A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França é um templo católico situado no núcleo histórico de Corumbá de Goiás, no estado de Goiás, Brasil. Sua origem está associada à formação do antigo arraial minerador estabelecido nas proximidades do rio Corumbá no início do século XVIII. A povoação surgiu em 1731 e, em 1734, foi inaugurada uma primeira capela dedicada a Nossa Senhora da Penha de França. O edifício que posteriormente assumiu a função de matriz resultou de sucessivas campanhas construtivas e reformas, cuja cronologia principal é situada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) entre aproximadamente 1750 e 1880.

Implantada em posição elevada em relação ao rio e ao casario, a igreja constitui o principal marco visual da parte antiga da cidade. O templo e os imóveis que o circundam compõem o bem federal denominado Conjunto Arquitetônico constituído pela Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França e bens edificados que a envolvem, objeto do processo de tombamento nº 1.269-T-88. A proposta de proteção foi apreciada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural em 2000, o tombamento foi homologado pela Portaria nº 349, de 21 de dezembro de 2004, e o conjunto foi inscrito, em 30 de setembro de 2008, no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.

A matriz é representativa da arquitetura vernacular desenvolvida no interior de Goiás. Sua construção emprega estrutura de madeira, adobe, pedra e taipa de pilão, e o interior conserva altares, elementos de forro, pratarias, esculturas, pinturas e outros bens móveis e integrados incorporados em diferentes períodos.

Além da função litúrgica, a matriz e seus espaços adjacentes foram historicamente utilizados para sepultamentos. Um conjunto de 658 registros de óbito da freguesia, produzido entre 1847 e 1855, e as escavações arqueológicas realizadas durante a restauração do templo documentam práticas funerárias, diferenças sociais na escolha e no registro dos locais de enterramento e diferentes fases de utilização do espaço religioso.

História

Formação do arraial e capela primitiva

A ocupação colonial da região de Corumbá esteve relacionada à expansão da mineração aurífera pelo interior da América Portuguesa. Segundo o Iphan, o centro histórico surgiu em 1731 como polo de mineração, formado principalmente por paulistas e portugueses ligados às expedições que procuravam ouro e pedras preciosas.

A formação de Corumbá integrou o processo mais amplo de ocupação dos chamados sertões dos Goyazes durante a primeira metade do século XVIII. Até a criação da Capitania de Goiás, em 1749, o território encontrava-se subordinado à Capitania de São Paulo. A exploração mineral impulsionou a criação de arraiais próximos a rios, caminhos e áreas de lavra, nos quais os edifícios religiosos frequentemente funcionavam como elementos de organização espacial e social.

A documentação estudada por Ramir Curado indica a presença precoce da devoção a Nossa Senhora da Penha no arraial. Em sua dissertação sobre Corumbá e Meia Ponte, Curado registra um testamento datado de junho de 1731 no qual Manoel dos Santos Vilela recorria à invocação de Nossa Senhora da Penha. A documentação é considerada pela historiografia local uma das primeiras evidências relacionadas à devoção que posteriormente se consolidaria como orago da povoação.

Em 1734 foi inaugurada a primeira capela de Nossa Senhora da Penha de França. Segundo o Iphan, a presença do templo contribuiu para que a povoação se tornasse centro de referência para a região do rio Corumbá.

esquerda|miniaturadaimagem|300px|Representação do arraial de Corumbá no século XVIII, com a Capela da Penha e o povoado. Desenho de Lúcia Curado, baseado em pesquisas de Hercílio Fleury, Sílvio Fleury e Ramir Curado.

Do ponto de vista eclesiástico, Corumbá permaneceu inicialmente subordinada a Meia Ponte, atual Pirenópolis, cuja freguesia de Nossa Senhora do Rosário exercia jurisdição religiosa sobre diferentes núcleos da região.

Estudos arqueológicos sobre a formação urbana identificam pelo menos dois momentos de ocupação do espaço. Um primeiro agrupamento esteve associado às áreas próximas aos cursos d'água e às lavras, enquanto a consolidação posterior ocorreu em terreno mais elevado, onde a igreja e o casario passaram a estruturar a parte central do arraial.

A matriz foi implantada de forma a manter a fachada voltada para leste. Sua posição elevada em relação às demais construções transformou o edifício religioso em referência visual para a povoação e influenciou a disposição das primeiras casas e espaços de circulação.

A relação entre igreja, largo, casario, relevo e rio permaneceu legível na paisagem urbana contemporânea e viria a constituir um dos principais fundamentos da proteção patrimonial federal concedida ao conjunto.

Construção e transformações setecentistas

A capela inaugurada em 1734 não corresponde integralmente ao edifício que chegou à atualidade. A Matriz de Nossa Senhora da Penha de França é resultado de diferentes campanhas de construção e reconstrução executadas ao longo dos séculos XVIII e XIX.

miniaturadaimagem|280px|Nossa Senhora da Penha de França - Padroeira

Ramir Curado situa em meados do século XVIII a substituição ou ampliação da primitiva capela por um templo de maiores proporções. Sua pesquisa relaciona a nova fase construtiva à atuação do padre Manoel da Maya e à consolidação do arraial como núcleo populacional permanente.

O Iphan adota aproximadamente 1750 como início da construção do edifício que originou a matriz histórica e estende sua formação e suas transformações até cerca de 1880. Essa cronologia permite interpretar o templo como uma construção cumulativa, formada por ampliações, reformas e acréscimos realizados por sucessivas gerações.

Segundo a documentação reunida por Curado, a igreja setecentista utilizava fundações de pedra, paredes espessas de taipa e estrutura de madeira. Esses sistemas correspondem às técnicas vernaculares documentadas no edifício atual, onde também aparecem adobe, pedra e taipa de pilão.

Um estudo arqueológico recente descreve o partido arquitetônico com nave única e capela-mor, além de espaços laterais auxiliares. O exterior apresenta composição relativamente simples, enquanto o interior recebeu elementos ornamentais acrescentados em diferentes épocas.

A documentação histórica registra o altar principal dedicado a Nossa Senhora da Penha e a presença de outras devoções no interior do templo. A incorporação gradual de altares, imagens e objetos litúrgicos acompanhou a consolidação da igreja como principal centro católico do arraial.

Na segunda metade do século XVIII, documentos administrativos passaram a empregar designações relacionadas ao Arraial de Nossa Senhora da Penha do Corumbá, demonstrando que o orago religioso havia sido incorporado à própria identificação da localidade.

Século XIX e elevação a matriz

Com o declínio progressivo da mineração, a economia regional passou a apoiar-se cada vez mais na agropecuária e no comércio. Corumbá, entretanto, manteve importância pela localização em rotas que conectavam Goiás a Paracatu, em Minas Gerais, e à Bahia, assumindo função de entreposto comercial.

Durante as primeiras décadas do século XIX, viajantes que percorreram Goiás registraram a existência do povoado e de seu templo. Ramir Curado examinou relatos de Johann Baptist Emanuel Pohl, Auguste de Saint-Hilaire e Raimundo José da Cunha Matos, identificando diferentes descrições da localidade. Cunha Matos, que passou pela região em 1823, mencionou a igreja dedicada a Nossa Senhora da Penha e reformas então conduzidas pelo padre Antônio da Costa Teixeira.

Em 5 de dezembro de 1840, pela Resolução Provincial nº 5, Corumbá passou à categoria de paróquia, tendo como primeiro vigário o padre Manoel Inocêncio da Costa Campos. A antiga igreja passou, assim, à condição institucional de matriz da nova freguesia.

direita|miniaturadaimagem|300px|Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França em 2009.

A administração de Manoel Inocêncio esteve associada a uma nova etapa de reformas e ampliação. Ramir Curado documentou a participação de membros da família Costa Campos no financiamento da matriz. Ana Inocência da Costa Campos mandou fabricar no Rio de Janeiro uma lâmpada de prata destinada ao Santíssimo Sacramento, instalada no templo em 26 de fevereiro de 1856.

O mesmo estudo registra que Bárbara Maria de Campos, falecida em 1854, deixou um legado utilizado para custear metade do valor de uma torre lateral da matriz; segundo Curado, a outra metade foi financiada pelo próprio vigário Manoel Inocêncio.

A documentação reunida por Dyellynton Ferreira dos Santos registra ainda um sino datado de 1856 entre os bens históricos da igreja.

As fontes divergem quanto à instalação do relógio de uma das torres. O levantamento patrimonial reproduzido por Santos indica a data de 1890, enquanto publicação da Prefeitura de Corumbá de Goiás atribui sua instalação a 1917 e informa que o mecanismo é de fabricação alemã.

A longa sequência de obras oitocentistas é coerente com a periodização do Iphan, que estende até aproximadamente 1880 as transformações responsáveis pela configuração histórica da igreja.

Séculos XX e XXI

Ao longo do século XX, a matriz continuou a exercer papel central na vida religiosa e urbana de Corumbá. O edifício recebeu novas intervenções, conservando elementos provenientes de fases distintas de sua história.

Durante a instrução do processo federal de tombamento, técnicos do Iphan identificaram alterações em pisos, forros, esquadrias e pinturas dos retábulos. Essas transformações demonstraram que o edifício não permaneceu estático desde o período colonial, circunstância que influenciou diretamente a formulação da proteção patrimonial posteriormente adotada.

Ramir Curado registra que César Dunstan Curado mandou construir, em 1935, o cruzeiro colocado diante da matriz. O mesmo personagem participou posteriormente, juntamente com outros moradores, da arrecadação de recursos para o reparo de um sino da igreja que havia rachado.

Na primeira metade da década de 2010, a igreja passou por uma ampla campanha de conservação e restauração. A série Igrejas de Goiás situa parte das obras entre 2013 e 2014, enquanto reportagem sobre a posterior musealização menciona um processo de intervenção desenvolvido entre 2012 e 2015.

A intervenção arquitetônica foi acompanhada por pesquisa arqueológica, que revelou contextos funerários e materiais relacionados a diferentes momentos de utilização do templo.

Em 2014, nove pinturas de cavalete pertencentes à igreja foram recuperadas pelo Laboratório de Conservação e Restauro do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás. O serviço foi contratado pela Marsou Engenharia Ltda. e acompanhado pelo Iphan.

Em março de 2018 foi inaugurado no templo o Museu Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, com exposição permanente de arte sacra. O projeto envolveu a Associação de Cultura e Defesa do Patrimônio Histórico de Corumbá de Goiás, a Igreja Católica e o Iphan e recebeu incentivo do Fundo Estadual de Cultura de Goiás.

A criação do museu não suprimiu a utilização religiosa do edifício. As celebrações litúrgicas continuaram a ser realizadas regularmente, enquanto parte do acervo passou a ser apresentada segundo critérios museológicos em espaços do complexo da matriz.

Arquitetura

Sistema construtivo e partido arquitetônico

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França apresenta características da arquitetura religiosa vernacular desenvolvida nos núcleos coloniais do interior de Goiás. A estrutura emprega madeira associada a paredes espessas de adobe, pedra e taipa de pilão, técnicas amplamente utilizadas durante a ocupação histórica do Brasil Central.