Os tupis são diversos povos que viviam ao longo da costa do território que hoje compreende o Brasil. Esses povos se originam de antepassados que saíram há milênios do centro amazônico, expandiram-se ao norte do rio Amazonas, ao sul pelo Paraguai, a leste pelo Tocantins e a oeste pelo rio Madeira. Os tupis são apenas aqueles que migraram para o leste, e que, portanto, chegaram à costa leste do continente sul-americano.
Conforme explica Simão de Vasconcellos (mencionado por Eduardo Navarro), há um certo ancestral mítico chamado Tupi “que dizem ser donde procede toda a gente do Brasil”.VASCONCELLOS, Simão de. Chronica da Companhia de Jesu do estado do Brasil. Lisboa: A. J. Fernandes Lopes, 1865. v. 1. p. 89. Por conta disso, muitas tribos tupis possuem etnônimos que começam com "tupi", como os tupinambás, os tupinaquis, os tupiguaés e os tupiminós. Os tupis nomearam-se para se distinguir, ao se tornarem grupos diferentes, mesmo sendo descendentes de uma mesma família. Como o povo tamoio significa “os mais antigos” (os avós); os tupinambás, “descendentes diretos dos tupis”, os tupiniquins, “parentes dos tupis, que vieram dos tupinambás”.
A língua falada pelos tupis era o que hoje é conhecido como tupi antigo. Trata-se de uma língua com vasta distribuição geográfica (tão vasta quanto a dos tupis) e que teve crucial importância para a formação do Brasi, mas que porém, hoje é classificada como língua morta.
História Arqueologia miniatura|esquerda|Distribuição dos grupos indígenas na costa do Brasil no século XVI. Em amarelo, os do grupo tupi. Estudos demonstram que os tupis teriam habitado originalmente os vales dos rios Madeira e Xingu, que são afluentes da margem meridional do rio Amazonas.BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição. São Paulo. Ática. 2003. p.19. É sugerido ainda que diversos povos tupis antigos tenham ocupado as imediações da bacia do Guaporé há pelo menos 5000 anos . Esses povos, que teriam hábitos sedentários, eram caracteristicamente agricultores. Se estabeleciam em um dado local e posteriormente, por fatores relacionados ao crescimento demográfico, eram impulsionados a continuar se espalhando pelo território, através do fracionamento das aldeias. As terras originalmente ocupadas não eram deixadas para trás, o que caracterizaria uma dinâmica de “expansão” sedentária.
Esta dinâmica não ocorria em “saltos”, mas era gradativa. As populações tupis precisavam preparar os ambientes nos quais pretendiam se instalar, transformando as florestas originais em áreas produtivas e cultiváveis para sua agricultura. As novas áreas ocupadas eram geralmente contíguas às anteriores, ou seja, constituíam desdobramentos das aldeias originais. Evidências arqueológicas comprovam estes dados, sugerindo a presença e a ocupação contínua de aldeias durante períodos de mais de 1500 anos entre os Guarani, e mais de 1000 anos entre os tupinambás.
Os tupis teriam iniciado os movimentos de expansão e migração em direção à foz do rio Amazonas e, de lá, pelo litoral para o sul. Em outra hipótese, supõe-se que poderiam ter incorrido pelo continente adentro no sentido norte-sul, a partir do Amazonas, alcançando o rio Paraguai e daí ocupando as áreas da “floresta subtropical e o litoral, de sul para norte” . Estas movimentações teriam se iniciado no começo da era cristã. Carlos Fausto sustenta que existe uma grande lacuna de vestígios arqueológicos entre a costa do Amazonas e o Rio Grande do Norte, o que dificultaria a aceitação da primeira hipótese.
Alguns autores sustentam que, nesta trajetória de dispersão, levas sucessivas do mesmo povo foram encontrando as anteriores já estabelecidas. Certo é que, nesse processo, nações tupis derrotaram as nações tapuias que já habitavam o litoral brasileiro, expulsando-as, então, para o interior do continente, por volta do ano 1000. Alguns povos tapuias, entretanto, permaneceram estabelecidos no litoral, como pode-se ver no mapa acima.
O estudo arqueológico desses povos é muito baseado nos achados cerâmicos, visto que os tupis antigos eram hábeis ceramistas, assim como os contemporâneos. De acordo com os tipos de ornamentação e grafismos dos fragmentos encontrados, é possível atribuir o pertencimento da cerâmica a uma tradição ceramista já descrita, e com isso inferir, em um determinado local, qual povo teria sido o produtor daquele artefato. Utilizando dados químicos também se pode descobrir, a partir de ossadas ou elementos orgânicos fossilizados, qual a datação do sítio arqueológico, possibilitando, então, a localização temporal e espacial de uma determinada população. Com o cruzamento de dados como esses a evidências linguísticas e históricas, pode-se, finalmente, entender um pouco da dinâmica de movimentação desses povos ao longo do tempo, em um território tão grande como o Brasil e suas adjacências. Além disso, a tradição oral entre os povos indígenas também é determinante nessas pesquisas, e muitos pesquisadores indígenas estão trabalhando em registrar a própria arqueologia.
Encontro com os europeus Nos primeiros anos após a invasão, a presença europeia era esporádica, não havia um interesse na colonização da costa brasileira. Por isso, as primeiras relações entre tupis e portugueses se deram através de trocas conhecidas como escambo. Este consistia no intercâmbio da força de trabalho dos tupis, geralmente extraindo pau-brasil para as feitorias lusitanas, por mercadorias manufaturadas vindas de Portugal. Além do trabalho e do Ibirapitanga (madeira de tintura), os navios portugueses adquiriam através do escambo também papagaios, araras e saguis, dentre outros.MARCHANT, Alexander “Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasil’, São Paulo; Rio de Janeiro; Recife; Porto Alegre, Companhia Editora Nacional, 1943. Estes animais eram muito populares na Europa de então. É importante ressaltar que os tupis não estavam trocando bens de valor inestimável por “quinquilharias”, pois a visão de valor varia para cada sociedade. Melhores ferramentas ou espelhos eram mais valiosos no contexto indígena quinhentista do que a abundante vegetação de pau-brasil. A carga dessas trocas era muito mais simbólica do que de fato mercadológica.MONTEIRO, John M. ENTRE O ETNOCÍDIO E A ETNOGÊNESE. Tupis, tapuias e historiadores. 2017. p.53 - 78
Conforme os anos foram avançando e os primeiros sinais de fixação portuguesa surgiram, a necessidade de mão de obra aumentou. Os povos tupis, que mantinham uma relação relativamente simétrica nas trocas por escambo, começaram a ser requeridos como força de trabalho para os novos empreendimentos portugueses nos engenhos de açúcar, fixados no nordeste e no litoral paulista. Como o escambo estava longe de ser eficiente como ferramenta de obtenção de mão de obra, uma vez que nem sempre os indígenas sentiam-se dispostos a realizá-los, os lusitanos apelaram para a coerção. Sua estratégia consistiu em apropriar-se do trabalho nativo por meio do incentivo às guerras entre os grupos indígenas rivais, visando usar os cativos do conflito como escravos. No entanto, houve intensa resistência dos povos tupis à venda de seus cativos (tanto os captores quanto os prisioneiros). Isso ocorria devido à tradição da antropofagia, cuja realização era uma honra tanto para os sacrificados quanto para os que consumiam a carne. Por essa razão, os europeus, fortalecidos pela Igreja Católica e seu projeto de catequização, começaram uma forte campanha pelo fim dos rituais antropofágicos.
O projeto colonial português na América, assim como o de outros países europeus, foi extremamente dependente dos povos nativos para seu funcionamento, principalmente das mulheres nativas no primeiro momento. Portugal não tinha homens suficientes para ocupar propriamente as novas terras encontradas, muito menos para defendê-las dos ataques de nações indígenas hostis. A aliança com povos locais, principalmente os tupis, foi vital para sua permanência no território americano. Portugal necessitava de sua mão de obra para coletar as madeiras de pau-brasil para as feitorias e mais tardiamente para o plantio de gêneros agrícolas. Precisava também de seus guerreiros para defender o território e lutar em suas guerras de conquista, assim como do seu conhecimento da região. Um exemplo disso foi o sucesso das capitanias hereditárias de Pernambuco e São Vicente que, diferentemente das outras, contaram com aliados nativos vitais para o seu sucesso.Stuart B. Schwartz, Segredos Internos: Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550–1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
As mulheres indígenas tiveram um papel fundamental no processo de conquista. Elas atuaram como mediadoras nas relações familiares e negociações comerciais com os europeus, e foram essenciais na inserção dos europeus nas sociedades nativas, contribuindo para o estabelecimento do sistema colonial. O casamento com mulheres nativas proporcionou aos europeus tanto o sustento nutricional, uma vez que as mulheres eram responsáveis pela produção e preparo de todos os alimentos, como também o benefício do relacionamento com a família da esposa, usufruindo de privilégios ao acesso a armas e outras mercadorias.GARCIA, Elisa Frühauf. “As mulheres indígenas na formação do Brasil: Historiografia, agências nativas e símbolos nacionais”. In: SANTOS, Georgina; GARCIA, Elisa Frühauf (org.). Mulheres do mundo Atlântico: gênero e condição feminina da época moderna à contemporaneidade. Belo Horizonte: Fino Traço, 2020.
As alianças entre indígenas e europeus não foram uma subserviência dos primeiros. Inicialmente, elas atendiam também às demandas dos próprios indígenas. As tentativas de estabelecimento de uma sociedade colonial no Brasil, no entanto, geraram um aumento da expectativa do trabalho nativo. Esses povos resistiram a tais expectativas, ao que os europeus responderam com violência. Os chefes tupis então, buscavam novas alianças ou até trocavam de lado nas guerras conforme suas conveniências. A própria Confederação dos Tamoios, o mais célebre conflito do período, está repleta de exemplos onde povos rivais se unem para combater um inimigo comum ou se aliam a estrangeiros para enfrentar rivais locais. Essa fluidez das dinâmicas nativas é uma prova de sua agência na tomada de decisões importantes.Almeida, Maria Regina Celestino. Metamorfoses Indígenas: Identidade e Cultura nas Aldeias Coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
Guerras e Revoltas A implantação de outras atividades econômicas provocou uma mudança no vínculo entre portugueses e indígenas. Enquanto o comércio era baseado no escambo, marcado por esporádicos encontros em que o pau-brasil era extraído e transportado, a relação entre ambos os grupos era relativamente estável. A partir de 1534, com o estabelecimento das Capitanias Hereditárias, as formas de trabalho se tornaram cada vez mais compulsórias fazendo com que as reações nativas também fossem mais frequentes. Fugas, ataques a vilas, defesa de aldeias e formação de aliança com outros invasores europeus, foram algumas das estratégias adotadas pelos nativos para resistir às imposições coercitivas portuguesas.
Confederação dos Tamoios - Quando os navegadores europeus começaram a frequentar a costa brasileira, no século XVI, passaram a estabelecer relações de comércio com seus habitantes, majoritariamente povos tupis. Alguns destes, como os tabajaras, os tupiniquins e os temiminós, se aliaram aos portugueses. Outros, como os tamoios, caetés e potiguaras, se uniram aos franceses. Isto valeu, aos tamoios, sua aniquilação quase total por parte dos portugueses. O conflito passou à história como Confederação dos Tamoios. A disputa se deu em torno da luta dos tamoios [contra sua escravização, e pela manutenção da sua autonomia política, ou seja, visavam impedir o estabelecimento da sociedade colonial, além, é claro, de expulsar os portugueses de seu território.