para resolver a questão do facto de Vladimir ainda ter o nome do primeiro marido da mãe, assim como para dar um título à sua esposa e filhas, o grão-duque Paulo conseguiu obter o título e brasão de armas de conde e condessas de Hohenfelsen de Leopoldo, Príncipe Regente da Baviera e, assim, a partir desse momento, Irina passou a ser a condessa Irina von Hohenfelsen.Van der Kiste, The Romanovs 1818–1959, p. 168.

A vida de Irina e dos seus irmãos em França era um mundo superprotegido, onde a ternura e a cultura eram inseparáveis. A mansão em Boulogne tinha dezasseis empregados e era uma fortaleza impenetrável. Desde os caseiros Gustave e Joséphine, até Jacqueline Theureau, a governanta que foi responsável por cuidar das irmãs desde o seu nascimento, sem esquecer, Miss White, a professora de inglês, todos protegiam as duas irmãs do mundo exterior. Todas as manhãs os trilhos do jardim eram limpos, as floreiras cuidadas e as flores regadas num ambiente de encanto permanente. Segundo a grã-duquesa Maria Pavlovna, "o meu pai e a minha madrasta viviam uma vida simples e privada. Tinham as relações que queriam e faziam o que lhes apetecia (...). Para mim era muito divertido escapar do palácio durante duas a três semanas. Era uma alegria poder fazer parte, ainda que durante pouco tempo, deste círculo familiar feliz, porque eles eram realmente uma família feliz."Jean-Noel Liaut, "Natalie Paley - Princesse en Exil", p. 26

Embora a liberdade em França tivesse resultado da expulsão da família real e do final abruto da carreira militar de Paulo, que era um soldado orgulhoso, foi também graças a isso que o casal teve mais disponibilidade para cuidar dos filhos. Se tivessem ficado na Rússia, o grão-duque Paulo não poderia ter participado de forma tão ativa na sua educação. De saúde frágil, o grão-duque vestia o seu velho casaco todas as manhãs e levava consigo as duas filhas mais novas para uma caminhada. Embora ele tentasse não o demonstrar, Irina era a sua favorita, uma vez que, fisicamente, o relembrava da sua mãe, a imperatriz Maria Alexandrovna, mas tinha a personalidade decidida e empreendedora da sua esposa. No entanto, também se divertia muito com a personalidade extrovertida da sua filha mais nova, Natália. Quando a sua filha Maria os visitava em Paris, também se juntava ao grupo com o seu fox terrier, Martzka. miniaturadaimagem|297x297px|Irina com o irmão Vladimir e a irmã Natália. Embora as suas vidas escapassem um pouco ao rigor do protocolo da corte, ainda assim obedeciam a regras rigorosas. A família reunia-se todas as manhãs na pequena sala de jantar reservada em exclusivo para uso da família (os convidados eram recebidos noutra sala). As crianças e a mãe preferiam um pequeno-almoço de café com leite e bolos, enquanto que o grão-duque optava por chá que bebia de um copo ao estilo russo. A manhã continuava com lições para as crianças enquanto que a condessa de Hohenfelsen seguia para as grandes casas de moda de Paris (Poiret, Worth, Paquin e as Irmãs Callot). Ao meio-dia e meia em ponto (o grão-duque Paulo era extremamente pontual), a família voltava a encontrar-se para o almoço, algo extremamente raro para a época, uma vez que, normalmente, os pais faziam as suas refeições longe dos filhos. A grã-duquesa Maria Pavlovna recordou estes momentos com afeto: "Quando me juntava a eles na sala de jantar, o meu pai estava sempre ligeiramente impaciente porque tinha sempre de esperar pela minha madrasta, que nunca aparecia até ao meio da refeição. Ela nunca conseguiu chegar a lado nenhum a tempo. O meu pai acabou por se resignar a isso." Finalmente, quando Olga aparecia, radiante e carregada de compras, "sentava-se para dar umas trincas no fiambre e na salada. Tinha medo de engordar e, por isso, evitava comer à mesa, mas petiscava ao longo do dia. O almoço continuava. As minhas irmãs, sentadas com a governanta no meio, tentavam comportar-se. O Volodya, o meu meio-irmão, fazia muito barulho e muitas perguntas. Era impossível tentar falar quando ele estava lá e também ninguém o conseguia manter em silêncio."Jean-Noel Liaut, "Natalie Paley - Princesse en Exil", p. 27

Ao final da tarde, as crianças deixavam a sala infantil - que ficava no segundo andar - e a professora para partilhar um lanche leve com os pais. Todos os dias, um pasteleiro fazia sandes e pão mole, encomendados para o chá das cinco. Depois, um passeio pelo jardim, uma visita de amigos e chegava a hora do jantar. Era a única altura do dia em que Irina e Natália comiam sozinhas. As duas irmãs voltavam para os seus quartos, no andar de cima, muito cedo. Quando não tinham compromissos à noite, o grão-duque e a sua esposa passavam o serão calmamente na biblioteca privada. Paulo lia em voz alta e Olga, vestida com um vestido de tarde a pedido do marido, bordava. Depois, o grão-duque retirava-se para o seu escritório, escrevia no seu diário o dia a dia do seu exílio.Jean-Noel Liaut, "Natalie Paley - Princesse en Exil", p. 28

Apesar de apreciar a sua vida em França, o grão-duque Paulo não deixava de se preocupar. "Nunca mostrou nenhum sinal de impaciência; no entanto, esta inatividade forçada e, por vezes, a preguiça pesavam-lhe na consciência. A sua vida familiar era extremamente feliz, mas sentia a falta do seu país. Raramente falava da Rússia e ainda menos das memórias familiares em frente das filhas. No entanto, uma noite quando eu e a minha irmã estávamos com ele à mesa, ganhei coragem e fiz-lhe algumas perguntas sobre o assunto," contou Irina. "Ele falou-nos com alegria das suas brincadeiras com o irmão Sérgio (...). Alguém lhes tinha construído um porto em miniatura no canal do parque imperial. Depois, ficou triste, certamente a pensar na morte trágica do pai e do irmão. Quando vi o resultado da minha curiosidade, nunca mais lhe voltei a fazer perguntas sobre a infância."Jean-Noel Liaut, "Natalie Paley - Princesse en Exil", p. 29 esquerda|miniaturadaimagem|304x304px|Irina com os pais, Vladimir, Natália e os meios-irmãos do lado da mãe: Alexandre, Olga e Mariana. Toda a família aguardava ansiosamente por domingo. De manhã, iam todos à missa na igreja russa da Rua Daru. O grão-duque e a sua comitiva entravam por uma porta lateral e assistiam à missa, dada pelo mesmo sacerdote que tinha batizado Irina e Natália, sozinhos numa pequena sala do lado oposto do altar. "A minha vida teve muitos contrastes, mas tudo, as alegrias e os eventos trágicos, coisas importantes e triviais, aconteceu num plano diferente da vida normal," confessou a grã-duquesa Maria Pavlovna. "Desconhecia completamente o que era ter uma vida normal." Irina e Natália poderiam ter dito o mesmo. Educadas em casa, longe dos gritos da escola normal (o recreio era considerado demasiado plebeu para as netas de um czar), num estilo de vida doméstico, com pais "da moda" que eram procurados por todos. Até a sua vida espiritual decorria em separado do resto da multidão.Jean-Noel Liaut, "Natalie Paley - Princesse en Exil", p. 30

Para Irina e Natália, os pontos altos das suas infâncias eram as festas religiosas. No Natal, as duas irmãs participavam sempre em peças de teatro para toda a família escritas para elas pelo seu irmão Vladimir, a quem chamavam de Volodya ou Bodia. Os irmãos utilizavam cobertas e lençóis como cortinas de um palco. Normalmente, a estrutura colapsava durante o ponto alto da peça ou caia na cabeça dos atores. Antes da grande estreia, Vladimir obrigava as irmãs a ensaiar durante dias seguidos. "As meninas reverenciavam e tinham uma grande admiração pelo irmão," contou a grã-duquesa Maria Pavlovna. "O Volodia aproveitava-se disso para as obrigar a fazer tudo aquilo que ele queria. Quando elas estavam a ensaiar as peças que ele escrevia, ele obrigava-as a ensaiar durante horas. Elas sentiam-se muito lisonjeadas por terem a atenção do irmão e aguentavam com paciência a má-disposição, reprimendas e até alguns estalos dele. Ele fazia-as chorar muitas vezes, mas depois elas queriam sempre participar nas peças com o mesmo entusiasmo e não gostavam nada quando eu ou outro adulto as tentávamos proteger da tirania do Volodia."

As cerimónias da Páscoa eram mais reservadas e a família participava fielmente em todas as missas da Semana Santa. Depois da missa da meia-noite na madrugada antes da Páscoa, faziam um grande jantar com dezenas de convidados em Boulogne, acabando assim com o jejum da Quaresma.