Banguê é um romance brasileiro de José Lins do Rego, publicado em 1934. A obra é a continuação de Doidinho e integra o chamado Ciclo da Cana-de-Açúcar, série de romances em que o autor retrata a sociedade rural nordestina e as transformações econômicas associadas à decadência dos engenhos de açúcar.
O romance acompanha o retorno de Carlos de Melo ao engenho Santa Rosa após sua formação em Direito. Ao regressar ao ambiente em que foi criado, o personagem enfrenta dificuldades para adaptar-se à vida rural e ao processo de decadência econômica dos engenhos tradicionais.
Enredo Já adulto e bacharel em Direito, Carlos de Melo retorna ao engenho Santa Rosa, propriedade de seu avô. Ao reassumir contato com o universo rural nordestino, passa a enfrentar dificuldades para administrar a propriedade e para adaptar-se a uma realidade marcada pela crise do sistema tradicional dos engenhos.
Ao longo da narrativa, o protagonista lida com a fragilidade física do avô, os conflitos ligados à administração da propriedade e as mudanças econômicas e sociais que afetam a região açucareira do Nordeste brasileiro.
Banguê se diferencia dos romances anteriores da trajetória de Carlos de Melo pela predominância de um tom introspectivo. Em vez de concentrar-se nos acontecimentos externos, a narrativa enfatiza os dilemas psicológicos do protagonista, seus sentimentos de fracasso, deslocamento e incapacidade de adaptação. Essa característica aproxima a obra de tendências do romance moderno brasileiro, em que os conflitos interiores assumem papel central na construção narrativa.
Análise crítica A crítica literária considera Banguê uma das obras centrais do Ciclo da Cana-de-Açúcar por representar simultaneamente a crise do protagonista Carlos de Melo e a decadência do sistema tradicional dos engenhos nordestinos. A narrativa é frequentemente interpretada como um romance de transição, no qual os conflitos individuais do personagem se articulam às transformações econômicas e sociais que atingem o mundo rural brasileiro nas primeiras décadas do século XX.
Segundo Ivone Soares de Andrade, Carlos de Melo pode ser compreendido como uma manifestação do herói moderno. Diferentemente do herói tradicional, definido por ações exemplares e pela integração ao seu meio social, o protagonista de Banguê caracteriza-se pela inadequação ao ambiente em que vive. Sua formação intelectual e sua experiência urbana o afastam dos valores que sustentavam a ordem patriarcal dos engenhos, colocando-o em uma posição de permanente conflito entre tradição e modernização. A trajetória do personagem expressa, assim, as dificuldades enfrentadas por indivíduos ligados ao universo rural diante das mudanças sociais e econômicas do século XX.
A obra também tem sido analisada como uma narrativa da memória. Maria Aparecida de Almeida Rego e Derivaldo dos Santos observam que a história é construída por meio das recordações de Carlos de Melo, que revisita continuamente seu passado para compreender a própria condição presente. Nesse processo, as lembranças funcionam como rastros capazes de reconstruir experiências individuais e coletivas, permitindo ao narrador recuperar fragmentos de uma realidade em desaparecimento.
Referências
Categoria:Livros de 1934 Categoria:Livros de José Lins do Rego Categoria:Romances do Brasil