Ernesto José Vidal, Ernesto Vidal Di Servolo ou ainda Ernesto Servolo Pedro Vidal Cassio (Buie d'Istria, Itália, hoje Buje, Croácia, 15 de novembro de 1921 — Córdoba, Argentina, 20 de fevereiro de 1974) foi um futebolista de nacionalidades italiana (do país em que nasceu) e argentina (onde cresceu) que também naturalizou-se uruguaio. Foi o ponta-esquerda titular do Uruguai na Copa do Mundo FIFA de 1950, ausentando-se somente, justamente, do Maracanaço, com uma lesão fazendo com que fosse substituído pelo obscuro Rubén Morán.GEHRINGER, Max (dez. 2005). Os campeões. Placar - A Saga da Jules Rimet, fascículo 4 - 1950 Brasil. São Paulo: Editora Abril, pp. 40-41
Foi um grande ídolo do Peñarol, cuja torcida o apelidou de El Patrullero, em alusão a novos modelos de viaturas que começavam a se destacar nas patrulhas policiais em Montevidéu. O clube foi base da seleção campeã de 1950, especialmente seu ataque, com quatro dos titulares, dos quais Vidal era quem há mais tempo defendia os aurinegros.BASSORELLI, Gerardo (2012). El Patrullero Vidal. Héroes de Peñarol. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 275-276 Foi o primeiro campeão mundial revelado pelo futebol cordobês, onde iniciou a carreira, na cidade do interior argentino na qual vivia desde os 2 anos de idade.
Origens
Há incertezas quanto ao nome de batismo de Vidal, havendo registros de vistos de entrada no Brasil em que aparece como "Ernesto Vidal Di Servolo" (em seu passaporte italiano) e como "Ernesto Servolo Pedro Vidal Cassio" (em seu passaporte uruguaio). Era filho de Servolo Vidal com Domenica Cassio e desde os dois anos de idade cresceu em San Francisco, interior da província argentina de Córdoba.
Seu sobrenome Vidal seria oriundo de antepassados espanhóis refugiados da Guerra da Sucessão Espanhola, conflito do século XVIII, e sua cidade natal já pertenceu à República de Veneza e à França napoleônica, trocando de nacionalidade diversas vezes no século XX: era da Áustria-Hungria (cujo nadador Béla Las-Torres, medalha de prata nas Olimpíadas de 1908, seria outro descendente destes refugiados) até o fim da Primeira Guerra Mundial.
A cidade, da região da Ístria, passou então ao Reino da Itália, passando após a Segunda Guerra Mundial a integrar inicialmente o Território Livre de Trieste e depois a Iugoslávia. Atualmente, pertence à Croácia (em cujo idioma chama-se Buje), na fronteira com a Eslovênia.
Carreira em clubes No futebol argentino thumb|right|350px|Vidal é o último agachado nesta imagem do Rosario Central publicada em junho de 1944. Ainda naquele mês, o jogador estreou pelo Peñarol. Começou a carreira ainda na cidade de San Francisco, onde havia crescido desde os dois anos de idade, no clube local Sportivo Belgrano. O time chegou a subir em 2013 à segunda divisão argentina, mas na época de Vidal ainda era restrito às competições municipais de San Francisco, sendo um dos fundadores da liga local,SEARA, Facundo Santiago & SEARA, Fernando Leonardo (2014). Club Sportivo Belgrano. Clubes de Córdoba. Córdoba: F y F Ediciones, p. 310 assim como o mais antigo clube da cidade;SEARA, Facundo Santiago & SEARA, Fernando Leonardo (2014). San Fracisco. Clubes de Córdoba. Córdoba: F y F Ediciones, pp. 309-316 somente em 1940 a equipe veio a estrear na própria liga cordobesa.
Güido Vidal, irmão mais velho de Ernesto, foi o primeiro a se incorporar ao Sportivo Belgrano. Ernesto seguiu seus passos, inicialmente para a equipe sub-16 do clube; ainda com 16 anos, já conseguiu estrear na equipe adulta.DE BENEDICTIS (2018). Italiano, croata y uruguayo, pero bien cordobés. Héroes mundialistas del interior profundo (1930-1986). Buenos Aires: Alarco Ediciones, pp. 35-40 Participando da temporada de estreia dela na liga cordobesa, em 1940, Vidal inclusive fez um dos gols da primeira vitória que o clube teve nela, o 3-2 sobre o Palermo. Ainda em Los Verdes, despertou interesse do River Plate e do Rosario Central, onde Güido já jogava àquela altura.
Ainda menor de idade, Ernesto precisava da aprovação formal dos pais para transferir-se; concluindo que Rosario era uma cidade mais tranquila do que Buenos Aires e diante da comodidade do adolescente juntar-se ao irmão mais velho, os pais negaram o interesse do River, mas concordaram com a oferta do Central. Em outra versão, Vidal teria sido formalmente incorporado pelo River, que por sua vez o cedeu ao Central. Estreou no novo clube em 1941, na 6ª rodada do campeonato argentino daquele ano. Foi usado em nove partidas naquele ano, marcando um gol, já na 26ª rodada, em derrota de 5-2 para o Estudiantes de La Plata.
Antes similarmente também restrita ao campeonato rosarino, apenas em 1939 a equipe auriazul havia começado a participar do Campeonato Argentino de Futebol, e justamente em 1941 sofreu seu primeiro rebaixamento. Os canallas logo voltaram à elite como campeões da segunda divisão de 1942, com oito pontos de diferença para o vice. Nessa campanha, Vidal fez um dos gols de uma goleada por 6-1 sobre o Argentinos Juniors no primeiro confronto da história entre as duas equipes em Rosario.
De volta à primeira divisão, o Central terminou o campeonato de 1943 em nono lugar, mas a apenas dois pontos do quarto e a cinco do terceiro. Vidal, porém, não chegou a ser titular, limitado a dez jogos, com dois gols e três assistências; A falta de espaço repetiu-se no torneio de 1944, onde foi usado somente na 4ª e na 18ª rodadas. uma lesão havia lhe tirado continuidade e, uma vez recuperado, Vidal não conseguia retomar de Rubén Marracino a titularidade na ponta-esquerda.
Procurando mais tempo em campo, ele se dispôs a rumar ao Peñarol, que vivia uma fase de baixa no próprio campeonato uruguaio, que não conseguiam vencer desde 1938. Os dois clubes tinham excelente relação e a negociação pôde ser intermediada por Agustín Rodríguez Araya, ex-presidente do Rosario Central e naquele momento autoexilado no Uruguai por diferenças com o peronismo. O Peñarol, inclusive, já vinha investindo em jogadores provenientes do país vizinho, com o elenco de 1944 apresentando também Guido Baztarrica e Elmo Bovio,ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1944. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 83 que depois viriam a jogar no Brasil por Fluminense e Atlético Mineiro (Baztarrica, primeiro argentino da equipe alvinegra) e Palmeiras, Santos e São Paulo (Bovio, estrangeiro com melhor média de gols nos tricolores).
Peñarol
Vidal estreou pelo Peñarol, curiosamente, precisando vendar o nariz, contra o Liverpool uruguaio. Ganhou a oportunidade em função da ausência médica de Adelaido Camaití, que havia sofrido um acidente motociclístico. O Diario de Montevideo, no dia seguinte, reportou que "quanto a Vidal, que estreou ontem em filas decanas, jogou com acerto, dando a impressão de que pode ser muito útil para seu novo team. É rápido, se desloca com acerto, cruza com habilidade e dá a impressão de ser efetivo". Na semana seguinte, Vidal já disputava seu primeiro Nacional vs. Peñarol.
Esses jogos foram no mês de junho, válidos pelo Campeonato Competência, terminando respectivamente em vitória e derrota pelo mesmo placar de 2-1. Já o campeonato uruguaio começaria somente em outubro, tendo turno único. Antes, em setembro, Vidal foi titular em vitória por 2-0 no dérbi com o Nacional, no chamado Clásico de la Sentada, em que o camisa 10 aurinegro José Vázquez teria cruzado metade do campo e então sentado na bola em gracejo contra os marcadores. Já no campeonato uruguaio os aurinegros sofriam contra os rivais: os tricolores, no chamado Quinquenio de Oro, haviam obtido, entre 1939 e 1943, cinco títulos seguidos, algo então inédito na competição.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1939-1943. El Nacional de Atilio y El Quinquenio de Oro. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 82-83 A série acabaria exatamente em 1944, e Vidal, com sucesso instantâneo, contribuiu de modo essencial; sua principal virtude era a velocidade, explorada pelos colegas a partir de passes de 20 ou 30 metros endereçados a ele nas costas dos marcadores. Vidal então arrancava e quando o adversário girava para persegui-lo, muitas vezes já não conseguia alcança-lo e Vidal conseguia chegar livre e rapidamente à zona de definição. Essa característica lhe renderia o apelido de El Patrullero, alusiva a viaturas policiais.
Na liga de 1944, os dois principais clubes do país terminaram empatados, forçando uma final que por sua vez forçou uma segunda final, pois terminou em 0-0. Na segunda final, o argentino Atilio García fez dois gols antes dos primeiros 30 minutos para pôr o placar em 2-0 em favor do Nacional. Mas o Peñarol conseguiu virar o jogo e Vidal terminou como herói, ao marcar o gol da vitória por 3-2, aos 23 minutos do segundo tempo. Após ainda alternar-se com Camaití na ponta-esquerda em 1944, Vidal tornou-se titular absoluto em 1945, ano em que o Peñarol foi bicampeão no embalo dos gols de Raúl Schiaffino.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1945. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 84-85
Em 1946, o título voltou ao Nacional, a despeito de uma derrota escandalosa para Peñarol. Nela, foi de Vidal o primeiro gol aurinegro em uma partida em que seu clube vencia por 4-1, momento em que o autor do quarto gol, Oscar Chirimini, foi agredido por Eusebio Tejera e revidou. Obdulio Varela envolveu-se na discussão, que se generalizou. Quando os ânimos se acalmaram, o árbitro expulsou Chirimini e Tejera, mas Varela, embora não fosse expulso, também precisou deixar o campo, por ordem policial. Com nove jogadores, o Peñarol conseguiu segurar a vitória, que ficou em 4-3.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1946. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 86 Ficou conhecido como El Clásico del Comisario, em alusão ao comissário que retirou Varela - segundo algumas versões, por ordem do chefe de polícia, que torcia pelo rival.
Em 1947 e em 1948, o Nacional manteve-se campeão. O título de 1948 foi concedido na realidade a quem era líder quando o torneio foi paralisado,MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1948. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 102-103 após a primeira rodada do segundo turno. Vidal teve tempo para brilhar com três gols em um 6-1 no Cerro em um ano destacado pela chegada de três reforços ao ataque: Alcides Ghiggia, Óscar Míguez e, curiosamente, mais um proveniente do Rosario Central: o argentino Juan Hohberg. Mas sobreveio uma greve,ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1948. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 88-89 que só acabaria em abril de 1949, ano em que o único reforço relevante do Peñarol foi um novo treinador, o húngaro Emérico Hirschl. Sob ele, o clube arrasaria os concorrentes.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1949. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 90-91
Em maio, escalou-se pela primeira vez o quinteto ofensivo formado por Ghiggia na ponta-direita, Hohberg na meia-direita, Míguez de centroavante, Juan Alberto Schiaffino na meia-esquerda e Vidal na ponta-esquerda. Deles, somente Hohberg não pôde ir à Copa do Mundo FIFA de 1950, com sua naturalização sendo concedida apenas posteriormente, ao contrário da de Vidal. Nesse ataque, Vidal era um ponta astuto e goleador, mas que também se sacrificava, insistindo até o fim quando notava oportunidades.