Acabou Chorare é o segundo álbum de estúdio do grupo musical brasileiro Novos Baianos. O disco foi lançado em 1972 pela gravadora Som Livre, após o relativo sucesso de É Ferro na Boneca (1970), momento em que os músicos baianos ainda procuravam por identidade própria. O álbum adotou a guitarra expressiva de Jimi Hendrix e a brasilidade de Assis Valente, sobretudo a influência estrondosa de João Gilberto, o qual ainda exerceu o papel de mentor da banda na época da realização do disco. Assim, o grupo realizou uma obra que apresenta grande versatilidade de gêneros musicais, constituindo-se como marco relevante de experiência contracultural à brasileira em face da ditadura civil-militar (1964–1985), período de chegada da influência da contracultura internacional no Brasil.
Sua faixa de abertura, "Brasil Pandeiro", foi proposta por Gilberto e é um dos sambas, ao lado de "Recenseamento", que Valente havia escrito para a recém-chegada Carmen Miranda dos Estados Unidos; ela aceitou a segunda, mas ignorou a primeira, que ficou em ostracismo até a regravação dos Anjos do Inferno. O título do álbum e a faixa homônima também foram inspirados no estilo de bossa nova de Gilberto e numa história contada por ele sobre sua filha com Miúcha, a então bebê Bebel Gilberto, e representa a proposta principal do disco de criticar a tristeza que então dominava a música popular brasileira com alegria, prazer e jocosidade. "Preta Pretinha", por sua vez, virou mania nacional, e "Besta é Tu" e "Tinindo Trincando" dominaram as rádios do país, esta última um belo exemplo da mistura de baião com rock psicodélico.
Acabou Chorare permanece, mais de 50 anos após seu lançamento, como um dos mais importantes álbuns da música popular brasileira e também um dos mais influentes. Novas gerações de músicos, especialmente cantoras, como Vanessa da Mata, Marisa Monte, Céu, Roberta Sá, Mariana Aydar, beberam de sua fonte e, além de sua fama, gozou de amplo reconhecimento crítico. Em 2007, na eleição dos 100 maiores discos da música brasileira elaborada pela Rolling Stone Brasil, Acabou Chorare aparece em primeiro lugar, sendo considerado obra-prima pelos estudiosos, produtores e jornalistas convocados para a votação.
Antecedentes Não é uma família. Talvez um time. NOVOS BAIANOS. Mais perto do som. No seu mundo subterrâneo. À beira do abismo. Por fora de 'Ismos'. Na porta. Varrendo o terreiro. Lavando os pratos como quem faz música. Sem prantos, no fonte, na boca da criação... (...) — Luiz Galvão, letrista, biógrafo e mentor intelectual do grupo, no encarte de Acabou Chorare. Sob a cartilha da transgressão, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Baby Consuelo e Moraes Moreira realizaram o primeiro disco dos Novos Baianos, É Ferro na Boneca (1970), em São Paulo. Tocaram juntos pela primeira vez em Salvador, 1969, no espetáculo "Desembarque dos bichos depois do dilúvio", com a banda dos irmãos Pepeu e Jorginho Gomes, que era baterista.Azevedo, p.44. Em 1971, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde, depois de dividirem uma cobertura, terminaram dividindo um sítio na estrada para Jacarepaguá: o Cantinho/Sítio do Vovô (onde gravariam Acabou Chorare). Mas, antes disso, para pedir proteção musical na nova cidade, Galvão contatou João Gilberto, que conhecia desde a adolescência em Juazeiro, e este prometeu visitá-los um dia em Botafogo, dizendo "Sempre sonhei ter um grupo que todo mundo morasse junto. Sempre sonhei com isso. Nunca consegui".Preto, 2007, p.109.Ferron e Cohn (1), 2010, p.5. Sobre a mudança para Jacarepaguá, Paulinho Boca explica: "Acabamos saindo do centro porque estávamos manjados, dando pinta. Todo mundo estava cabeludo, nego dando recado. Era melhor arranjar um lugar tranquilo, natural, que tivesse mato."Sanches, 2010, p.82. Paulinho e Moraes chegaram a ser presos num armazém pelo aspecto cabeludo deles, mas logo foram soltos. O comportamento hippie não deixou de ser registrado nas obras. O primeiro disco traz canções, dentre as muitas do grupo, que possuem várias menções às drogas, porém não eram censuradas pelo regime militar: a faixa-título, por exemplo, diz olhe o produto que há na bagagem, e não é uma estrada, é uma viagem... Refletiam sobre aspectos sociais, políticos e históricos do período.
Entretanto, certa vez, no apartamento de Botafogo, chegou um homem que poria o grupo em ordem. De terno e gravata, tocou a campainha e despertou a atenção de Dadi, que logo pensou: "Ih, sujou, Polícia Federal!". Mas era João Gilberto —baiano que viria a ser o mentor (musical e espiritual) e principal influência dos Novos Baianos durante um bom tempo.Azevedo, p.44-5. Eram frequentes as suas visitas, mesmo em Jacarepaguá; o próprio diz que ia lá com a esposa Miúcha e a filha pequena Bebel Gilberto "a passeio, e aproveitava a viagem para ouvir o que os malucões estavam tocando, compondo, inventando (...)"Preto, 2005. Assim, acrescido aos gostos dos Novos Baianos pela então recente Tropicália, pelo choro, o afoxé, o trio elétrico e Jimi Hendrix, os encontros com Gilberto propiciaram novas inspirações, e um verdadeiro reencontro com as raízes musicais da Bahia e do Brasil.Gomes, 1998, p.14 Galvão conta que, para os Novos Baianos, João Gilberto lhes apresentava "o samba de verdade de Assis Valente" e os aconselhou, junto com a proposta da gravação de "Brasil Pandeiro", "a se voltarem para dentro de si mesmos".Mello e Severiano, 1999, p.169.
Diversos autores apontam que foi justamente a presença de Gilberto que possibilitou a criação de Acabou Chorare.Souza, 2003, p.301.Marcondes, 1977, p.542. O próprio título surgiu de uma conversa entre eles, ao contar que sua filha, Bebel Gilberto, ainda pequena, misturava o português com o castelhano que ouvia quando morava no México com os pais, frequentemente usado quando a menina tombava ou esbarrava em algo e chorava, pondo o pai e o resto da família a correr atrás dela, ao que ela respondia, para o conforto de todos: "acabou chorare, acabou chorare".Azevedo, p.45. De acordo com Galvão,
"Telefonei para João Gilberto contando que estava fazendo uma letra ["Acabou Chorare"] sobre essa relação com a abelhinha. João me disse: 'Fenomenal! Eu estava falando com o poeta Capinan, e ele lembrava que a abelha beija a flor e faz o mel, e eu gostei e completei: E ainda faz zun-zun.' Perguntei a João: 'Posso usar isso?' E ele aprovou dizendo: 'Deve'. Não parou por aí, João contou-me que Bebel, sua filha, quando eles moraram no México, levara uma pancada [...] e ele, preocupado, acudiu com a aflição de pai nessas horas, mas Bebel reagira corajosamente e, na sua inocência de criança, falava uma língua em formação, acalmando-o: Não, acabou chorare."Galvão, 1997, p.98.
Como escreveu Ricardo Azevedo, "no ouvido dos Novos Baianos isso era suficiente para virar música". E, como Baby relembra, "Saído da boca de uma criança mostrava que tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta."Diário_de_Cuiabá. "Acabou Chorare, o disco bomba relógio." Acesso: 17 de junho, 2011. Assim, após gravarem todas as faixas de forma rasteira e precária pela Polygram, sob a sugestão vinda de Nelson Motta de gravá-las na casa de Jorge Karan, eles romperam com a gravadora e conseguiram cativar a aposta do produtor Eustáquio Sena e de João Araújo, dono e diretor da Som Livre, conhecido futuramente como pai de Cazuza, que bancou a gravação de Acabou Chorare e impulsionou a carreira dos Novos Baianos.Okky de Souza, "Os Novos Baianos: Besta é tu". superinteressante. Acesso: 17 de junho, 2011.Lucas Nobile, "Começou Chorare" (20 de novembro de 2010). in: Estadão. Acesso: 18 de junho, 2011.
Gravação e produção Sob tal influência, Acabou Chorare foi composto e gravado. No sítio de Jacarepaguá, vivia toda a banda junto com mais outros parentes e amigos, no estilo de vida comunitário típico dos hippies; a quantidade de moradores era suficiente para promover animadas peladas nos finais de tarde, o que os fez criar o time Novos Baianos F.C. e lançarem o disco pós-Acabou Chorare justamente com tal título, Novos Baianos F.C. (1973). Como conta Moreira, "Podia faltar grana para a comida, mas sempre tínhamos dinheiro para comprar maconha e equipamentos esportivos."Luz, 1995, p.114. A rotina do Cantinho do Vovô era simples. Como conta Paulinho Boca, "Depois do café da manhã, Galvão ia compor, Moraes ficava tocando. A gente se exercitava muito, ia pra praia de bicicleta. Quando o sol estava acabando, começava o baba", diz, referindo-se ao codinome baiano para as peladas de futebol.Sanches, 2010, p.84. A capa do disco, uma mesa de madeira que havia sido construída por Pepeu, mostra pratos e copos espalhados, talheres e panelas desarrumadas, moscas e farinha, simbolizando "mistura" musical e o espírito comunitário do grupo no sítio.Pereira, 2009, p.68. Em 1972, ela recebeu prêmio de melhor produção gráfica do ano; a arte leva assinatura de Antônio Luis Martins, mais reconhecido como "Lula", protagonista do cult-movie Meteorango Kid - O Herói Intergalático (1970), de André Luiz de Oliveira.Cristiano Bastos, "Tinindo Trincando - Novos Baianos e o Melhor da Música Brasileira. Rolling Stone Edição 46, 06 de julho de 2010. Acesso: 15 de junho, 2011.
Foram ao todo dois anos de elaboração da linguagem musical do disco, com o grupo compondo, ensaiando, desenvolvendo o álbum, e João Gilberto dando toques e sugestões.Ferron e Cohn (1), 2010, p.6. Segundo Moraes Moreira, era natural morar, produzir, compartilhar tudo junto à comunidade do sítio: "Era uma coisa que ia acontecendo dentro daquele caos que a gente vivia. [...] A gente não fechava a porta do quarto para compor. Era ali no meio de todo mundo, na alegria. A gente achava que isso ia influir na nossa música. E influiu. [...] Para nós, a vida era o ensaio. Quando fomos gravar o Acabou Chorare, tudo já estava debaixo do dedo de tão ensaiado do dia-a-dia. Você ouve e percebe que o disco foi gravado em quatro canais." Mesmo que os músicos dos Novos Baianos se sentissem inquestionavelmente inferiores ao seu mestre—e embora sentissem orgulho de "roubar" por vezes os acordes de Gilberto—foram muito virtuosos no sentido de, numa época em que não existia afinador, tocarem uma mistura de acústico e elétrico com afinação impecável. Segundo Moraes, isso se deve ao fato de que, embora adotassem comportamentos exóticos e usassem drogas como o LSD, música era assunto sério para eles. Paulo César Salomão, técnico de som, morava nos lugares do terreno onde ficavam o galinheiro hoje desativado e o chuveiro coletivo. Virava madrugadas estudando eletrônica e—como ainda não havia recursos para comprar peças novas para as guitarras do disco—teve de melhorar o som da Supersonic entalhando o instrumento, "dentro do qual acoplou capacitores removidos do televisor (não assistido) que a família tinha no sítio".