D. Dinis de Portugal, o Lavrador e o Rei-Trovador (Lisboa, – Santarém, ), foi Rei de Portugal e do Algarve de 1279 até sua morte. Era o filho mais velho do rei D. e sua segunda esposa D. Beatriz de Castela.
Foi grande amante das artes e letras. Tendo sido um famoso trovador, cultivou cantigas de amigo, de amor e a sátira, contribuindo para o desenvolvimento da poesia trovadoresca na Península Ibérica. Pensa-se ter sido o primeiro monarca português verdadeiramente alfabetizado, tendo assinado sempre com o nome completo.
Vida D. Dinis nasceu a 9 de outubro de 1261, em Lisboa, filho do rei e de sua esposa Beatriz de Castela. Pertenceu, pelo lado paterno, à Casa Real Portuguesa, descendente direta da Casa Ducal da Borgonha. Pelo lado materno, descendia de importantes personalidades como (seu avô), de e de Filipe da Suábia. Pelo lado paterno também descendia do mesmo rei inglês. Afonso III era primo coirmão pelo lado materno de , sendo este também descendente de Henrique II.
Entre 1320 e 1324 houve uma guerra civil que opôs o rei ao futuro . Este julgava que o pai pretendia dar o trono a Afonso Sanches. Nesta guerra, o rei contou com pouco apoio popular, pois nos últimos anos de reinado deu grandes privilégios aos nobres. O infante contou com o apoio dos concelhos. Apesar dos motivos da revolta, esta guerra foi no fundo um conflito entre grandes e pequenos. Após a sua morte, em 1325 foi sucedido pelo seu filho legítimo, Afonso IV, apesar da oposição do seu filho favorito, o bastardo Afonso Sanches.
Foi o sexto rei de Portugal, subindo ao trono ainda com 17 anos. Ao longo de 46 anos de reinado, foi um dos principais responsáveis pela criação da identidade nacional e o alvor da consciência de Portugal enquanto estado-nação: em 1297, após a conclusão da Reconquista pelo seu pai, definiu as fronteiras de Portugal no tratado de Alcanises. Com este tratado, Portugal ficou com as fronteiras mais antigas da Europa.miniaturadaimagem|D. Dinis I, gravura de sua genealogia|alt=|esquerdaPouco se sabe da sua infância, mas conhecem-se os aios encarregues da sua educação, sendo o mais conhecido Lourenço Gonçalves Magro (que seria descendente de Egas Moniz, o Aio). O infante foi mais tarde confiado aos cuidados do meirinho-mor do rei, Nuno Martins de Chacim, que Dinis depois nomearia para mordomo-mor.
Em 1265, acompanhou a sua mãe e um contingente militar, de visita ao seu avô Afonso X de Castela, em Sevilha, viagem relacionada com a questão do Algarve, e cuja resolução implicou o envio de reforços portugueses para a guerra na Andaluzia.
Em 1278 recebe casa própria, um ano antes de ascender ao trono.
Em 1282 desposou Isabel de Aragão, que ficaria conhecida como Rainha Santa.
Prosseguiu relevantes reformas judiciais, instituiu a língua portuguesa como língua oficial da corte, criou a primeira Universidade portuguesa, libertou as Ordens Militares no território nacional de influências estrangeiras e prosseguiu um sistemático acréscimo do centralismo régio.
A sua política centralizadora foi articulada com importantes ações de fomento económico — como a criação de inúmeros concelhos e feiras. D. Dinis ordenou a exploração de minas de cobre, prata, estanho e ferro e organizou a exportação da produção excedente para outros países europeus. Em 1308 assinou o primeiro acordo comercial português com a Inglaterra.
Em 1312 fundou a marinha Portuguesa, nomeando 1.º Almirante de Portugal, o genovês Manuel Pessanha, e ordenando a construção de várias docas.
Teve uma importante política de fomento da agricultura, daí ter sido chamado O Lavrador.
Reinado Como herdeiro da coroa, Dinis desde cedo foi envolvido nos aspectos de governação pelo seu pai, Afonso III, que a 16 de fevereiro de 1279, deixa um reino com uma acentuada estabilidade interna, resultante de uma autoridade régia incontestada, em contraste com o estado geral em que se encontrava o reino de Castela, onde imperava um acentuado clima de ingovernabilidade e de permanentes conflitos sociais.
Foi confiado, embora já fosse maior de idade (contava com 17 anos na altura da sua ascensão ao trono), a um conselho de regência presidido por sua mãe, Beatriz, e no qual tomava parte o mordomo-mor do seu pai, João Peres de Aboim.
À data da sua subida ao trono, o país encontrava-se em conflito com a Igreja Católica e sob interdição. D. Dinis procurou normalizar a situação assinando um tratado, conhecido como concordata com o , onde jurava proteger os interesses de Roma em Portugal, terminando com os conflitos, como tinha acontecido com seu pai e avô paterno: .
Política externa
Aragão: Aliança matrimonial 150px|thumb|Retrato de Isabel de Aragão, esposa de Dinis thumb|D. Dinis e a Rainha Santa Isabel, em retrato na Universidade de Coimbra|324x324px|esquerda O casamento deste rei foi talvez um dos primeiros grandes sucessos da política externa portuguesa. Dinis inicia negociações com Pedro III de Aragão, para casar com a filha deste, Isabel, que na mesma altura estaria a ser reclamada por embaixadores dos reis de França e Inglaterra. Isabel era um partido extremamente valioso, uma vez que a sua figura se prestigiava pelas melhores qualidades, e ainda a importância estratégica de Aragão, tanto do ponto de vista político como económico, uma vez que o próprio Pedro III enceta uma política mediterrânica, começada pela conquista da ilha italiana da Sicília (que constituiu o reino de Trinácria), em consequência da defesa dos direitos da esposa, última descendente da casa imperial alemã de Hohenstaufen no sul italiano. Os sucessores de Pedro continuariam esta política de expansão e dominação mediterrânica.
Graças às diligências de João Velho, João Martins e Vasco Pires, seus procuradores e vassalos, negociou as cláusulas matrimoniais, ficando estes encarregados de receber a noiva por palavras de presente, direito que lhes fora outorgado a 12 de novembro de 1280. Pedro III decidiu-se pelo rei português, segundo carta de 11 de fevereiro de 1282, na qual se concretizava o casamento do rei português, de 20 anos e da princesa aragonesa com 11 anos. Dinis doava à sua esposa doze castelos e três vilas. Dinis por essa altura encontrar-se-ia em Trancoso, vila que doaria também a Isabel a 26 de junho de 1282. Foi também nessa vila que se efetuou a boda de facto, aí permanecendo até aos primeiros dias de agosto.
Leão e Castela e a definição de fronteiras
Os primeiros anos do reinado de Dinis viram a guerra civil em Castela, que opõe Afonso X, o Sábio contra o infante Sancho. Em abril de 1284 Dinis envia a Castela uma embaixada de condolências pela morte do rei castelhano. Contudo, a situação entre Portugal e Leão-Castela não era de todo pacífica: desde a conquista do Algarve que ambos os reis do ocidente da Península reclamam o título de Rei do Algarve, facto que incomodava bastante o rei português.thumb|upright|O diploma do tratado de Alcanises, mantido no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que definiu os limites fronteiriços entre Portugal e CastelaApesar disso, as relações entre os dois reinos ainda eram estáveis, tendo-se inclusivamente aliado, em dezembro de 1288, contra Aragão, que combateram entre a primavera e o verão de 1289. A verdadeira quebra viria em 1293, quando Dinis protege o magnate castelhano João Nunes de Lara. A situação parece piorar quando Sancho concerta para o seu filho Fernando a mão da princesa Isabel, filha de .
No seu testamento, Sancho IV de Castela determinara que se devolvessem ao reino português as vilas de Moura e Serpa, e os castelos de Mourão e Noudar, e ainda os castelos e as vilas de Arronches e Aracena, injustamente arrebatadas a Portugal e se encontravam indevidamente retidas pelos castelhanos. O rei castelhano falece a 25 de abril de 1295 e a 20 de outubro os referidos bens são oficialmente entregues a Portugal, mais concretamente a João Rodrigues, em nome de Dinis. Seria, no entanto, o cavaleiro Nuno Fernandes Cogominho que viria a assumir a sua posse em nome do rei.
Durante a menoridade de Fernando IV de Castela, com nove anos apenas, acentua-se a turbulência política em Castela. A regência coube à mãe do novo monarca, Maria de Molina, sendo contestada pelos infantes João, senhor de Valência de Campos, irmão de Sancho IV e Henrique de Castela O Senador, irmão de Afonso X. O infante João tentou obter a ajuda de Dinis. Desta forma, deslocou-se à Guarda para acordar um pacto, no qual Dinis apoiaria a pretensão de João para o trono de Leão, extinto desde 1230 por Fernando III de Castela. Este acordo foi ratificado a 4 de outubro de 1295. esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Vista do castelo do Sabugal. A localidade passou a pertencer a Portugal, desde 1297 Portugal acaba por declarar guerra a Castela, anunciada nas cortes de Valladolid. A notícia preocupou os castelhanos, uma vez que havia plena consciência das dificuldades que consistiria uma guerra com Portugal. Desta forma, os nobres castelhanos escreveram a Dinis, a 12 de maio de 1297, para obter o seu apoio no combate ao infante João, claramente ignorando que o rei de Portugal já o apoiava. Este segue para Toro, onde propõe a Maria de Molina o reconhecimento do infante rebelde como rei da Galiza, proposta que esta recusou. Com os seus intentos frustrados, Dinis regressa a Portugal permanecendo no Sabugal todo o mês de agosto e a primeira quinzena de Setembro.
A 12 de setembro de 1297, celebrou-se o tratado de Alcanises, na localidade castelhana do mesmo nome. As cláusulas estabeleciam os direitos de Portugal à posse de vários castelos em Ribacôa e o castelo de Monforte. Outros castelos localizados no atual Alentejo tornaram-se nesta altura parte definitiva de Portugal (com exceção de Olivença): Campo Maior, Ouguela e S. Félix dos Galegos. Acrescentavam-se ainda os castelos de Moura e Serpa, que apesar de cedidos ainda não haviam sido devolvidos. Vários destes bens, como Serpa ou Moura, haviam sido conquistados por Afonso X de Castela aos portugueses durante a guerra de 1245-47, que opunha Afonso III de Portugal ao seu irmão Sancho II.
Por seu turno, Portugal renunciava aos castelos de Aroche e Aracena, e ainda Valencia de Alcántara, Ferreira e Esparregal, na posse da Ordem de Alcântara.
O tratado estabeleceria a paz com Castela, uma paz prevista de 40 anos, de amizade e defesa mútuas, definindo-se as fronteiras actuais entre os dois países ibéricos. A paz e a aliança foram oficialmente seladas pela combinação dos casamentos dos infantes Constança e Afonso, filhos de Dinis, com o rei Fernando IV de Castela e a infanta Beatriz, filhos da rainha regente, respetivamente.
A proteção da Ordem do Templo