Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, também conhecido simplesmente por Paêbirú ou Peabiru é um álbum de Lula Côrtes e Zé Ramalho, lançado no ano de 1975 pela extinta gravadora Rozenblit.BARCINSKI, 2014, pp. 35-36. Foi o primeiro e único álbum lançado da parceria entre os dois. Também foi o segundo álbum de Lula Côrtes e o primeiro de Zé Ramalho.
O disco contém uma grande miscelânea de gêneros musicais como o rock psicodélico, jazz, e ritmos regionais do Nordeste Brasileiro. Foi um dos primeiros discos não declarados da psicodélia brasileira. O disco é hoje o vinil com maior valor comercial no Brasil. Bem conservado, um disco da edição original vale em torno de 4 mil reais. O álbum original vem acompanhado de um livro que traz estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol.oglobo.globo.com/ A história disco mais caro do Brasil, valendo até R$ 5 mil, é investigada em documentário
Contexto A principal inspiração dos músicos na criação do disco foi a Pedra do Ingá, situada no município de Ingá, no interior da Paraíba. A dupla caminhou até o local em uma expedição na qual usaram cogumelos alucinógenos. No decorrer da criação do disco, a variedade de lendas sobre Sumé – entidade mitológica em que os indígenas acreditavam antes da colonização – inspiraram além da faixa de abertura, diversas passagens do álbum. Outras entidades importantes da cultura brasileira, como Iemanjá, também são citadas. O Caminho da Montanha do Sol (ou "Caminho do Peabiru") mencionado em seu nome é uma estrada construída pelos indígenas guarani há mais de mil anos, que ligava o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, Santa Catarina à Machu Picchu, e que passa pelo Vale do Ivaí.tnonline.uol.com.br/ Série Antiga Civilização do Vale do Ivaí: As lendas e o extermínio dos povos
O projeto foi apresentado a José Rozenblit por Lula; mais tarde, o filho de José, Hélio, enalteceria a coragem do pai e gravar uma "loucura" de dois jovens desconhecidos.
Gravação Segundo Hélio Rozenblit, o álbum foi gravado de maneira bastante improvisada, com Zé Ramalho gravando suas partes no violão, depois Lula completando o tricórdio (uma variação do bandolim) e os demais músicos colocando suas partes por cima. Alguns erros de gravação e mixagem foram propositalmente deixados no resultado final.
Lançamento, perda de cópias e relançamentos O álbum original, que vem acompanhado de um livro que traz estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol, teve prensagem única de 1.300 exemplares. Destes, em torno de 1000 se perderam em uma enchente que ocorreu em Recife em 1975, mais precisamente no Rio Capibaribe em 17 de julho. Este é o motivo para que uma das 300 cópias que se salvaram tenha valor comercial médio de 4 mil reais. As fitas originais, contudo, conseguiram ser salvas por estarem em prateleiras mais altas. Essas cópias salvas foram levadas para o Rio de Janeiro, onde Hélio Rozenblit acrescentou alguns efeitos de reverberação e eco na remasterização.
A parte gráfica do disco ficou por conta de Katia Mesel, então esposa de Lula Côrtes. O encarte e capa foi resultado de várias idas até a Pedra do Ingá.
Paêbirú foi relançado no ano de 2005 em vinil e CD na Europa pelo selo Mr. Bongo. Só foi relançado em CD no Brasil em 2012.cultura.estadao.com.br/ Vinil "perdido" de Lula Côrtes e Zé Ramalho volta às lojas. Cultura Estadão. Em 2019, foi relançado em vinil a partir das fitas originais Polysom. Em 2024, foi novamente relançado em vinil pela Polysom; na altura, o jornalista André Barcinski afirmou que o relançamento de 2019 havia sido feito com base numa versão levemente modificada do disco pela Rozenblit, e que a versão de 2024, sim, havia sido feita com base nas fitas originais. Esta nova versão de 2024 dispensa os efeitos adicionados por Hélio na remasterização pós-enchente.
Composição e letras O nome do disco era para ter sido "Peabiru", cujo significado é próximo de "caminho para o Peru", contudo, houve uma troca de letras ao grafar o nome na capa do disco e acabou ficando "Paêbirú".
Considera-se este álbum como o fundador de uma psicodelia genuinamente brasileira, com elementos da cultura indígena. Sendo composições dos próprios Lula Côrtes e Zé Ramalho, outros músicos contribuíram para a gravação do álbum, como Alceu Valença e Geraldo Azevedo, que mais tarde alcançariam o sucesso. Alceu contribuiu com sons diversos (imitando besouros e moscas), usando celofane nos dentes para criar os efeitos.
Trata-se de um disco de vinil duplo, com onze faixas e dividido em quatro lados, cada um dedicado a um dos quatro elementos da natureza: terra, ar, fogo e água. Cada um tem uma sonoridade. Fogo é o lado mais roqueiro, Ar são músicas mais etéreas e com uso de flautas. No lado da Água, há uma parte que faz louvações a Iemanjá. Além dos longos instrumentais psicodélicos e ritmos regionais, também foram adicionados sons sintéticos paralelos aos temas. No lado "Terra", os resultados foram conseguidos através de instrumentos de percussão como tambores, flautas, congas e saxofone alto. Efeitos como aves em voo também foram produzidos, porém não de forma eletrônica. Outros instrumentos típicos como o berimbau também foram utilizados. No lado "Ar", foram introduzidas conversas, risadas, e suspiros, além de harpas e violas. "Fogo" é o lado mais pesado do disco, onde o rock e a psicodelia estão em evidência. São usados sons de guitarra elétrica distorcida, órgão e um som menos acústico. "Raga dos Raios", é até hoje considerada a melhor peça de guitarra fuzz gravada no rock nacional. Em "Água" são colocados fundos sonoros de água corrente, e letras em louvação a entidades que representam o elemento, além da incorporação de gêneros dançantes como o baião. O lado é aberto com um pai de santo cantando um ponto de Iemanjá.
Zé Ramalho quis relançar a faixa "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" em seu disco de 1993, Cidades e Lendas, mas Lula teria exigido que Zé o pagasse pelo uso da faixa cocriada por ele. Isso teria irritado o músico, que cortou relações com o parceiro.
Faixas
Músicos
Lula Côrtes – vocais em "Culto à Terra" e "Louvação à Iemanjá", tricórdio em "Trilha de Sumé", "Bailado das Muscarias", "Harpa dos Ares", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto", "Omm", "Regato da Montanha" e "Sumé", violão de 12 cordas em "Pedra Tempo Animal", guitarra em "Maracas de Fogo", sitar em "Raga dos Raios", arpa em "Omm", percussão em "Trilha de Sumé", "Culto à Terra", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto", "Raga dos Raios", "Maracas de Fogo" e "Regato da Montanha", efeitos sonoros em "Harpa dos Ares", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto", "Maracas de Fogo" e "Regato da Montanha" Zé Ramalho – vocais, violão de 12 cordas em "Bailado das Muscarias", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto", "Maracas de Fogo", "Regato da Montanha" e "Sumé", guitarra em "Culto à Terra" e "Regato da Montanha", baixo em "Trilha de Sumé", "Bailado das Muscarias", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" e "Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé", viola caipira em "Harpa dos Ares", piano em "Omm", ukulele em "Omm", "Raga dos Raios" e "Pedra Templo Animal", percussão em "Trilha de Sumé", "Culto à Terra", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto", "Raga dos Raios", "Maracas de Fogo" e "Regato da Montanha", efeitos sonoros em "Harpa dos Ares", "Omm", "Maracas de Fogo" e "Regato da Montanha" Alceu Valença – vocais em ""Não Existe Molhado Igual ao Pranto", "Maracas de Fogo" e "Pedra Templo Animal", efeitos sonoros em "Trilha de Sumé" e "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" Geraldo Azevedo – violão em "Harpa dos Ares", viola caipira em "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" e "Omm", efeitos sonoros em "Harpa dos Ares" e "Não Existe Molhado Igual ao Pranto"
Ivson Wanderley – guitarra em "Maracas de Fogo" Zé da Flauta – saxofone em "Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé" Paulo Rafael – baixo em "Pedra Templo Animal" Lailson – vocais em "Maracas de Fogo" Jonathas - flauta doce em "Trilha de Sumé" Ronaldo - flauta transversal em "Trilha de Sumé", "Bailado das Muscarias" e "Não Existe Molhado Igual ao Pranto"
Israel Semente – vocais em "Maracas de Fogo", percussão em "Pedra Templo Animal" Dikê – saxofone em "Trilha de Sumé", "Culto à Terra", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" e "Omm" Agrício Nóia – percussão em "Maracas de Fogo" e "Pedra Templo Animal" Don Tronxo – guitarra em "Raga dos Raios"
Jarbas Mariz – berimbau em "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" Babi – efeitos sonoros em "Pedra Templo Animal" Carmelo Guedes – bateria em "Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé" e "Maracas de Fogo" Hugo Leão – órgão em "Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé" e "Maracas de Fogo" Marconi Notaro – vocais em "Maracas de Fogo" e "Louvação à Iemanjá", percussão em "Pedra Templo Animal"
Legado Lula Côrtes morreu em 2011, de câncer na garganta. Zé Ramalho, por sua vez, não fala sobre o disco em entrevistas. Sua biógrafa, Christina Fuscaldo, diz que ele se recusa a comentar o disco porque, quando precisou da imprensa para divulgá-lo nos anos 1970, os veículos não lhe deram atenção.
O produtor musical Rafael Ramos, que também é consultor da Polysom diz que Paêbirú representa o experimentalismo na fase seminal desses dois artistas, antes de virem pro Sudeste trabalhar suas carreiras junto a produtores e gravadoras. Então, é a música em seu estado mais puro, sem obrigações, seguindo o que se sentia". Já o jornalista e pesquisador Zé Teles o considera "o disco mais livre da história da música brasileira".
Documentário Em 2009 começou a ser produzido o documentário "Nas Paredes da Pedra Encantada", dirigido pelo cineasta gaúcho Cristiano Bastos, onde são resgatadas histórias sobre a gravação do álbum por meio de entrevistas com artistas envolvidos direta e indiretamente no projeto.revistatrip.uol.com.br/ Na trilha do Paêbiru Em 2011 ele finalmente foi lançado em vários festivais de cinema, e depois foi lançado em DVD pelo selo goiano Monstro Discos, que em 2016 liberou-o na íntegra na internet por meio do YouTube.diariodepernambuco.com.br/ Filme sobre o disco Paêbiru, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, já pode ser visto no YouTube
Bibliografia . Pavões Misteriosos — 1974-1983: A explosão da música pop no Brasil São Paulo: Editora Três Estrelas, 2014.
Categoria:Álbuns de 1974 Categoria:Álbuns de Zé Ramalho Categoria:Álbuns em língua portuguesa Categoria:Álbuns de rock psicodélico Categoria:Álbuns de estreia de 1975 Categoria:Álbuns lançados pela Polysom Categoria:Álbuns de jazz