O Templo Romano de Évora, erroneamente conhecido como Templo de Diana, está localizado na cidade de Évora, em Portugal. Faz parte do centro histórico da cidade, o qual foi classificado como Património Mundial pela UNESCO. O templo romano encontra-se classificado como Monumento Nacional pela Direcção-Geral do Património Cultural. É um dos mais famosos marcos da cidade e um dos símbolos mais significativos da presença romana em território português.
Está situado no Largo Conde de Vila Flor, na freguesia da Sé e São Pedro, fazendo conjunto com a Sé de Évora, Tribunal da Inquisição, Igreja e Convento dos Loios, a Biblioteca Pública de Évora e o Museu.
Descrição Localização O templo estava situado no ponto mais alto da acrópole da cidade romana, fazendo originalmente parte de um complexo urbano conhecido como fórum, que era normalmente o centro de uma cidade romana, rodeado por um pórtico. O templo em si estava rodeado por um tanque de água, demonstrando que o elemento aquático teria uma grande importância, do ponto de vista religioso. O complexo também poderia ter incluído uma basílica, cujas colunas partilhavam algumas características com as do templo romano.
Arquitectura O templo é um exemplo da arquitectura religiosa do período romano, sendo de forma rectangular, com as colunas organizadas nos estilos hexástilo e períptero. O modelo utilizado na construção do edifício foi o mesmo utilizado na instalação dos templos do imperador Trajano e do imperador Adriano, no século II d.C., sendo semelhante ao templo de Maison Carrée, na cidade francesa de Nîmes.
De todo o antigo edifício, apenas se conservaram o pódio, partes da colunata e fragmentos da arquitrave e friso, que eram suportadas pelas colunas. O pódio (Podium) está situado numa base com cerca de 25 m por 15 m e 3,5 m de altura, construída em cantaria de granito de forma irregular (opus incertum). A plataforma do pódio (podium) tem uma altura de quatro metros, e estava decorada com silhares no perfil da base, na moldura e nos cantos, sendo as partes restantes em opus caementicium. O acesso à plataforma faz-se por uma escadaria, que ainda é visível apesar do seu estado de conservação. Sobre a plataforma estão situadas as colunas, das quais sobreviveram catorze exemplares. Do lado Norte, ainda restam as seis colunas originais, tal como partes da arquitrave e do friso, enquanto que a Oeste apenas três colunas permaneceram inteiras, uma das quais sem capitel nem base, e alguns vestígios da arquitrave e do friso. As colunas, em estilo greco-romano e corínto, apresentam fustes canelados, sendo formadas por sete tambores de dimensões irregulares. Possuem bases de forma circular, esculpidas em mármore branco de Estremoz, e são rematadas por capitéis do mesmo material, apresentando igualmente o estilo coríntio, sendo decoradas com três ordens de folha de acanto e ábacos, onde foram esculpidos flores e florões, representando malmequeres, girassóis e rosas. Os capitéis apresentam várias divergências nos seus pormenores, o que prova que foram feitos por vários indivíduos, com diferentes níveis de competência. As colunas suportavam um conjunto de arquitrave e friso, dos quais ainda sobraram algumas partes. O resto do edifício foi feito em granito, oriundo da zona de Évora. Apesar do granito e do mármore serem materiais de características muito diferentes, foram combinados de maneira engenhosa pelos construtores do edifício, resultando num conjunto muito harmonioso. No edifício também foi utilizado mármore de Vila Viçosa. O mármore de Estremoz, oriundo da Serra de Ossa, foi provavelmente escolhido por ser o mais semelhante, em território nacional, ao de Carrara.
Não sobraram quaisquer vestígios das estruturas interiores do templo, tendo as paredes internas sido demolidas durante as adaptações a mesquita e igreja, de forma a ganhar mais espaço, enquanto que durante a instalação do matadouro foi construída uma calçada em declive sobre o pavimento anterior, de forma a fazer o sangue dos animais escorrer até ao portal. Parte da antiga zona do fórum em si está coberta por outros edifícios, principalmente o Museu de Évora. Numa das fachadas laterais do templo foi encontrado uma inscrição, que foi identificada como um tabuleiro para o jogo de Alquerque, e que poderá ter sido gravada pelos trabalhadores antes da construção do edifício.
Espólio O espólio arqueológico encontrado no local consiste em peças de cerâmica campaniense, de vidro, de terra sigillata itálica, hispânica e africana, de paredes finas, comum diversa, e cinzenta. Do período romano foram ainda encontradas ânforas e uma lucerna. Quanto a cronologias muçulmanas, foram descobertos potes, jarros, uma taça, panelas, uma tigela de corda seca em tons de verde e manganês, um alguidar e um candil. Foram igualmente recolhidas diversas peças de mármore, incluindo uma mão a segurar uma patera, partes de dedos de estátuas, e um possível pedestal de estátua. Durante as sondagens da década de 1990 foram encontradas duas mãos incompletas em mármore, uma delas com anéis em dois dedos, que pode indicar que pertencia a uma estátua feminina, e que segurava uma caixa redonda com vinte e duas bolas, talvez representando incenso, pelo que a caixa poderia ser do tipo cerimonial (Acerra ou Píxide).
No pavimento do templo foi descoberta uma ara em mármore, em avançado estado de degradação, tendo a maior parte do texto desaparecido, sendo insuficiente para determinar se tinha sido dedicado a um imperador ou a uma divindade.
miniaturadaimagem|left|Templo romano de Évora em 2021.
Importância, classificação e denominação O Templo Romano de Évora é considerado um dos edifícios do seu tipo melhor conservados em toda a Península Ibérica, e é um exemplar único em Portugal. Está classificado como Monumento Nacional pelo governo português,Portugal. Decreto de 16 de Junho de 1910. Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria. Publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de Junho de 1910. e como Património Mundial, como parte do Centro Histórico de Évora, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
O monumento ficou conhecido como Templo de Diana devido a uma teoria avançada pelo padre jesuíta Manuel Fialho no século XVII, que era dedicado a Diana, deusa romana da caça, e às semelhanças com o Templo de Diana, na cidade espanhola de Mérida. Na revista Panorama n.º 24, de 1945, o templo foi descrito como sendo dedicado à Deusa da Graça.
A denominação de Templo de Diana manteve-se até às décadas de 1980 e 1990, quando foi descoberto que o templo tinha sido dedicado ao imperador Augusto.
História Período romano
Segundo a tradição, o templo teria sido fundado por ordem do general romano Quinto Sertório, quando este tomou a cidade de Ebora aos povos eborenses, cerca de 70 a.C.. Porém, na realidade o Templo de Évora só terá começado a ser construído no século I d.C., como parte de um programa de renovação urbana da cidade, então denominada Liberalitas Iulia Ebora, tendo sido dedicada ao imperador Augusto, cujo poder estava então numa fase de plena afirmação. No entanto, as obras arrastaram-se durante os dois séculos seguintes, devido a alterações na estrutura urbana envolvente, uma vez que o culto imperial levou à construção de uma cidadela. O templo teria sido uma das grandiosas estruturas construídas por Sertório como parte de um programa de desenvolvimento da cidade, e que teria incluído igualmente as muralhas e torres, um palácio, um aqueduto e um arco triunfal. Uma das histórias sobre o templo, preservada através da tradição oral e referenciada por autores antigos, refere que o aqueduto terminava num tanque em redor do templo, sendo depois a água canalizada para uma fonte junto ao arco triunfal. Com efeito, em escavações no século XX foi encontrado um tanque que rodeava o templo em três lados, e das canalizações que escoavam a água. Outros autores afirmaram que o templo teria sido construído posteriormente, durante a época imperial de Roma, sendo uma das teorias nesse sentido que a arte da escultura romana ainda não tinha atingido, durante o período de Sertório, um grau de habilidade suficiente para esculpir os capitéis do templo. No entanto, embora a arte da estatuária romana ainda não estivesse totalmente desenvolvida, nesse período já existiam trabalhos de escultura nos capitéis muito avançados, devido ao emprego de artistas gregos.
O templo poderá ter sido abandonado no século IV, período em que parte dos edifícios religiosos romanos na Hispânia começaram a perder a sua importância, devido ao avanço do cristianismo.
Idades Média e Moderna O edifício foi parcialmente destruído no século V, durante as invasões dos povos bárbaros. Em 716 os muçulmanos tomaram a cidade, tendo o templo romano provavelmente sido transformado numa mesquita fortificada, com muralhas ameiadas. No entanto, é possível que a conversão do edifício em estrutura militar já tenha ocorrido anteriormente, durante a época visigótica. O domínio islâmico de Évora durou até 1165, ano em que foi reconquistada por Geraldo Geraldes como parte de uma campanha militar no Alentejo,CAPELO et al, 1994:29 tendo provavelmente o templo sido convertido em igreja. Com efeito, esta era uma prática muito comum neste período, devido à necessidade imediata de um edifício dedicado ao culto cristão, enquanto que construir uma igreja de raiz seria um processo muito demorado. Um dos vestígios da sua adaptação a igreja terá sido um campanário no lado superior do monumento. O acesso ao edifício era feito através de uma porta entre as duas colunas centrais, com dois ou três degraus para vencer o desnível em relação à rua, que chegava sensivelmente até à base do antigo templo. Também se avançou a teoria que teria sido a Sé Velha de Évora, uma vez que foi referenciada em vários documentos, mas não se chegaram a encontrar vestígios físicos deste edifício. O templo romano terá albergado a sé até 1204, quando o bispo D. Paio consagrou o novo edifício da Sé. O templo foi alvo de obras durante os períodos mudéjar e manuelino, tendo sido durante estas fases que foram colocados os merlões em forma de pirâmide.
Mais tarde foi reutilizado como uma torre militar, funcionando como casa-forte do Castelo de Évora durante o século XIV. Nesse período também começou a ser utilizado como açougue, na sequência da atribuição do Foral de Évora pelo rei D. Manuel I de Portugal, em 1501. De acordo com um documento encontrado pelo cónego D. João da Anunciada, durante o século XIV o edifício do templo também funcionou como celeiro. Durante o século XVII, o padre jesuíta Manuel Fialho avançou a teoria que o templo tinha sido dedicado a Diana, deusa romana da caça, criando desta forma uma lenda que permaneceu durante cerca de quatro séculos. Um dos motivos para esta teoria foi a sua fundação lendária por parte de Sertório, já que se pensava que Diana seria a sua deusa preferida. No entanto, esta hipótese foi criticada por outros autores, que defenderam que não existiam provas suficientes para garantir que o templo seria dedicado à deusa Diana. Também se especulou que o templo teria sido consagrado ao deus Júpiter, devido à decoração coríntia, destinada normalmente a divindades masculinas, enquanto que a Ordem Jónica era utilizada em templos dedicados a femininas.
thumb|left|Gravura de 1865 do Templo. thumb|left|Gravura de 1870 do Templo.
Século XIX Nos princípios do século XIX, avançou-se a teoria de que os capitéis do templo de Évora não tinham sido fabricados na região, mas transportados a partir de Atenas ou Roma, devido à sua perfeição, e ao estado de decadência em que as artes da arquitectura e escultura se encontravam nos princípios de oitocentos em Portugal. Porém, é mais provável que tenham sido produzidas localmente, devido à proveniência dos materiais, e à descoberta de várias peças semelhantes em sítios arqueológicos do período romano nas proximidades de Évora, como na Herdade da Coberta.