Volubilis ( ou ) foi uma cidade romana, cujas ruínas constituem atualmente um sítio arqueológico parcialmente escavado situado no norte de Marrocos, nos arredores da cidade santa de Mulei Idris, a norte de Mequinez. As ruínas estão inscritas na lista do Património Mundial da UNESCO desde 1997.

A antiga cidade situa-se numa fértil planície agrícola e desenvolveu-se a partir do como um assentamento fenício-cartaginês, tendo crescido rapidamente sob o domínio romano a partir do até ocupar uma área de aproximadamente 40 hectares, rodeada por muralhas com de perímetro. No a cidade foi dotada de uma série de edifícios públicos, nomeadamente uma basílica, um templo e um arco do triunfo. A sua prosperidade, que advinha principalmente das culturas da oliveira, cereais e do fornecimento de animais selvagens para os espetáculos de gladiadores, propiciou a construção de muitas casas urbanas ricas, com grandes mosaicos de chão.

Volubilis foi tomada por tribos locais e nunca foi reconquistada por Roma devido à sua localização remota e de difícil defesa, na fronteira sudoeste do Império Romano. Continuou a ser habitada durante pelo menos mais 700 anos, primeiro como uma comunidade latinizada cristã, e depois como uma localidade islâmica. No final do tornou-se a capital de Idris ibne Abedalá, o fundador da dinastia idríssida, o primeiro estado muçulmano de Marrocos. No , Volubilis tinha sido abandonada e a capital idríssida tinha sido transferida para Fez. A maior parte da sua população mudou-se para a nova cidade de Mulei Idris, situada num monte a sudeste de Volubilis.

As ruínas mantiveram-se praticamente intactas até terem sido arrasadas pelo terramoto de 1755, o mesmo que destruiu Lisboa. Pouco depois serviram de pedreira para a construção de Mequinez. Só no final do é que o local foi definitivamente identificado como sendo a antiga cidade de Volubilis. Durante e depois da vigência do Protetorado Francês de Marrocos, cerca de metade do sítio foi escavado, tendo sido descobertos muitos mosaicos, e alguns dos edifícios públicos e casas mais importantes foram restaurados ou reconstruídos. A classificação como Património Mundial deve-se ao facto de «ser um exemplo excecionalmente bem preservado de uma grande cidade colonial romana nos limites do império».

Geografia, geologia e toponímia O sítio arqueológico situa-se na região administrativa marroquina de Fez-Mequinez, cinco quilómetros a noroeste da cidade santa de Mulei Idris e cerca de 30 km a norte de Mequinez (distâncias por estrada), à beira do uádi Koumane, junto ao maciço rochoso de Zerune. Este ergue-se a 500 a 800 metros de altitude e o seu arenito e calcário foram usados nas construções da cidade. O terreno é também rico em margas usadas para olaria e tijolo. As encostas do Zerune são ainda hoje usados para pastagem de gado e para o cultivo de cereais, vinha e olivais.

A cidade foi construída numa crista sobre o uádi Khoumane, num planalto ligeiramente inclinado a cerca de 390 metros de altitude, que domina o planalto de El Gaada, situado 60 metros mais abaixo, e a extensa planície fértil que se estende a norte de Mequinez.

O clima da região é do tipo mediterrânico e beneficia de chuvas abundantes que abastecem nascentes que asseguram a disponibilidade de água suficiente para abastecer uma comunidade urbana de vários milhares de habitantes.

A origem do nome da cidade é um tema «muito controverso». Segundo o filólogo Félix Gaffiot , que usa o nome Völubïle, volubilis, significa "que tem um movimento giratório" em latim. O nome é Walili, Oualili, Oualilt ou Walila, que designa as plantas campainha (convolvuláceas) ou aloendro ou as suas flores, particularmente abundantes nas margens do uádi. Volubilis pode ter resultado da latinização dessa palavra berbere. A cidade é relativamente pouco mencionada nas fontes antigas e medievais.

História Antecedentes e fundação O sítio tem «todas as caraterísticas de refúgio natural, do tipo "esporão fechado"». A área foi habitada pelo menos desde o Neolítico Atlântico Tardio, Em escavações no local foi descoberta cerâmica neolítica com desenhos comparáveis aos de peças encontradas na Península Ibérica. Os vestígios mais antigos, compostos principalmente por machados de pedra polida, mós e , são raros e foram encontrados fora de contexto. O povoado só se tornou uma verdadeira entidade urbana durante o Reino da Mauritânia, no ou , e desenvolveu-se sobretudo no

Os restos de um templo dedicado ao deus fenício Baal e achados de cerâmica e pedras com inscrições em língua fenícia comprovam a presença púnica no Os fenícios e os cartagineses seus sucessores, marcaram presença nas costas africanas a partir do início do e a sua civilização penetrou no interior a partir dos seus entrepostos, como Lixo (atual Larache) e Tânger. Apesar de pertencer aos reinos da Mauritânia, a administração da cidade seguiu o modelo de governo cartaginês a partir do , com sufetes (magistrados supremos), à semelhança de Cartago e das colónia púnicas. As técnicas de construção e os artefactos encontrados sublinham igualmente a influência púnica. Os estudos arqueológicos revelaram que no existia uma pequena cidade protegida por uma muralha em tijolo com bases de pedra, que aparentemente ocupava cerca de 12 hectares. Como o resto da Mauritânia, Volubilis lutou contra Cartago ao lado de Massinissa, rei da Numídia entre 202 e , aliado dos romanos no final da Segunda Guerra Púnica . O Reino da Mauritânia tornou-se um estado cliente de Roma em , na sequência da queda de Cartago, e o seu rei foi um aliado de Roma contra Jugurta. Com a morte de em , o reino passou a ser administrado por Roma, que lá instalou tropas veteranas. A influência púnica perdurou durante um período considerável depois disso, pois os magistrados da cidade ainda tinham o título cartaginês de sufete muito depois do fim do domínio púnico. A língua púnica, cujo uso é atestado no , manteve-se na sua variante neo-púnica até ao reinado de

Juba II, rei da Numídia e vassalo de Roma, foi colocado no trono mauritano pelo imperador Augusto em e empenhou-se na construção de uma capital real em Volubilis. Educado em Roma e casado com , a filha de Marco António e Cleópatra, Juba e o seu filho Ptolomeu foram reis romanizados, embora de ascendência berbere. As suas preferências pela arte e arquitetura romanas refletiram-se claramente no desenho da cidade.

Período romano thumb|upright|esquerda|Mapa da província romana da Mauritânia Tingitana

Em , o rei da Mauritânia Ptolomeu foi assassinado por ordem do imperador romano Calígula e as tropas romanas invadiram o reino da Mauritânia. O ex-escravo Aedemon, libertado por Ptolomeu, liderou uma revolta contra os ocupantes entre 40 e Volubilis alinhou resolutamente com os romanos contra os rebeldes, criando uma milícia para ajudar a combatê-los. Em Cláudio formalizou a anexação do reino mauritano, cujos territórios passaram a constituir as província romanas da Mauritânia Tingitana, a ocidente, a qual integrou Volubilis, e da Mauritânia Cesariense a oriente. Após a revolta ter sido esmagada, a cidade foi recompensada pela sua fidelidade por Cláudio, que em concedeu a Volubilis o estatuto de município, a cidadania romana aos seus habitantes e uma isenção de impostos por um período de dez anos. O sistema de governo foi revisto, substituindo os sufetes de estilo púnico por duúnviros ou magistrados eleitos anualmente.

Volubilis cresceu então substancialmente graças à sua riqueza e prosperidade, devida aos terrenos férteis da província, que produziam bens de exportação valiosos como cereais, azeite e animais selvagens para os espetáculos de gladiadores. Tornou-se também o centro administrativo da Mauritânia Tingitana e o posto mais avançado no dispositivo militar que fazia face às tribos seminómadas da região. Para esse efeito foram criados três campos militares e torres de fortificação. Ainda antes da criação da província da Mauritânia Tingitana, Volubilis já apresentava sinais de romanização, como por exemplo o facto de certos magistrados terem nomes latinos (caso do célebre Marco Valério Severo, que começou por ser sufete e depois foi duúnviro) e serem inscritos nas tribos romanas Cláudia, Quirina e Galéria, o que indica que não só havia cidadãos romanos na cidade como muitos deles eram ricos.

thumb|Zona do fórum, com a basílica no centro da imagem

thumb|A Decúmano Máximo (avenida principal), com o Arco de Caracala ao fundo

A cidade é mencionada pelo geógrafo do Pompónio Mela, que a descreve na sua obra “De situ orbis libri III” como «uma das cidades mais ricas, a mais rica entre as pequenas» da Mauritânia. Também é mencionada por Plínio, o Velho e o Itinerário de Antonino mostra a sua localização e chamando-lhe Volubilis Colónia. A sua população era predominantemente composta por berberes romanizados. No seu apogeu, no final do , Volubilis tinha cerca de habitantes, uma população assinalável para uma capital provincial romana, e a região em volta era também muito povoada, tendo sido descobertas mais de 50 villae na área.

Todavia, a posição da cidade foi sempre instável, devido à sua localização na orla sul da província e à hostilidade das tribos berberes locais, cada vez mais poderosas. Para reforçar a defesa, foi construído um anel de cinco fortes, localizados nas atuais aldeias de Aïn Schkor, Bled el Gaada, Sidi Moussa, Sidi Said e Bled Takurart (antiga Tocolósida). Sidi Said foi a base da (Cohors IV Gallorum equitata), uma coorte auxiliar de cavalaria da Gália, enquanto que em Aïn Schkor estiveram estacionadas coortes ibéricas e belgas. Sidi Moussa foi guarnecida por uma coorte de partos e Tocolósida por cavalaria gaulesa e síria. As tensões crescentes na região perto do fim do levaram o imperador Marco Aurélio a ordenar a construção de um perímetro de muralhas com de extensão, com 8 portas e 40 torres. Volubilis tinha ligações por estrada a Lixo (atual Larache) e Tingis (atual Tânger), ambas situadas a ocidente, mas não tinha ligações para oriente, com a província vizinha da Mauritânia Cesariense, pois o território dos berberes berguatas interpunha-se entre as duas províncias.

O controlo romano sobre a cidade terminou a seguir ao caos da crise do terceiro século, quando o império quase se desintegrou devido aos confrontos entre vários generais que sucessivamente ganharam e perderam o poder numa série de guerras civis, golpes palacianos e assassinatos. Cerca de 280, o domínio romano colapsou em grande parte da Mauritânia e nunca foi restabelecido. O colapso foi previsto pelos habitantes de Volubilis, que enterraram tesouros de moedas e estátuas de bronze debaixo das suas villae, onde foram descobertos por arqueólogos quase anos depois. Só uma pequena parte da Mauritânia Tingitana permaneceu sob o controlo romano, ficando o resto deixado à sua sorte, por razões que não são bem conhecidas. Em 285, o imperador Diocleciano reorganizou o que restava da província retendo apenas a faixa costeira entre Lixo, Tingis e Septa (atual Ceuta). Apesar de um exército romano ter sido baseado em Tingis, decidiu-se que era muito oneroso organizar a reconquista da vulnerável região fronteiriça.

Depois dos romanos thumb|esquerda|upright|Cópia de incensário bizantino do ou VI encontrado em Volubilis em exposição no Museu Arqueológico de Rebate; o original encontra-se no Museu do Louvre, em Paris

Volubilis continuou a ser habitada durante vários séculos após o fim do domínio romano. Após o aqueduto ter deixado de funcionar, os habitantes mudaram-se para sudoeste da cidade romana, a ocidente do arco do triunfo, onde surgiu uma nova área residencial ao longo das margens do rio Khourmane. Este novo núcleo urbano foi separado do antigo por uma nova muralha, que ia até à margem do rio. Grande parte do centro urbano primitivo foi completamente abandonado e a área junto ao arco do triunfo passou a ser o cemitério da nova povoação.