miniaturadaimagem|Símbolo do movimento Antipsiquiatria é um termo que se refere a uma coleção de movimentos que visam criticar as teorias e práticas fundamentais da psiquiatria tradicional. Críticas comuns são: que a psiquiatria aplica conceitos e instrumentos médicos de modo inapropriado à mente e à sociedade; que ela frequentemente trata pacientes contra a vontade; que ela inapropriadamente exclui outras abordagens à doença e ao sofrimento mental; que sua integridade médica e ética é comprometida por ligações com a indústria farmacêutica e com companhias de seguro; que ela usa um sistema de diagnóstico categorial (por exemplo, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais — DSM) que se acusa de estigmatizar pacientes e de ser mal-fundamentado científica e clinicamente; e que o sistema psiquiátrico é vivido por muitos de seus pacientes como humilhante e controlador.
Alguns profissionais de saúde mental e acadêmicos professam visões antipsiquiátricas. Certa proporção de usuários e ex-usuários de serviços psiquiátricos também o fazem. Algumas críticas atuais focam a psiquiatria biológica predominante. Apesar do nome, algumas partes do movimento promovem uma forma de psiquiatria que é apenas contrária às teorias e métodos da corrente principal. Alguns assim chamados "antipsiquiatras" estão ansiosos para se dissociarem do termo e das associações pejorativas que ele tem atraído.
A antipsiquiatria inspirou mudanças significativas na psiquiatria e na origem de outros movimentos, como o orgulho autista. No Brasil, ela está na raiz da reforma psiquiátrica.
Fundamentos A antipsiquiatria é um movimento baseado na visão de que o tratamento psiquiátrico costuma ser mais prejudicial, do que útil para os pacientes, destacando as controvérsias sobre a psiquiatria. As objeções incluem a confiabilidade do diagnóstico psiquiátrico; a eficácia questionável e os danos associados aos medicamentos psiquiátricos; a falha da psiquiatria em demonstrar qualquer mecanismo de tratamento de doenças para efeitos de medicamentos psiquiátricos; e preocupações legais sobre a igualdade de direitos humanos e liberdade civil sendo anuladas pela presença do diagnóstico. "The antipsychiatry movement: Who and why". MDedge Psychiatry. 2011-12-01. Retrieved 2021-02-19.
Historicamente, as críticas à psiquiatria vieram à tona após o foco nos danos extremos associados ao tratamento eletroconvulsivo ou ainda à terapia de choque insulínico. O termo "antipsiquiatria" está em disputa e é frequentemente usado para descartar todos os críticos da psiquiatria, muitos dos quais concordam que um papel especializado de ajudante para pessoas em sofrimento emocional pode, às vezes, ser apropriado, permitir a autonomia e escolha individual em relação às decisões do seu tratamento.
Além das preocupações com a eficácia, a antipsiquiatria pode questionar os fundamentos filosóficos e éticos da psicoterapia e da medicação psicoativa, vendo-os como moldados por preocupações sociais e políticas, e não pela autonomia e integridade da mente individual. Eles podem acreditar que "julgamentos sobre questões de sanidade devem ser prerrogativas da mente filosófica", e que a mente não deve ser uma preocupação médica. Alguns ativistas rejeitam a noção psiquiátrica de doença mental. A antipsiquiatria considera a psiquiatria um instrumento coercitivo de opressão a partir de uma relação de poder desigual entre médico e paciente, e um processo diagnóstico altamente subjetivo. A internação compulsória/involuntária injusta é uma questão importante no movimento.Mervat Nasser (1995). "The rise and fall of anti-psychiatry" (PDF). Psychiatric Bulletin. 19 (12): 743–746. doi:10.1192/pb.19.12.743. Archived (PDF) from the original on 2022-10-09.
O movimento descentralizado tem estado ativo em várias formas por dois séculos. Na década de 1960, havia muitos desafios à psicanálise e à psiquiatria convencional, onde a própria base da prática psiquiátrica era caracterizada como repressiva e controladora.Tom Burns (2006). Psychiatry: A very short introduction. Oxford University Press. pp. 93–99. ISBN 978-0-19-280727-4.
"The antipsychiatry movement: Who and why". MDedge Psychiatry. 2011-12-01. Retrieved 2021-02-19.
"The Anti-Psychiatry Movement".Mervat Nasser (1995). "The rise and fall of anti-psychiatry" (PDF). Psychiatric Bulletin. 19 (12): 743–746. doi:10.1192/pb.19.12.743. Archived (PDF) from the original on 2022-10-09.
Fadul, Jose (21 June 2014). Encyclopedia of Theory & Practice of Psychotherapy & Counseling. Lulu.com. ISBN 9781312078369. Retrieved 26 February 2022.
Os psiquiatras identificados com o movimento incluíam Thomas Szasz, Timothy Leary, Giorgio Antonucci, R.D. Laing, Franco Basaglia, Theodore Lidz, Silvano Arieti e David Cooper. Outros envolvidos foram Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Erving Goffman. Cooper usou o termo "anti-psiquiatria" em 1967 e escreveu o livro em 1971. A palavra já era usada na Alemanha, em 1904. Thomas Szasz introduziu a definição de "doença mental" como um mito no livro O mito da doença mental (1961). Giorgio Antonucci introduziu a definição de psiquiatria como preconceito no livro .
O movimento continua a influenciar o pensamento sobre psiquiatria e psicologia, dentro e fora desses campos, principalmente no que diz respeito à relação entre aqueles que fornecem e aqueles que o recebem. Questões contemporâneas incluem liberdade versus coerção, natureza versus criação e o direito de ser diferente.
Os críticos da antipsiquiatria dentro da própria psiquiatria refutam ao princípio implícito de que a psiquiatria é, por definição, prejudicial. A maioria dos psiquiatras aceita que existem questões que precisam ser abordadas, mas que a abolição da psiquiatria é prejudicial. Os profissionais médicos muitas vezes consideram que os movimentos antipsiquiatria estão promovendo a negação do transtorno mental e foram comparados com teorias da conspiração negacionistas, anticiência e sem base em fatos.Desai, Nimesh G. (2005). "Antipsychiatry: Meeting the challenge". Indian Journal of Psychiatry. 47 (4): 185–187. doi:10.4103/0019-5545.43048. ISSN 0019-5545. PMC 2921130. PMID 20711302.
Fountoulakis, Konstantinos N. (2021-06-01). "Should denialism of mental illness and its treatment be included among conspiracy theories?". European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience. 271 (4): 591–593. doi:10.1007/s00406-021-01272-w. ISSN 1433-8491. PMC 8091984. PMID 33942147
Origens da antipsiquiatria Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe, revelou, no século XVIII, que maridos costumavam encarcerar suas desobedientes (mas sãs) esposas. Como a psiquiatria se estabeleceu mais profissionalmente durante o século XIX e se desenvolveram tratamentos mais invasivos, a oposição a isso aumentou. No século XVIII, caracterizou-se a drapetomania como uma doença psiquiátrica, um princípio pseudocientífico pelo qual escravos fugiam do controle de seus donos. Nos anos 1920, a oposição surrealista à psiquiatria foi expressa em certo número de publicações do movimento (ver, por exemplo, Antonin Artaud). Na década de 1930, várias práticas médicas controversas foram introduzidas, incluindo indução a convulsões (por eletrochoque, insulina ou outras drogas) ou cortar partes do cérebro (leucotomia ou lobotomia). Ambas entraram em uso difundido pela psiquiatria, mas houve sérias preocupações e muita oposição por razões de moralidade, efeitos nocivos ou utilização indevida.
Na década de 1950, novos psicofármacos, nomeadamente os antipsicóticos clorpromazina e haloperidol, foram concebidos em laboratórios e lentamente passaram a ser preferidos pelos médicos. Embora geralmente aceitos como um avanço em alguns aspectos, houve alguma oposição, em parte devido a efeitos adversos graves, como a discinesia tardia. Os pacientes frequentemente se opõem à psiquiatria e se recusam a tomar ou param de tomar os medicamentos quando não estejam sujeitos a controle psiquiátrico. Houve também crescente oposição à utilização em larga escala dos hospitais psiquiátricos e instituições, e tentativas foram feitas à base de serviços na comunidade.
Chegando ao auge na década de 1960, a "antipsiquiatria" (um termo usado primeiramente por David Cooper, em 1967) definiu um movimento que desafiou as práticas fundamentais da psiquiatria tradicional. Os psiquiatras Ronald Laing, Theodore Lidz, Silvano Arieti e outros argumentaram que a esquizofrenia poderia ser entendida como um autoprejuízo interior infligido por pais psicologicamente invasivos, ou "esquizofrenogênicos", ou como uma saudável tentativa de lidar com uma sociedade doente (ambiente patogênico ou hostil).
O psiquiatra Thomas Szasz argumenta que "doença mental" é uma intrinsecamente incoerente combinação de um conceito médico e um conceito psicológico, mas é popular porque legitima o uso da força psiquiátrica para controlar e limitar desvios de normas sociais. Adeptos desse ponto de vista se referem ao Mito da Doença Mental, controverso livro de Szasz do mesmo nome. (Embora o movimento originalmente descrito como antipsiquiatria tenha se associado com o grande movimento de contracultura dos anos 1960, Szasz, Lidz e Arieti nunca se envolveram neste movimento.) Paralelamente à produção teórica dos autores mencionados, o médico italiano Giorgio Antonucci questionou os próprios fundamentos da psiquiatria através do desmantelamento dos hospitais psiquiátricos Osservanza e Luigi Lolli e a libertação e restituição à vida das pessoas ali mantidas.
Michel Foucault, Erving Goffman, Gilles Deleuze, Félix Guattari e outros criticaram o poder e o papel da psiquiatria na sociedade, incluindo a utilização de "instituições totais", rótulos e estigmas. Foucault argumentou que os conceitos de sanidade e loucura são construções sociais que não refletem padrões quantificáveis de comportamento humano e que antes são apenas indicativos do poder dos "saudáveis" sobre o "demente".
Documentadores do holocausto argumentam que a medicalização de problemas sociais e a eutanásia sistemática de pessoas nas instituições mentais da Alemanha dos anos 1930 forneceram as origens institucionais, procedimentais e doutrinárias do assassinato em massa dos anos 1940. O julgamento de Nuremberg condenou certo número de psiquiatras que ocupavam posições-chave no regime nazista.
Esquizofrenia progressiva era um diagnóstico comum na extinta União Soviética. A observação dos abusos da psiquiatria na União Soviética, no chamados hospitais Psikhushka, também levaram a questionar a validade da prática da psiquiatria no Ocidente. Em especial, o diagnóstico de muitos dissidentes políticos com esquizofrenia levou alguns à questão geral do diagnóstico e ao uso punitivo do rótulo de esquizofrenia. Isso levantou questões sobre se o rótulo de esquizofrenia e o tratamento psiquiátrico involuntário resultante não poderiam ter sido igualmente utilizados no Ocidente para submeter jovens rebeldes durante conflitos familiares.
A antipsiquiatria contestou cada vez mais o alegado pessimismo psiquiátrico e a alienação institucionalizada em relação àqueles classificados como doentes mentais. O emergente movimento de consumidores/sobreviventes frequentemente alega uma recuperação total, empoderamento, autogestão e até mesmo plena libertação. Foram desenvolvidas formas de desafiar o estigma e a discriminação, muitas vezes baseados em um modelo social de deficiência, para ajudar ou encorajar as pessoas com problemas de saúde mental a envolver-se mais plenamente no trabalho e na sociedade (por exemplo, através de empresas sociais), e a envolver os usuários na prestação e na avaliação dos serviços de serviço saúde mental. No entanto, aqueles que ativa e abertamente desafiaram a ética fundamental e a eficácia da prática psiquiátrica tradicional permaneceram marginalizados dentro da psiquiatria e, em menor escala, da mais ampla comunidade de saúde mental.
Julgamentos de normalidade e doença