Instituto Butantan é um destacado centro de pesquisa científica e produção de imunobiológicos localizado no Butantã, na Zona Oeste da cidade de São Paulo, adjacente ao campus Cidade Universitária da Universidade de São Paulo. O Instituto é uma instituição pública ligada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, do Governo do Estado de São Paulo desde sua fundação. Por seu trabalho notável em saúde pública, o instituto é considerado um dos principais centros científicos do Brasil e do mundo. O complexo do Butantan conta com unidades de produção de biofármacos, dezenas de laboratórios dedicados à pesquisa científica, um hospital (Hospital Vital Brazil) e o Parque da Ciência Butantan, com cinco museus, uma biblioteca, um macacário, um serpentário, um reptário, entre outras atrações. Apesar de possuir estreitas relações científicas e compartilharem do mesmo espaço físico, o Instituto Butantan não é unidade integrante da Universidade de São Paulo, possuindo autonomia administrativa e financeira.

O Instituto foi fundado em 23 de fevereiro de 1901, sob o nome de Instituto Serumtherapico. Hoje, é responsável por grande parte da produção de vacinas utilizadas no Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde e por quase a totalidade dos soros hiperimunes utilizados na rede pública de saúde para tratar acidentes causados por serpentes, aranhas, escorpiões e toxinas. Anualmente, o Butantan produz mais de 80 milhões de doses da vacina contra a gripe (influenza) que são disponibilizadas à população na Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe. Durante a pandemia, em parceria com a farmacêutica Sinovac Life Science, do grupo Sinovac Biotech, o Instituto Butantan realizou a produção da vacina CoronaVac, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso emergencial contra o coronavírus (COVID-19).

Além das atividades diretamente relacionadas a saúde pública, o Instituto Butantan é também um importante ponto turístico da cidade de São Paulo. O Parque da Ciência Butantan, que possui uma área total de 725 mil m², abriga o Museu Biológico, o Museu Histórico, o Museu de Microbiologia e o Museu da Vacina, inaugurado em março de 2023.Instituto Butantan inaugura o primeiro Museu da Vacina da América Latina; 07/03/2023 - Atualizado: 09/03/2023 às 16:01; jornal.usp.br Também faz parte do complexo o Museu de Saúde Pública Emilio Ribas, que fica localizado no Bairro do Bom Retiro, em São Paulo, no prédio que abrigava o antigo Desinfectório Central. A entrada no Parque da Ciência é gratuita, mas o acesso aos museus se dá mediante aquisição de ingressos a preços populares. O Parque da Ciência está aberto de segunda a segunda, das 7h às 17h, e os museus abrem de terça a domingo, das 9h às 16h45.

História

Criação do Instituto e os primeiros soros e vacinas (1899 – 1910) thumb|Antigo Instituto Butantan O Instituto Butantan surgiu em 1899 (final do século XIX) para ajudar no combate a um surto de peste bubônica que se propagava no estado de São Paulo a partir do Porto de Santos. Temendo que a doença atingisse a capital, o governo paulista convocou o Instituto Bacteriológico (atual Instituto Adolfo Lutz) para tentar resolver o problema. Seu diretor, Adolfo Lutz, mandou para essa cidade o assistente Vital Brazil. Em pouco tempo ele diagnosticou a doença e, em conjunto com o médico Oswaldo Cruz, criou um plano para controlá-la. De volta à capital, Vital Brazil foi encarregado de chefiar a organização de um laboratório de produção de soro antipestoso, vinculado ao Instituto Bacteriológico.

Para albergar este novo serviço e laboratório, o médico Emílio Ribas, diretor sanitarista do estado, sugeriu ao então presidente de São Paulo, Coronel Fernando Prestes de Albuquerque, a desapropriação da fazenda Butantan. A localização da fazenda era ideal, já que ficava bastante afastada do centro da cidade, do outro lado do Rio Pinheiros, em uma época em que não havia pontes para unir as duas margens. Em fevereiro de 1901, esse serviço transformou-se em instituição autônoma, então denominada "Instituto Serumtherapico do Estado de São Paulo", e tendo como primeiro diretor o médico sanitarista Vital Brazil. O nome Butantan, segundo o filólogo Eduardo Navarro, é originário do tupi antigo e quer dizer "terra dura dura", formando o superlativo a partir da duplicação do adjetivo.NAVARRO E. Método Moderno de Tupi Antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos Global Editora A nomeação para Instituto Butantan aconteceria na década de 1920: em 1925, a instituição já era chamada assim em documentos oficiais.

Em junho de 1901, quando a peste bubônica já havia chegado à cidade de São Paulo, o Instituto começou a produzir o soro antipestoso – considerado pelo Instituto Pasteur de Paris a grande arma para vencer a peste bubônica. A situação da epidemia de peste bubônica só mudaria em 1902, quando a instituição começou a produzir a vacina antipestosa, seguindo a técnica criada pelo italiano Camillo Terni do Instituto de Messina, a partir da vacina desenvolvida pelo médico russo Waldemar Haffkine.

Em 1906, com o controle da peste bubônica e a diminuição da demanda por vacina e soro antipestosos, o Butantan passou a produzir e disponibilizar à população soro antidiftérico. A difteria, ou crupe, havia sido introduzida no Brasil no final do século XIX por imigrantes europeus, e se espalhou rapidamente pelas grandes cidades, tornando-se endêmica nos meses de outono e inverno.

Vital Brazil e a descoberta da especificidade do soro antiofídico miniaturadaimagem|Vídeo de 1920 sobre o Instituto ButantanEm seus primeiros anos como médico, antes de assumir a direção do Butantan, Vital Brazil já se dedicava ao combate de doenças infecciosas pelo Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. O trabalho acabou lhe rendendo duas infecções de febre amarela, devido à exposição frequente. Em 1895, por insistência da família preocupada com sua segurança, mudou-se para Botucatu, interior de São Paulo, para trabalhar em uma clínica. Nos atendimentos, se deparava com diversos pacientes acidentados com serpentes peçonhentas.

O número elevado de mortes chamou a atenção do sanitarista – os tratamentos eram ineficientes na maioria dos casos. Assim, o médico decidiu se dedicar aos estudos de acidentes ofídicos. miniaturadaimagem|Jararaca (Bothrops jararaca) Começou com a leitura de artigos do bacteriologista francês Léon Calmette, que foi o primeiro a desenvolver um antiveneno para picada de cobra. Calmette acreditava na criação de um soro universal: o soro contra o veneno mais poderoso, o da naja, deveria proteger contra outras serpentes. Então, Vital passou a coletar serpentes para extrair e analisar os venenos. Com poucos recursos no laboratório de Botucatu, voltou para São Paulo em 1897 e conseguiu uma vaga de assistente no Instituto Bacteriológico.

Em testes com animais, o médico sanitarista notou que a picada de cada cobra causava sintomas diferentes, e separou os tipos de veneno de acordo com a ação. Em 1898, comprou uma amostra do soro de naja produzido por Calmette e o testou contra o veneno da cascavel. Para sua surpresa, o tratamento não funcionou. Como ele já tinha animais imunizados com peçonha de jararaca e cascavel, decidiu usar os dois tipos de soro contra seu respectivo veneno. Foi assim que Vital Brazil fez a sua maior descoberta científica: a especificidade do soro, que resultou no livro “A defesa contra o ophidismo”, publicado anos depois, em 1911.

Em 1901, já na direção do Butantan, Vital deu continuidade aos trabalhos com serpentes e o Instituto foi se tornando referência em herpetologia, produzindo soros antiofídicos, ensinando trabalhadores de campo a se prevenir de acidentes e desmistificando tratamentos populares ineficazes. Em 1902, o sanitarista relatou o primeiro tratamento com soro antibotrópico (contra jararaca) em seres humanos.

Expansão e reconhecimento internacional (1910 – 1940) thumb|Theodore Roosevelt em um automóvel no Instituto Butantan em 1914.thumb|Serpentário do Instituto Butantan em 1914.

Em 1914, em um grande passo rumo ao progresso do Instituto, foram inaugurados o serpentário e o Prédio Central, futuramente batizado de Edifício Vital Brazil. Construído segundo as orientações do próprio Vital, o edifício serviu para alocar setores de pesquisa e produção, possibilitando uma expansão nos estudos voltados à saúde pública e um maior aprimoramento das atividades do Instituto. Hoje, essa construção é o cartão postal do Butantan e abriga a Biblioteca Científica, entre outras atrações do Parque da Ciência.

Em novembro de 1915, durante uma viagem aos Estados Unidos para o Congresso Científico Pan-Americano, Vital Brazil entregou o soro que salvou a vida de um trabalhador do zoológico de Nova York, que havia sido picado por uma cascavel. A história foi publicada no jornal The New York Times. Dois anos depois, preocupado em disponibilizar os soros gratuitamente para a população brasileira, Vital decidiu doar a patente da invenção ao governo do Estado de São Paulo.

Ao longo dos anos, o trabalho da instituição se estendeu ao desenvolvimento de soros para tratar outros envenenamentos, como o antiescorpiônico (1916) e o antiaracnídico (1926), além de doenças infecciosas, como o antitetânico (1915). Na mesma época, o Instituto passou a produzir suas primeiras vacinas: o imunizante contra gonorreia (1918), meningite (1920), pneumonia (1921), a vacina BCG contra tuberculose (1926) e a contra difteria (1927). A partir de 1945, com a inauguração do Hospital Vital Brazil, o Butantan expandiu sua atuação relacionada aos envenenamentos e passou a atender pacientes acidentados com animais peçonhentos. Desde a sua abertura, o hospital já atendeu mais de 100 mil casos.

Desenvolvimento de novas vacinas e criação do PNI (1940 – 1980) Após a década de 1940, outros imunizantes começaram a ser incorporados à produção do Butantan, como influenza (1948), raiva (1949), febre amarela (1953) e coqueluche (1955). Na década de 1960, o Instituto atuou no controle de qualidade e distribuição da vacina oral contra a poliomielite (VOP) e iniciou a produção da vacina tríplice bacteriana (difteria, tétano e pertussis). Também produziu o soro antirrábico para tratamento da raiva. Sempre monitorando a situação epidemiológica do país, o Butantan agiu durante uma grave epidemia de encefalite no litoral sul do Estado de São Paulo em 1975, causada pelo arbovírus Rocio, e produziu uma vacina contra o patógeno. A instituição também apoiou o combate aos mosquitos vetores.

Nos anos 1980, passou a produzir a vacina BCG intradérmica liofilizada e a vacina contra o sarampo, estas já distribuídas no Programa Nacional de Imunizações (PNI) – programa criado em 1973 que centralizou as campanhas de vacinação no país e revolucionou o combate às doenças infecciosas. O Butantan também contribuiu para o sucesso da campanha nacional de erradicação da varíola, infecção grave e altamente contagiosa que matava 30% dos infectados. A doença foi erradicada das Américas em 1973 e do mundo em 1980.

Em 1985, quando o maior produtor de soro antiofídico do Brasil encerrou suas atividades no país, o Butantan passou a integrar o Programa de Autossuficiência Nacional em Imunobiológicos (Pasni), criado pelo governo federal para investir em laboratórios públicos nacionais para suprir a demanda de antivenenos. Na época, o Instituto inaugurou sete laboratórios de pesquisa: Biologia Molecular, Centro de Biotecnologia, Centro de Pesquisa e Formação em Imunologia, lmunogenética, lmunoquímica, Imunologia Viral e Zoonoses e Endemias Parasitárias. Com o apoio do Ministério da Saúde, o Butantan passou a ser o principal responsável pela produção de soros no Brasil. miniaturadaimagem|Centro Administrativo do Butantan

Criação da Fundação Butantan (1990)