Astacidea é uma infra-ordem famosa por conter dentre sua imensa diversidade as lagostas e lagostins, alguns dos decápodes mais conhecidos e grandes exemplos desse grupo. A ordem Decapoda, da qual ela pertence, forma o táxon com maior riqueza dos Crustaceas (subfilo e logo abaixo do filo Arthropoda), contendo cerca de 15 mil espécies, de modo a incluir animais famosos e comuns em diversos cotidianos como camarões, caranguejos e as lagostas.

Esta infra-ordem pode ser dividida em três superfamílias: Astacoide, Parastacoidea e Nephoropoidea. Um hábito comum e conhecido para esses animais é a escavação e construção de galerias, além das características quelípedes, primeiro par de quelas em forma de pinça. Além disso, esse grupo engloba animais que podem ser encontrados em diversas regiões do globo terrestre, tendo uma grande diversidade de habitats (rios, lagos, mares e até mesmo galerias terrestres). Possuem grande importância econômica, social e ambiental, já que são grandes representantes na dieta de diversos países, bem como são essenciais na estruturação e funcionalidade de diversos ecossistemas aos quais eles estão inseridos.

Taxonomia e Distribuição miniaturadaimagem|399x399px|Filogenia da infra-ordem Astacidea. Preto: família característica de água salgada (Lagostas com garra); roxo, azul e verde: famílias de água doce, Parastacidae, Astacidae e Cambaridae, respectivamente, com espécies representantes ao lado. (1) evento de separação entre os indivíduos de água salgada e de água doce; (2) evento de separação de espécies de distribuição pelo hemisfério norte e sul.  Imagem alterada de Crandall et al. (2017).|alt=|esquerda Astacidea é uma infraordem monofilética conhecida por agrupar as famosas lagostas e lagostins de água doce (Freshwater crayfish). Ela é dividida em três superfamílias, duas características de água doce, a Astacoidea, organismos com distribuição restrita ao hemifério norte e a Parastacoidea, com distribuição majoritária do hemisfério sul; e uma marinha, a Nephoropoidea, que contém as chamadas lagostas com garra. A superfamília Astacoidea ainda agrupa duas famílas: Astacidea e Cambaridae, sendo que a primeira possui representantes na Europa, enquanto a última é a maior dentre todas e nativa da América do Norte (mais de 400 espécies) e leste da Ásia (4 espécies). No caso da Parastacoidea, esta possui uma única família, a Parastacidae, com espécies nativas na Austrália, Madagascar e América do Sul. miniaturadaimagem|255x255px|Distribuição das espécies nativas das famílias Astacidae, Cambaridae e Parastacidae, alterada de Kawai & Cumberlidge, 2016 Além disso, é possível notar que ocorreu uma significativa separação entre os indivíduos de água salgada e de água doce (1), bem como entre representantes do hemisfério norte (Astacidae e Cambaridae) e do hemisfério sul (Parastacidae) (2). A família Cambaroididae ainda está em discussão sobre a sua posição na filogenia, de modo a se inferir que ela seria grupo basal de Astacidae.

Assim, é possível observar que há representantes da ordem Astacidea por todo o globo terrestre, com exceção na Antártica e da África (excluindo-se Madagascar), sendo que a maior diversidade de espécies ocorre em latitudes maiores, ou seja, em regiões de clima temperado, tanto para o hemisfério norte quanto para o sul. Entretanto, as áreas de maior riqueza são encontradas nos Estados Unidos e no México, ao leste das Montanhas Rochosas, com 432 espécies de apenas uma família, a Cambaridae, representando um significativo hotspot para esse grupo.

Morfologia Geral miniaturadaimagem|Esquema geral das estruturas morfológicas externas de um Astacidea (na ilustração, trata-se de um Astacoidea).|260x260px Assim como a maioria dos Crustáceos, os representantes do grupo Astacidea apresentam um corpo dividido em duas regiões principais, o cefalotórax e o abdome, pela sua vista dorsal. Somente pela vista ventral, é possível verificar que o cefalotórax apresenta cinco segmentos anteriores, ou segmentos cefálicos, e oito segmentos mais posteriores, ou segmentos torácicos.HOLDICH, David Malcolm et al. (Ed.). Biology of freshwater crayfish. Oxford: Blackwell Science. p. 10-20. 2002

Na região cefálica, encontram-se dois pares de antenas, sendo que o primeiro par de antenas, ou também chamado de antênula, apresentam dois flagelos, com funções de quimiorrecepção e mecanorrecepção, enquanto que o segundo par de antenas apresenta um único segmento, mais alongado. A mandíbula é assimétrica, voltada para a região ventral, com alto grau de esclerotização.HORN, Ana Cristina M. et al . Morfologia externa de Parastacus brasiliensis (Decapoda, Parastacidae). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre , v. 98, n. 1, p. 148-155, Mar. 2008 esquerda|miniaturadaimagem|289x289px|Ilustração da vista ventral de uma lagosta (Astacidea) Na região torácica, apresentam oito pares de segmentos. Os três primeiros pares, chamados de maxilípides, são mais curtos, e terminam com um formato de gancho, geralmente associados com a manipulação do alimento. Já nos cinco últimos segmentos, chamados de pereópodes, apresentam duas formas principais, em que os três primeiros pares são quelados, ou seja, em forma de pinça, sendo que o primeiro par de quelas, que recebe o nome de quelípede, é bem maior que os demais, conferindo uma das características mais marcantes desse grupo de Crustáceos. A quela maior é bem desenvolvida, com um dedo móvel, ou dáctilo, que se fecha junto a um dedo fixo, e tem função principalmente associada com a captura de alimento, comportamento de defesa ou ataque, podendo também ser usada na conquista de parceiros sexuais. Já os dois pares seguintes de segmentos, o 2º e 3º pereópodes, são menores e também são quelados, e estão principalmente associadas com a manipulação de alimento, auxílio na locomoção e limpeza do corpo. Por fim, os dois últimos pereópodes não são quelados, e apresentam uma terminação numa estrutura de unha, com função principalmente locomotora. O quinto par de pereópodes também abriga o gonóporo masculino.

A região do abdome é a região mais posterior, e possui apêndices que recebem o nome de pleópodes. No grupo dos Astacidea, de forma geral, eles não apresentam o primeiro par de pleópodes bem desenvolvido, enquanto que os quatro demais pares de pleópodes apresentam anatomia semelhante entre si, auxiliando no posicionamento e locomoção do animal. A região do abdome termina em um leque caudal, uma estrutura de anatomia semelhante a um leque, que é muito importante na natação, principalmente em situações de fuga. O leque caudal é formado pela estrutura do télson, prolongamento rígido ao final do abdome, que sustenta os urópodes, estruturas achatadas ligadas ao télson, bem desenvolvidas nos Astacidea.

Fisiologia Órgãos Sensoriais Os Astacidea apresentam uma grande variedade de estruturas receptivas que permitem a eles a percepção e compreensão do mundo que os rodeia, essencial para a sua sobrevivência. Como uma das estruturas principais, relacionados com a recepção de informações luminosas, têm-se a presença de um par de olhos compostos suspensos por um pedúnculo, e podem se movem em quase todas as direções graças à músculos oculares. Um detalhe interessante nos olhos desses crustáceos é a capacidade de alterar sua sensibilidade à luz, dependendo da quantidade de luz do ambiente em que se encontram, pela mobilização dos pigmentos presentes nos olhos, em que: em condições de baixa luminosidade, os pigmentos se retraem, permitindo uma maior captação de luz de todas as direções, permitindo que o animal enxergue mesmo em condições de baixa luminosidade; já em condições de alta luminosidade, os pigmentos se separam em cada olho, permitindo uma captura de imagem, permitindo melhor acuidade e detecção de imagens em movimento. Além disso, é sabido também da capacidade desses animais de enxergar cores, pois é conhecido que apresentam pelo menos dois receptores que distinguem cores, porém ainda não é totalmente conhecido o espectro de observação.

Outra classe de receptores bem importantes, é a de mecanorreceptores, com funções táteis e hidrodinâmicas, que recobrem praticamente todo o corpo do animal. Como os tipos principais de receptores, há as cerdas sensoriais, que se espalham por quase toda a superfície do corpo, associadas à recepção de sinais de intensidade média; há também os estatocistos, órgãos localizados na parte basal das antênulas, que consiste em uma câmara quitinosa que contém um estatólito, composto de pequenos grãos de sal, no seu interior, que tem função principal de manutenção do equilíbrio e percepção da força da gravidade; como outro tipo importante, estão os receptores hidrodinâmicos, essenciais na percepção da direção do fluxo de água, vital para atividades como natação, fuga e predação.

Sistema Respiratório miniaturadaimagem|268x268px|Ilustração das brânquias de um Homarus americanus, que teve a câmara branquial removida para visualização das estruturas respiratórias O sistema respiratório desses animais, assim como na maioria dos crustáceos, tem como estruturas principais para trocas gasosas as brânquias. Nos Astacidea, elas se localizam na região do cefalotórax, na região lateral em ambos os lados, confinadas dentro da câmara branquial, estrutura de proteção formada pela carapaça. Essas estruturas têm como função principal de trocas gasosas, mas não só isso, mas também participam da osmorregulação e alguns autores também já observaram funções excretoras de nitrogênio nessas estruturas. A funções das brânquias está associada com a posição em se encontra na câmara branquial: as brânquias mais anteriores estão principalmente associadas à com a função de troca gasosa, enquanto que as brânquias mais posteriores atuam na osmorregulação e excreção.

Para que haja troca gasosa, é necessário que haja um constante fluxo de água por entre as brânquias, mas a presença de uma câmara branquial, apesar de garantir proteção às estruturas respiratórias, ela acabaria por dificultar o contato direto com o fluxo de água. Entretanto, isso é contornado graças à presença de exopoditos alongados na base do segundo par de maxilas, chamados de escafognatitos, que mantém um batimento constante para gerar uma corrente por entre os orifícios da câmara branquial.

Comportamento Construção de galerias miniaturadaimagem|Lagostim dentro de sua toca (Vale notar que ele mantém o interior da construção alagado).|280x280px Um hábito apresentado por grande parte das lagostas e lagostins desse grupo é a escavação e construção de tocas, que podem ir de simples buracos com uma abertura de entrada e saída próximos a rochas, à construção de estruturas mais complexas. A construção dessas tocas é um importante comportamento para a sobrevivência das lagostas e lagostins, atuando como refúgio contra mudanças de condições do ambiente (como variações extremas de temperatura ou de regime de água), esconderijo contra predadores, e abrigo em fases do ciclo de vida delicadas para a sobrevivência do animal, como fase reprodutiva e de muda. miniaturadaimagem|Homarus gammarus deixando sua toca -construída abaixo de uma formação rochosa.|280x280px Para as espécies lagostim de água doce, onde esse comportamento é mais bem estudado, uma grande quantidade das espécies conhecidas apresenta a construção de tocas, e até galerias, como uma característica presente. A complexidade da construção das tocas varia não só dependendo do hábito da espécie, mas da condição ambiental que o indivíduo está inserido, levando em conta as condições ambientais locais e a densidade populacional. Podem apresentar hábito solitário, quanto ao convívio nas tocas, ou podem compartilhar a toca com um parceiro. Geralmente, elas são classificadas em três categorias gerais: