Fez (; ; ) é uma cidade do centro-norte de Marrocos. É a capital da prefeitura homónima e da região de Fez-Mequinez. Com 89 km² de área e habitantes na região metropolitana () em 2022, é a terceira maior cidade do país, após Rabat e Casablanca.

Foi fundada em 789 por Mulei Idris, tendo sido a capital de Marrocos em várias ocasiões. É onde está localizada a Universidade al Quaraouiyine, alegadamente mais antiga universidade do mundo ainda em funcionamento, criada em 859. A sua importância no passado coloca-a a par de outras grandes capitais da civilização islâmica como Tunes, Damasco, Bagdade, Córdova, Jerusalém ou Isfahan. Juntamente com Rabat, Mequinez e Marraquexe, Fez é uma das chamadas cidades imperiais de Marrocos.

Situa-se 180 km a leste de Rabat e da costa atlântica, entre as cordilheiras do Rife (a norte) e do Médio Atlas (a sul). A cidade tem três partes principais e distintas: Fes el Bali (Fez-a-Velha), Fez Aljadide (Fez-a-Nova) ou Ville Nouvelle (cidade nova) e o Méchouar. A primeira é a almedina, classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1981; a segunda foi projetada e construída pelos franceses durante o período colonial; a terceira é constituída pelo complexo do palácio real. Em termos administrativos, a cidade ocupa dois municípios: o de Fez propriamente dito, dividido em seis arrondissements ("bairros") e o de Méchouar Fès Jdid, onde se encontra o palácio real.

Etimologia A origem do topónimo Fez é incerto; existem várias etimologias, algumas com origem nas lendas populares e outras resultantes de trabalhos de historiadores.

O nome é conhecido desde pelo menos o e segundo a etimologia "clássica" de Fez, como é registada pelos autores medievais Ibne Abi Zar e Abu Becre ibne Maomé Razi , o nome de Fez deve-se à descoberta, feita durante as escavações das fundações da cidade em construção, de um (), que deu origem ao nome de Madinat Fäs. Outro relato, de , descreve a picareta descoberta como muito antiga, de grandes dimensões (quatro palmos de comprimento e um de largura) e pesando 60 libras. Segundo uma lenda popular, Idris I, o fundador da cidade, participou na sua construção. Ele teria ajudado nas escavações das fundações com uma picareta de ouro e de prata, razão pela qual a cidade teria recebido o nome árabe da ferramenta.

Outra hipótese liga a origem do nome a uma metátese. Foram propostas duas versões. A primeira, registada por Ibne Abi Zar na sua obra Rawd al-Qirtas, fala de um velho monge cristão que teria revelado a Idris I a existência no local onde seria construída Fez de uma antiga cidade chamada Saf ou Sef, fundada pelos "Antigos" e desaparecida entre 1000 e 1700 anos antes; a metátese de Saf em Fez explicaria o nome da cidade. A segunda versão, avançada originalmente por Larbi Mezzine, — antigo decano da Faculdade de Letras da e especialista em toponímia berbere — sugere uma origem berbere para o nome. Existindo numerosos cursos de água em volta da cidade (Uade Fäs, Uade Zhun, Uade Zitun, etc.), o nome de Fez seria uma metátese de isaffen, o plural de asif (rio ou ribeira em berbere).

Há ainda outra hipótese que também atribui uma origem berbere para o topónimo da cidade, que originalmente estava dividida em dois aglomerados — Fäs ou Madinat Fäs, fundada em 789–790 por Idris I, e Alalia, fundada em 808–809 por — cada um deles com a sua própria muralha e construídos em lados opostos de uma ribeira, tendo sido unidos, sob o nome de Fez, no interior de uma só muralha, pelos Almorávidas. Madinat Fäs situava-se na margem direita da ribeira, e direita é afäsi em berbere chleuh e afusi em rifenho. O nome de Fäs seria então uma deformação da raiz berbere fäs, que designa a margem direita.

História Fundação A cidade de "Medina Fez" foi fundada pelo xerife álida (descendente de Ali) Idris I (Mulei Idris) em 789, no local onde hoje se situa o bairro dos andalusinos. Em 808, Raxide ibne Morxide fundou Alalia (al-Aliya) na outra margem do uádi de Fez. Alalia desenvolveu-se rapidamente, tornando-se uma verdadeira cidade, com mesquita e kissariya (mercado coberto).

A existência de nascentes de água nos arredores, conhecidas antes mesmo da fundação da cidade e mencionadas em canções, devem ter sido um fator importante na escolha do local para edificação da cidade. As principais evoluções seguintes de Fez devem-se a duas vagas de imigração. A partir de 817–818, instalam-se na nova capital idríssida cerca de 800 famílias andalusinas, expulsas dos arrabaldes de Córdova pelos Omíadas. Pouco tempo depois foi a vez de 200 famílias banidas de Cairuão pelos Aglábidas se instalarem em Alalia. A mesquita e madraça de al Quaraouiyine foi fundada no pela filha de um dos imigrados de Cairuão, Fátima Alfiri. Esta escola universitária foi um dos centros religiosos e culturais mais importantes da idade de ouro islâmica. A sua influência fez-se sentir até nas escolas do Alandalus e dali para a Europa cristã, onde atrai numerosos sábios e místicos, inclusivamente cristãos, como Gerbert d'Aurillac, que depois seria o .

Os imigrantes levaram para Fez conhecimentos técnicos e uma experiência de vida citadina com longas tradições. Sob o seu impulso, Fez tornou-se um centro cultural importante e, após a criação da mesquita universitária de al Quaraouiyine, passou a ser o centro religioso do Magrebe ocidental. A localização da cidade é particularmente favorável para o comércio, pois encontra-se no cruzamento de duas rotas comerciais importantes, numa região onde abundam matérias-primas importantes para diferentes tipos de artesanato, como pedra, madeira e barro. Estes fatores permitiram a criação de uma rica cultura estética a partir da grande tradição artística árabe-andalusina. Por Fez passa a rota das caravanas que ligavam a África subsariana ao Mediterrâneo através da grande cidade comercial de Segelmeça (desaparecida no ), na região do Tafilete, o que contribuiu para aumentar o interesse económico da cidade.

Séculos X–XV Nos séculos X e XI, Fez foi tomada pelos magrauas e foi palco de batalha entre as tribos zenetas magrauas e ifranitas, que foram sucessivamente aliados do Califado de Córdova e do Califado Fatímida. É durante este período que ocorre um pogrom contra a comunidade judaica que fez vítimas e que ficou conhecido como o Massacre de Fez de 1033.

As duas partes da cidade foram unidas em 1069, destruindo a muralha que as separava. Fez perdeu o seu papel de capital com a fundação de Marraquexe e Tremecém pelos Almorávidas, no , mas volta a tê-lo em 1250 com os Merínidas. Com estes governantes, cujo reino é conhecido como Reino de Fez, é fundada a nova cidade el Medinet el-Beida ("a cidade branca") em 1276, que é dotada de muralhas, de palácios e de jardins. Torna-se rapidamente conhecida como Fez Aljadide (Nova Fez), em oposição a Fez Albali (Velha Fez). A população judia que vivia nas imediações do palácio foi obrigada a se retirar. Uma mellah (designação tradicional nas cidades marroquinas para bairros judeus) formou-se então no antigo bairro da guarnição dos arqueiros sírios.

No início do (apogeu da arte mourisca), a cidade teve um acentuado crescimento. Graças às caravanas que a ligavam ao porto de Badis, no Rife, Fez estava permanentemente ligada ao Reino Nacérida de Granada e ao conjunto do mundo mediterrânico. Em 1471, os Oatácidas tomaram a cidade e passaram a reinar sobre Reino de Fez, que então ocupava apenas a parte norte de Marrocos atual.

Séculos XVI–XIX Em 1522, Fez foi abalada por um sismo que destruiu parte da cidade. Nos anos seguintes, numerosos edifícios foram reconstruídos, restaurados ou substituídos. Os sádidas tomaram a cidade em 1554, que também era cobiçada pelos turcos otomanos, mas escolheram Marraquexe como sua capital. No fim do , no início da dinastia alauita, ainda atualmente no poder em Marrocos, Mulei Ismail instalou a capital do seu Império Xerifiano Mequinez. O mesmo monarca colocou uma parte da tribo Guich dos udaias, que o tinham ajudado a subir ao poder, como guarnição em Fez. Depois da sua morte em 1727, os udaias revoltaram-se, mas só seriam expulsos de Fez em 1833, pelo sultão Abderramão ibne Hixeme. O sucessor de Mulei Ismail, Mulei Abedalá, usou Fez como local de residência permanente e mandou renovar e construir mesquitas, madraças, pontes e ruas, nomeadamente as ruas de Fez Jedid que desde então são pavimentadas.

No , as antigas duas partes da cidade são unidas. Fez voltou a ser a capital de Marrocos até ao início do protetorado francês, em 1912, cuja capital foi instalada em Rabat.

Século XX — Protetorado Francês e independência

O tratado franco-marroquino que instaurou o Protetorado Francês em Marrocos foi assinado em Fez em 30 de março de 1912. Menos de três semanas após a proclamação oficial do protetorado estalaram motins antifranceses na cidade. As autoridades coloniais transferiram então a capital para Rabat, mas Fez continuou a ser um centro cultural, político e económico de grande importância. Muitas iniciativas nacionalistas e anticolonialistas tiveram origem em Fez, o que fez da cidade um dos berços do movimento nacionalista marroquino, nomeadamente do Partido Istiqlal ("partido da independência"). Em 1944, o Manifesto para a Independência foi redigido numa casa da velha almedina, situada no que é atualmente a Praça de l'Istiqlal. A cidade conheceu, contudo, problemas sociais crescentes depois da independência em 1956 e teve que fazer face à explosão do êxodo rural. Os motins de 1990 foram o ponto culminante dessa deterioração das condições de vida na cidade.

Sob a direção de Lyautey, durante o período colonial foi criada uma nova urbanização na área de Dar Debibagh, a sul de Fez Jedid, seguindo os planos do arquiteto Henri Prost. Inicialmente, a chamada "Cidade Nova" foi o bairro residencial dos europeus, mas continuou a desenvolver-se, tornando-se uma cidade árabe moderna, com novos quarteirões com vivendas, onde também se instalaram organismos governamentais, instituições e empresas de serviços.

Uma das consequências da mudança da capital para o litoral atlântico foi a partida de uma grande parte da população nativa de Fez para Casablanca, Rebate e, em menor escala, para Tânger. Este fluxo de emigração inclui desde simples artesãos a empresários e letrados, que abandonaram a cidade que tinha perdido o seu estatuto privilegiado.

Geografia Fez situa-se na região do Saïs, a extensa planície elevada entre as cordilheiras do Rife, situada a norte, e o Médio Atlas, situado a sul. A cidade tem pouco mais de um milhão de habitantes e o centro urbano tem onde não circulam automóveis. A cidade tem três partes: Fès Albali (Fez-a-Velha) — é o bairro mais antigo, edificado pelos Idríssidas no fim do ; Fès Aljadide (Fez-a-Nova) — edificada no pelos Merínidas, é uma cidade administrativa e real, onde o rei marroquino gosta de ir para assinalar a solenidade de certos eventos ou a importância de certas decisões; Fès ville nouvelle (Dar Dbibegh ou "Fez cidade nova") — foi edificada pelos franceses no tempo do protetorado; é a parte mais moderna.

Fès el-Bali e Fès el-Jedid formam a chamada almedina de Fez, um sítio incluído na lista do Património Mundial pela UNESCO desde 1981. No seu conjunto tem cerca de habitantes.

Clima O clima de Fez é do tipo mediterrânico, mas com traços de continentalidade e com influências atlânticas (o oceano Atlântico fica 160 km a oeste em linha reta). A proximidade das montanhas do Rife e do Médio Atlas também influencia o clima da cidade, que é semelhante ao das cidades do sul de Espanha, sobretudo ao de Córdova.