Raimundos é uma banda brasileira de punk rock formada em Brasília em 1987. É composta atualmente por Digão (vocal, guitarra), Marquim (guitarra e vocal de apoio), Caio Cunha (bateria e vocal de apoio) e Jean Moura (baixo e vocal de apoio). O nome é derivado de uma de suas maiores influências, a banda Ramones. Com nove discos autorais, trinta anos de existência e mais de cinco milhões de cópias vendidas, é uma das principais bandas dos anos 90 do rock brasileiro.
História
1987–1990: Primeira fase O grupo foi constituído em Brasília no ano de 1987. Era formado pelos vizinhos Digão, na bateria, e Rodolfo Abrantes, na guitarra. Toda semana a banda de Digão, Filhos de Mengele, ensaiava em sua casa e deixava os equipamentos para trás. Ele e Rodolfo aproveitavam para tocar juntos, trazendo também o amigo Canisso, que assumiu o baixo. Eram influenciados pelas bandas Dead Kennedys, Suicidal Tendencies e Ramones, e também o compositor de forró Zenilton,ANSELMO SOBRINHO, Jorge Alexandre Fernandes. Entre a sanfona e a guitarra: hibridismos e identidades no rock'n'roll e heavy metal nacionais dos anos 90. 2013. 127 f., il. Dissertação (Mestrado em História)—Universidade de Brasília, Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/13459. que fez o grupo incorporar elementos de música e cultura nordestina, bem como letras cheias de duplo sentido. Rodolfo em certo ponto conseguiu tocar na guitarra "Rio das Pedras", de Zenilton, e eles perceberam que as músicas tinham a mesma simplicidade musical do punk rock que os unia. Logo passariam a fazer versões punk de Zenilton que eles definiriam como "forró tocado pelos Ramones", inspirando o nome Raimundos. Eventualmente o grupo acabaria herdando do vocalista do Filhos de Mengele, Martin "Telo" Luthero, canções com inspiração nordestina como "Palhas do Coqueiro", "Marujo" e "Cajueiro", que o resto do Filhos de Mengele não aprovou mas agradavam a Rodolfo e Digão, que retrabalharam essas músicas e também começaram a compor no mesmo estilo.
A primeira apresentação da banda foi realizada na casa de Gabriel Thomaz durante a virada de ano de 1988, com covers de Ramones e Zenilton junto de algumas originais. Além dos Raimundos tocaram a banda de Thomaz, Little Quail and The Mad Birds, e o grupo Cabelo Duro. Fred, que estava presente naquela apresentação, eventualmente se tornou baterista da banda. O ritmo da banda se manteve constante até uma mudança: com o surto de bandas de heavy metal que tomou conta de Brasília, os Raimundos passaram a acreditar que deveria seguir o mesmo caminho para atingir o sucesso, chegando a trazer um segundo guitarrista, Reinaldinho. O grupo considerou que essa fase desvirtuou a música, "passamos de Suicidal para Guns N' Roses", e eventualmente decidiram se separar em 1990. Canisso começou a estudar Direito na Universidade de Brasília e teve filhos; Digão deixou de tocar bateria por problemas auditivos, passou um ano trabalhando com os irmãos e começou a tocar guitarra; Rodolfo por sua vez passou a cantar na banda Royal Street Flesh, casou-se e mudou-se para o Rio de Janeiro.
1992–2000: O retorno e o sucesso comercial O retorno se deu em 1992 com uma oportunidade em tocar em um bar de Goiânia. Como Digão havia passado para a guitarra, a banda começou a procura por um baterista, chegando até a utilizar uma bateria eletrônica. Não obtendo bons resultados, recrutam Fred, que na época já era fã do grupo.
No ano seguinte a banda gravou uma fita demonstrativa contendo "Nega Jurema", "Marujo", "Palhas do Coqueiro" e "Sanidade", iniciando então divulgação pelo país. A banda passou a ser reconhecida pela mídia e por outras bandas, e foi convidada a tocar no Rio de Janeiro. Nesta época, abriram apresentações de Camisa de Vênus e Ratos de Porão no Circo Voador, além de uma temporada para o Titãs. O jornalista brasiliense Carlos Marcelo passou a fita demo para seu amigo jornalista da revista musical Bizz, Carlos Eduardo Miranda, e este se interessou em produzir um álbum da banda, que assinou com seu selo Banguela Records e se mudou para São Paulo. Em 1994, lançam seu primeiro disco, intitulado apenas como Raimundos, pelo selo Banguela dos Titãs. O disco teve boa aceitação, vendendo mais de 150 mil cópias. O som pesado, com letras cheias de palavrões e com fortes influências nordestinas, chamou a atenção da mídia e do público, com canções como "Puteiro em João Pessoa". O grande sucesso do álbum foi a balada pornô-erótica "Selim", que impulsionou as vendas do disco e tornou a banda conhecida no país inteiro. O álbum foi de extrema importância para o cenário musical brasileiro, devido ao som inovador (intitulado "forró-core") e ao fato de ter sido um dos responsáveis pela "abertura de portas" para o rock dos anos 90, influenciando praticamente todas as bandas que se formariam depois. Contornando os recursos limitados da gravadora, pegaram uma caminhonete e cinco amigos como equipe técnica e saíram fazendo shows pelo Brasil, com oitenta apresentações em nove meses.
Em 1995, voltam ao estúdio para gravar Lavô Tá Novo pela gravadora Warner, sob o produtor inglês Mark Dearnley. Com mais ênfase no hardcore em detrimento ao forró, gerou sucessos como "Esporrei Na Manivela", "Eu Quero Ver o Oco", "O Pão da Minha Prima" e "I Saw You Saying (That You Say That You Saw)" e superou as vendas do original. Mais de 250.000 cópias foram comercializadas, fazendo com que a banda ganhasse o primeiro disco de platina da carreira. Os Raimundos se consolidaram com participações nos festivais Monsters of Rock e Hollywood Rock, onde tocaram ao lado de grupos clássicos como Motorhead e Iron Maiden. Em 1996 a banda lança uma caixa com CD, história em quadrinhos e fita VHS chamada Cesta Básica, que se esgotou em poucos meses.
Em 1997, a banda foi para os Estados Unidos gravar o terceiro álbum de estúdio, Lapadas do Povo, novamente com Mark Dearnley. Com poucas músicas compostas e quase nenhuma letra escrita, a banda teve que passar uma temporada em Los Angeles. A distância da família e dos amigos, o estigma de banda incapaz de escrever letras sérias, uma febre de bandas nacionais tentando copiar o estilo da banda, além dos problemas com o público mais pesado e o incentivo do empresário para que a banda se tornasse a mais pesada do país, somados à pressão da gravadora e a influência da cena hardcore de Los Angeles, assistindo a bandas como Suicidal Tendencies, influenciaram na criação do mais pesado de seus álbuns, com letras mais sérias. A banda iniciou a turnê do álbum em um clima excelente, pois estavam com um disco que consideravam um presente para os fãs, além de estarem mais unidos do que nunca depois de se recuperarem dos problemas pessoais já citados. Entre as canções destacam-se "Andar na Pedra" com um clipe estrelado pelo ator Matheus Nachtergaele, uma regravação de "Oliver's Army" de Elvis Costello, e uma versão de uma canção dos Ramones, "Pequena Raimunda (Ramona)". Apesar das boas críticas, o disco acaba vendendo menos que o esperado. Para piorar, em um show na cidade de Santos, litoral de São Paulo, um dos alambrados onde o público saía caiu, provocando a morte de oito pessoas e 67 feridos. Posteriormente classificado como "eterna ferida", a banda se abalou com o ocorrido e cancelou diversas apresentações.
Finalizada a turnê do Lapadas do Povo, a banda começa a planejar e a traçar os preparativos para o novo álbum. Em mente, tinham apenas a certeza que o melhor seria que o álbum fosse todo gravado no Brasil, com a participação ou presença de vários amigos, pois só assim conseguiriam retornar ao verdadeiro estilo da banda. Em maio de 1999, é lançado Só no Forevis, o álbum mais vendido da banda. Um fato curioso foi que a primeira tiragem do CD foi roubada, o que levou os Raimundos a saírem tanto nas páginas policiais quanto nas páginas de cultura dos jornais. Fora esse pequeno incidente, tudo tinha voltado como antes, com letras mais debochadas e bem humoradas, assim como nos primórdios da banda. O disco emplacou vários hits nas rádios e na MTV Brasil, como "A mais Pedida", "Me Lambe", e "Mulher de Fases", considerada a canção de assinatura da banda. Ao todo, o disco vendeu cerca de dois milhões de unidades e tornou-se um dos mais comprados de todos os tempos no território. Para coroar a ótima fase, em 27 de outubro de 2000, a banda lança MTV ao Vivo: Raimundos; um álbum duplo gravado ao vivo, durante um concerto em maio, em Curitiba e São Paulo, sob a produção da MTV Brasil. O disco vendeu mais de 400 mil cópias apenas em seu primeiro mês de disponibilidade, chegando a passar um milhão de unidades vendidas. Os shows incluíram "Reggae do Manêro", uma canção debochada escrita à época de Lapadas do Povo mas que Rodolfo deixou de fora do disco "de tão avacalhada que a música era", e que apesar de ser tocada sem pretensões a gravadora resolveu tornar a música de trabalho de MTV ao Vivo, com tremendo sucesso. Em outubro, os Raimundos foram uma de seis bandas brasileiras que se retiraram do Rock in Rio após a exclusão d'O Rappa. Anos depois Fred acrescentaria que eles estavam desconfortáveis com o fato de que, ao contrário da turnê onde usavam o próprio cenário e equipamento, o contrato previa usar o que era providenciado pelo festival sem nem a possibilidade de uma passagem de som para garantir a qualidade do concerto.
2001–06: A saída de Rodolfo e declínio Em janeiro de 2001, em meio aos trabalhos de divulgação do MTV ao Vivo, Rodolfo se converteu ao protestantismo neopentecostal. Em 13 de junho, mesmo dia em que a versão em DVD do álbum chegava às lojas, ele anuncia o seu desligamento da banda. Na época, ele justificou sua partida, declarando que as letras das canções haviam tornando-se incompatíveis com seu novo momento de vida e que não se sentia mais a vontade interpretando-as: "Eu vejo que a gente tinha muito espaço [na mídia] e eu não estava dizendo nada para as pessoas. Sabe, eu tenho necessidade de fazer hardcore mesmo. É o ritmo de que eu gosto, mas eu quero dizer alguma coisa legal. A gente tinha um espaço tão grande e a gente não usava ele pra nada. Falava de "papel pra cagar". A música tocando mil vezes na rádio falando a maior besteira do mundo". O cantor ainda creditou a música "20 e Poucos Anos", de Fábio Jr.; regravada recentemente pelo Raimundos, como uma fonte de inspiração para ajudá-lo a refletir sobre a decisão. A saída de Rodolfo chocou os fãs e os demais membros, que chegaram a declarar o término do grupo, justificando que "não faz[ia] sentido continuar, o Raimundos eram quatro amigos". Mas nos bastidores o grupo pensava se buscava outro cantor, inclusive chegando a convidar Telo, que recusou não se achando à altura de Rodolfo. Entretanto, a banda ainda tinha um contrato vigente com a Warner, o qual previa o lançamento de mais um disco. Com isso, optaram por não gravar material inédito, e sim utilizar o já existente em seu acervo para cumprir o contrato.
Para esse novo disco, que foi lançado com o título de Éramos 4, o Raimundos entrou em estúdio no formato power trio, com Digão nos vocais, para regravar "Sanidade", música que já havia sido registrada na fita demo o grupo em meados de 1992, e que originalmente já era cantada por ele. Para completar o disco foram resgatadas duas faixas de estúdio, sendo elas um cover de "Desculpe, Mas Eu Vou Chorar", da dupla Leandro e Leonardo, e uma versão da canção infantil "Nana Neném", que foi gravada para uma campanha publicitária das sandálias Rider, em 1998. Também foi adicionado ao disco o setlist de um show tributo a Ramones que a banda fez no aniversário da rádio 89 FM, em 2000, tendo a participação de Marky Ramone nestas. Com exceção de "Sanidade", todas as músicas ainda traziam a voz do antigo vocalista.