Augusto José Ramón Pinochet Ugarte (Valparaíso, 25 de novembro de 1915 – Santiago, 10 de dezembro de 2006) foi um general do exército chileno e ditador que governou como presidente do Chile de 1973 a 1990, servindo posteriormente como senador vitalício, cargo que foi criado exclusivamente para ele, por ter sido um ex-governante.

Assumiu o poder total no Chile depois de liderar o golpe militar, apoiado pelos Estados Unidos, em 11 de setembro de 1973, pelo Decreto Lei n.º 806 editado pela junta militar (Conselho do Chile), que foi estabelecida após a deposição do governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende. Seu regime foi marcado por constantes violações de direitos humanos, com mais de 80 000 pessoas sendo presas e outras 30 000 torturadas. Segundo números oficiais, mais de três mil pessoas foram assassinadas pelo governo Pinochet.

Enquanto presidente, Pinochet buscou modernizar o país. Seu governo implementou uma política de liberalização econômica, incluindo estabilização da moeda e remoção das tarifas para a indústria local. Também colocou os sindicatos na ilegalidade e privatizou a estrutura de seguridade social e várias empresas estatais. Contando com vários empréstimos externos e as reformas implementadas, o PIB chileno se expandiu consideravelmente e a economia se fortaleceu. Apesar dos progressos, a desigualdade de renda continuou como um problema crônico e os anos 1980 foi um período de altos e baixos para a nação. Ainda assim, no começo da década de 1990, a economia chilena era a mais saudável dentre os países latino-americanos. Enquanto isso, a riqueza pessoal de Pinochet cresceu consideravelmente durante seus anos no poder por meio de dezenas de contas bancárias secretamente mantidas no exterior e participações em imóveis. Mais tarde, ele foi processado por peculato, fraude fiscal e propinas em negócios de armas.Andrea Chaparro Solís, Consejo de Defensa del Estado se hace querellante en caso armas a Ecuador , La Nación, 5 de junho de 2006

Um ícone para a direita e um déspota para a esquerda, seu legado permanece controverso no Chile. O Chile instituiu inúmeras reformas econômicas durante seu governo, mas é muito discutido se as reformas foram as responsáveis pelo êxito da economia chilena. A brutalidade da repressão política e a perseguição a dissidentes trouxe condenação internacional ao ditador. Após deixar a presidência, foi alvo de mais de 300 ações criminais que vão desde casos de corrupção até assassinato.

Vida familiar

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte nasceu em Valparaíso em 25 de novembro de 1915. Filho do militar Augusto Pinochet Vera (1891–1944), descendente de um imigrante francês -bretão do século XVIII de Lamballe e Avelina Ugarte Martínez (1895–1986), uma mulher de ascendência basca. Augusto Pinochet Ugarte concluiu os estudos na escola secundária em sua cidade natal em 1930. Aos 18 anos entra na escola militar (Academia Militar de Santiago do Chile), onde se graduou em 1937. Dois anos depois, Pinochet, oficial de infantaria, foi aceito no regimento Maipu, de Valparaíso. Em 1940, casa com Lucía Hiriart Rodríguez, com quem teve cinco filhos: Inés Lucía, María Verónica, Jacqueline Marie, Augusto Osvaldo e Marco Antonio.

Em 1953, já graduado major, foi enviado para o regimento "Rancagua", em Arica. Nessa época, foi indicado professor da Academia de Guerra, retornando a Santiago para assumir o posto.

Em 1956, foi escolhido para integrar uma missão militar de que envolvia colaboração com a Academia de Guerra do Equador, em Quito, onde permaneceu durante três anos. Nesse período, estudou geopolítica, geografia militar e inteligência.

Em 1968, foi nomeado chefe da 2ª Divisão do Exército, com base em Santiago, e, ao final daquele ano, foi promovido comandante-general e comandante-chefe da 6ª Divisão, em Iquique.

Em janeiro de 1971, foi promovido a general de divisão e nomeado comandante-general do Exército Garrison de Santiago. No ano seguinte, tornou-se general-chefe do Exército.

Golpe militar de 1973 200px|thumb|direita|Bombardeio ao Palácio de La Moneda durante o golpe militar de 1973 Em setembro de 1973, Pinochet era general-chefe do Exército quando o então Comandante em Chefe - o general constitucionalista e legalista Carlos Prats, que se recusava a participar de qualquer golpe de estado - se viu obrigado a renunciar. Com a renúncia de Prats, Pinochet tornou-se o Comandante em Chefe do exército chileno. Embora tivesse declarado fidelidade ao presidente eleito de esquerda Salvador Allende, o general Pinochet, até então considerado um general leal e apolítico, membro do gabinete militar de Salvador Allende, chefiou a tropa que tomou o poder através de um golpe militar. Carlos Prats logo tornou-se mais um adversário do regime de Pinochet.

O golpe se deu em 11 de setembro de 1973, (somente 18 dias após ter tomado posse do cargo de chefe das Forças Armadas). Depois de três horas de luta e bombardeando o Palácio de La Moneda com aviões da força aérea foi este tomado pelo exército. O golpe surpreendeu por sua rapidez e violência.

Allende morreu no Palácio de La Moneda, às 14h15. As circunstâncias exatas de sua morte não haviam ficado claras. Uma autópsia realizada em 1990 apontou que ele cometeu suicídio. Porém, havia também a versão de que ele tenha sido assassinado. Sua sobrinha Isabel Allende Llona é uma das que acreditam que seu tio foi assassinado. A filha do Presidente, a deputada Isabel Allende, declarou que a versão do suicídio é a correta. Uma autópsia realizada em 2011 comprovou a tese de suicídio.183x183px|thumb|esquerda|O Estádio Nacional de Chile usado como campo de concentração durante a ditadura de Pinochet, em 1973 Conselho do Chile Após o golpe bem-sucedido, que teve amplo apoio dos EUA, uma junta militar (Conselho do Chile) foi estabelecida para governar o Chile, e Pinochet foi apontado como representante do Exército. Em 17 de junho de 1974, Pinochet assumiu formalmente o cargo de Chefe Supremo da Nação, e em 17 de dezembro de 1974, se tornou oficialmente o Presidente do Chile. Em 1981 foi autoproclamado presidente da República do Chile para um mandato de oito anos, iniciando um período de regime militar.

Durante os 17 anos de sua ditadura, Pinochet reprimiu a antiga coalizão Unidade Popular - união de partidos de esquerda que apoiavam o regime constitucional socialista deposto - perseguindo, e muitas vezes torturando e assassinando, seus membros e aliados. Em 1973, aproximadamente 70 dissidentes teriam sido vítimas da Caravana da Morte. Em 1977, o seu governo foi condenado pela comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, pela forma cruel com que tratava os presos políticos.

Apoio dos EUA ao golpe

thumb|Secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger com Pinochet em 1976

O Relatório Church, que investiga as consequências do escândalo de Watergate, afirmou que, embora os EUA tenham apoiado tacitamente o governo Pinochet após o golpe de 1973, não havia "nenhuma evidência" de que os EUA estivessem diretamente envolvidos nele.. Essa visão foi contrariada por vários acadêmicos, como Peter Winn, que escreve que o papel da CIA foi crucial para a consolidação do poder após o golpe; a CIA ajudou a fabricar uma conspiração contra o governo Allende, que Pinochet foi então retratado como impedindo. Ele afirmou que o golpe em si só foi possível por meio de uma operação secreta de três anos montada pelos Estados Unidos. Winn também aponta que os EUA impuseram um "bloqueio invisível" que foi projetado para perturbar a economia sob Allende e contribuiu para a desestabilização do regime. O autor Peter Kornbluh argumenta em The Pinochet File que os EUA estavam extensivamente envolvidos e ativamente "fomentaram" o golpe de 1973. Autores Tim Weiner (Legado das Cinzas) e Christopher Hitchens (O Julgamento de Henry Kissinger) O autor Peter Kornbluh argumenta em The Pinochet File que os EUA estavam extensivamente envolvidos e ativamente "fomentaram" o golpe de 1973. Os autores Tim Weiner (Legacy of Ashes) e Christopher Hitchens (The Trial of Henry Kissinger) argumentam de forma semelhante que as ações secretas dos EUA desestabilizaram ativamente o governo de Allende e prepararam o cenário para o golpe de 1973. Apesar da negação de inúmeras agências americanas, a documentação desclassificada atual provou o envolvimento americano. Nixon e Kissinger, juntamente com agências de inteligência públicas e privadas, foram "informados e até mesmo envolvidos no planejamento e execução do golpe militar". Junto com isso, agentes da CIA diretamente envolvidos, como Jack Devine, também se manifestaram e declararam seu envolvimento no golpe. Devine afirmou: "Enviei à sede da CIA um tipo especial de telegrama ultrassecreto conhecido como CRITIC, que vai diretamente para os mais altos níveis do governo". Segundo o historiador Sebastián Hurtado, que teve acesso aos documentos desclassificados, não há provas documentais que sustentem que o Governo dos Estados Unidos tenha atuado ativamente na coordenação e execução das ações golpistas das Forças Armadas chilenas, porém, o interesse de Richard Nixon desde o início era que o governo Allende não se consolidasse.

Os EUA forneceram apoio material ao governo militar após o golpe, embora o criticassem em público. Um documento divulgado pela Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) em 2000, intitulado "Atividades da CIA no Chile", revelou que a CIA apoiou ativamente a junta militar após a derrubada de Allende e que fez de muitos oficiais de Pinochet contatos pagos da CIA ou do exército dos EUA, embora alguns fossem conhecidos por estarem envolvidos em abusos de direitos humanos. A CIA também manteve contatos no serviço de inteligência chileno DINA. A DINA liderou a campanha multinacional conhecida como Operação Condor, que, entre outras atividades, realizou assassinatos de políticos proeminentes em vários países latino-americanos, em Washington, DC, e na Europa, e sequestrou, torturou e executou ativistas com opiniões de esquerda, o que culminou na morte de cerca de 60.000 pessoas. Os Estados Unidos forneceram assistência organizacional, financeira e técnica fundamental para a operação. O contato da CIA com o chefe da DINA, Manuel Contreras, foi estabelecido em 1974, logo após o golpe, durante o período da Junta, antes da transferência oficial dos poderes presidenciais para Pinochet; em 1975, a CIA revisou um aviso de que manter Contreras como um ativo poderia ameaçar os direitos humanos na região. A CIA optou por mantê-lo como um ativo e, em determinado momento, até o pagou. Além da manutenção de ativos na DINA pela CIA, começando logo após o golpe, vários ativos da CIA, como os militantes exilados cubanos do CORU, Orlando Bosch e Guillermo Novo, colaboraram nas operações da DINA sob a Operação Condor nos primeiros anos da presidência de Pinochet.

Política econômica thumb|200px|Pinochet desfilando em carro aberto a 11 de setembro de 1982 Quando da vitória do golpe de estado de Pinochet, em 1973, o Chile adotou imediatamente um plano de ação chamado de O Ladrilho, que fora preparado pelo candidato da direita, derrotado por Salvador Allende, com o auxílio de um grupo de economistas, chamados pela imprensa internacional da época de "os Chicago Boys", provenientes da Universidade de Chicago. Este documento continha os fundamentos do que, depois, viria a ser chamado de neoliberalismo.

Os defensores de Pinochet apelidaram esse período de "milagre chileno". Apesar de alguns bons números, as estatísticas frias também mostram números pouco milagrosos: durante o regime de Pinochet, entre 1972 e 1987, o PNB per capita do Chile caiu 6,4% em dólares constantes, caindo de US$ em 1973 para em 1993 (dólares constantes). Apenas cinco países da América Latina tiveram, em termos de PNB per capita, um desempenho pior que o do Chile durante a ditadura Pinochet (1974-1989).