MOS Technology, Inc., também conhecida como CSG (Commodore Semiconductor Group), foi uma empresa projetista e fabricante de semicondutores e circuitos integrados sediada em Norristown, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Tornou-se famosa pela criação do microprocessador MOS Technology 6502, e por vários projetos para os microcomputadores da Commodore International. Apesar da semelhança do nome, a MOS Technology nada tem a ver com a Mostek.
História O início A MOS Technology, Inc. (sendo "MOS" a abreviatura de Metal Oxide Semiconductor) surgiu em meados de 1974, por conta da insatisfação de um grupo de engenheiros da Motorola que viram seu projeto de produzir uma versão barata do Motorola 6800 barrado pela direção da empresa. Enquanto o 6800 era vendido por US$ 300,00 (o equivalente em 2019 a US$ 1.600,00), os engenheiros, capitaneados por Bill Mensch e Chuck Peddle acreditavam que poderiam produzir um microprocessador em torno de US$ 25,00, e ganhar dinheiro com a produção em grande escala.
Bill Mensch então entrou em contato com um ex-colega da General Electric, dono de uma fabriqueta de circuitos integrados denominada MOS Technology. A MOS era uma subsidiária da Allen-Bradley, LLC., e na época era uma fornecedora de segunda linha da Texas Instruments, produzindo chips para calculadoras, particularmente uma série denominada MPS7500. Chuck Peddle encarregou-se então do acordo que resultou na formação da MOS Technology, Inc.. Outros seis engenheiros da Motorola juntaram-se ao grupo, sob a promessa de que receberiam uma "participação nos lucros" - e nenhum salário. Esse detalhe do acordo só foi descoberto pelos participantes meses mais tarde, e a irritação foi geral: em meados da década de 1970, não existia ainda uma indústria de microcomputadores, e ninguém esperava ganhar dinheiro fabricando microprocessadores. Além disso, havia certa animosidade entre os antigos funcionários da MOS e os recém-chegados da Motorola. Bill Mensch informou numa entrevista, anos mais tarde, que em sua primeira semana na MOS, teve dois pneus do seu carro furados.
Chuck Peddle, contudo, conseguiu fazer com que a equipe se unisse em torno do projeto de uma família de microprocessadores revolucionários, que deveriam custar em torno de US$ 25,00. Para chegar ao valor pretendido, especificou que os engenheiros deveriam produzir uma UCP que trabalhasse com um conjunto mínimo de instruções e nada além disso. Em junho de 1975, as primeiras UCPs da série 6500, os 6501 e 6502, estavam prontas para entrar em produção.
Mas foi exatamente aí que a Motorola resolveu mover um processo contra a MOS Technology, teoricamente por violação de patentes e concorrência desleal, já que o 6501 era compatível com a pinagem do 6800. Na verdade, segundo Bill Mensch, o processo era uma intimidação e tinha mais a ver com propriedade intelectual: os oito ex-engenheiros da Motorola conheciam profundamente vários conceitos desenvolvidos pela empresa e que não haviam sido patenteados, e era precisamente isso que a Motorola queria proteger.
O 6501 teve de ser retirado do mercado e quase todas as unidades produzidas foram destruídas. O processo arrastou-se por anos a fio, e finalmente a MOS Technology teve de pagar US$ 200 mil de custas judiciais à Motorola (outras fontes falam em US$ 300 mil).
Projetos paralelos thumb|right|180px|Pinagem do MOS Technology 6502. O 6501, em grande parte, foi um projeto do engenheiro Rod Orgle, com os esquemas desenhados a mão por Bill Mensch (não havia programas de CAD-CAM nesta época), e, o que é mais notável, funcionou logo na primeira tentativa. Era quatro vezes mais rápido e compatível a nível de pinagem com o 6800, mas não a nível de software. Nunca chegou realmente a entrar em produção comercial, embora quando do seu lançamento em 1975, pudesse ser teoricamente comprado na fábrica por US$ 20,00. Nos dias de hoje, é uma peça de colecionador.
O 6502, um projeto paralelo conduzido por Bill Mensch, era praticamente idêntico ao 6501, mas não era compatível com a pinagem do 6800 e possuía um gerador de clock integrado ao circuito. Por essas pequenas, mas cruciais diferenças, escapou ileso do processo judicial movido pela Motorola.Interview with William Mensch
A estréia O mercado, todavia, demonstrava desconfiança em relação à capacidade de produção do fabricante e a confiabilidade de um chip tão barato (particularmente se comparado ao 6800). Petr Sehnal, um amigo de Chuck Peddle dos tempos da GE e recém-contratado pela MOS Technology como gerente de vendas para a Costa Oeste, achou que era hora de lançar uma cartada decisiva e apresentar a família 6500 às massas. Nada melhor para isso do que a Western Electronics Show and Convention (WesCon) de San Francisco, que ocorreria em setembro de 1975.
Peddle recorda-se que Sehnal praticamente probiu o seu acesso ao prédio da MOS Technology para forçá-lo a produzir um manual de instruções do 6502 (sem o qual o produto seria inútil para os engenheiros e inviabilizaria o lançamento na feira). Peddle diz ter aceito a incumbência com humildade e reapresentou-se no trabalho semanas depois. Com os manuais prontos.
Em agosto de 1975, a MOS Technology fez circular anúncios e malas-diretas onde divulgava que o "microprocessador de US$ 25" estaria disponível para pronta entrega na Wescon. Todavia, ao chegar à feira, Peddle foi surpreendido com a informação de que não seriam permitidas vendas nos estandes dos participantes. Não se dando por vencido, ele alugou uma suíte luxuosa num hotel próximo, o St. Francis Hotel, e colocou sua bela esposa, Shirley, como garota-propaganda, sentada a uma mesa sobre a qual havia dois grandes jarros de vidro cheios de CIs 6501 e 6502. O que ninguém desconfiava é que metade dos chips em exibição (do meio para o fundo dos jarros) eram defeituosos e estavam ali apenas para fazer volume. Além das UCPs, Shirley também vendia CIs de apoio e dois manuais de referência, os quais acabaram por tornar-se muito populares.
Depois de adquirir os chips, os compradores adentravam a suíte e viam o funcionamento de dois sistemas básicos de demonstração das UCPs, os microcomputadores TIM e KIM-1. Um destes compradores foi Steve Wozniak, que viu ali a possibilidade de usar os chips num projeto de computador pessoal que tinha em mente, o Apple I (poucos anos depois, a empresa fundada por ele, a Apple Computer, tornaria-se uma das maiores clientes da MOS Technology). Outras figuras-chave que entraram na fila para comprar o 6502 foram Steve Mayer e Ron Milner da Cyan Engineering, uma prestadora de serviços da Atari. Eles planejavam algo que revolucionaria a indústria de vídeo-games e precisavam de uma UCP de baixo custo para viabilizá-lo. O 6502 era um sério candidato e Peddle foi convidado a conhecer a empresa para discutir os detalhes.
Logo no primeiro dia, a MOS Technology causou estragos junto à concorrência, forçando Intel e Motorola a baixarem o preço de seus produtos (8080 e 6800, respectivamente) de US$ 179,00 para US$ 69,95.Introduction to Microcontrollers Todavia, o lançamento na Wescon não foi pensado como uma forma de levantar dinheiro para a empresa, até porque a maior parte dos compradores eram pessoas físicas, mas como uma estratégia de marketing que chamaria a atenção para a MOS Technology e seus produtos. Analisado sob este ponto de vista, o evento foi um completo sucesso.
Além disso, um artigo denominado Son of Motorola, publicado na edição de novembro de 1975 da revista Byte e escrito por Dan Fylstra, convenceu o público consumidor de que o 6502 era uma UCP que valia à pena o investimento. Vinte anos depois, a mesma Byte relacionou o 6502 entre os vinte chips mais importantes de todos os tempos, atrás apenas do Intel 4004 e do 8080.
Fim e recomeço Apesar dos reveses impostos pela Motorola, Peddle e seu grupo tinham alguns motivos para comemorar: a Cyan havia fechado negócio com a MOS Technology para produzir as UCPs de um novo vídeo-game que seria produzido pela Atari, o Atari 2600. O microprocessador escolhido não foi o 6502, mas uma versão de baixíssimo custo, o 6507, capaz de endereçar apenas 8 KiB. A principal razão para a escolha foi o preço: a Atari estava disposta a pagar no máximo US$ 12,00 por um microprocessador, e o 6502 era vendido no varejo por US$ 25,00.
Mas, em fins de 1975 os principais produtos do catálogo da MOS Technology ainda eram chips para calculadoras produzidos sob licença da Texas Instruments, e seu principal cliente era a Commodore Business Machines. Foi justamente nesta época que o mercado saturou-se pela produção em massa e os preços começaram a cair vertiginosamente. Para complicar ainda mais a situação, a Texas Instruments resolveu vender calculadoras com sua própria marca, por um preço inferior ao custo de produção da Commodore. Em novembro de 1975, um artigo da New Scientist informava que a empresa "lutava pela sobrevivência", registrando um prejuízo de US$ 4,3 mihões.New Scientist: November 1975
Jack Tramiel, fundador e CEO da Commodore, acreditava que sem a integração vertical do processo de produção, iria à falência em pouco tempo. Isso implicava controlar todas as fases do ciclo produtivo, inclusive a fabricação dos circuitos integrados. Tramiel, que já tinha ouvido falar do 6502, e principalmente, de Chuck Peddle, resolveu então convencer seu principal investidor, Irving Gould, a injetar capital para a compra da MOS Technology. O negócio foi finalmente fechado entre setembro e outubro de 1976.
Surge a Apple Pouco antes da Commodore assumir o comando da MOS Technology, Peddle tentou uma cartada que, caso houvesse funcionado, teria mudado o rumo da história da informática: em parceria com Bill Gates, fez uma oferta pela compra da Apple Computer. Mas Steve Wozniak e Steve Jobs pediram US$ 150 mil pela empresa, e Peddle e Gates não conseguiram reunir mais do que 2/3 dessa quantia.Chuck Peddle
Peddle, que pouco menos de um ano atrás não cogitava que sua UCP pudesse ser usada em computadores para uso doméstico, havia mudado de ideia ao conhecer o trabalho dos hackers que afluíram em massa à Wescon, particularmente Woz e Jobs. A partir daí, convenceu-se de que o surgimento de um computador pessoal funcional e relativamente barato era questão de tempo.
Tramiel, o novo patrão, comprou a ideia de Peddle, mas lhe deu apenas seis meses para produzir um computador que a Commodore pudesse apresentar na primeira feira West Coast Computer Fair, a ser realizada em abril de 1977. Apesar de parecer uma temeridade, Peddle não começou do zero: o KIM-1 serviu de base. Ele conseguiu completar a tarefa a tempo, e um protótipo do PET, considerado por alguns como o primeiro computador pessoal, foi apresentado em janeiro daquele ano na Winter Consumer Electronics Show. Peddle levou ainda representantes da cadeia de lojas RadioShack para ver a máquina, mas eles não demonstraram interesse em colocá-lo à venda: estavam trabalhando no seu próprio microcomputador, o TRS-80.
Em abril de 1977 o Commodore PET 2001 foi exibido na West Coast Computer Fair. Custava US$ 790,00Commodore PET e possuía em sua configuração uma UCP 6502, 4 KiB de memória RAM, 14 KiB de ROM, teclado, monitor de vídeo e gravador de cassetes. Na mesma feira, a Apple Computer apresentou o Apple II, o primeiro computador pessoal capaz de exibir cores, com uma UCP 6502, 4 KiB de RAM, 16 KiB de ROM, teclado, placa-mãe com oito slots de expansão, joystick, placa de vídeo para monitor colorido e/ou televisor e BASIC embutido, por US$ 1.300,00. Apesar da grande diferença de preço, foi o Apple II quem finalmente acabou por firmar-se junto ao mercado consumidor.
MOS/CSG