O Convento dos Cardais ou da Conceição dos Cardais (também grafado Cardaes) é um convento localizado no bairro das Mercês, em Lisboa. Foi fundado por D. Luísa de Távora (1609-1692) para alojar religiosas da Ordem das Carmelitas Descalças, tendo a aristocrata lá residido e falecido.Localização no OpenStreetMap
Este é um dos raros edifícios históricos de Lisboa que sairam quase incólumes do grande terramoto de 1755 e um dos únicos conventos em Portugal que sempre se manteve activo para a mesma finalidade desde que foi criado no século XVII.
O Convento dos Cardais está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1943.
História
Origens Existia originalmente um recolhimento feminino de invocação da Nossa Senhora da Conceição situado no Sítio dos Cardais, nas imediações da cerca do Convento de Jesus. Esta estrutura primitiva, sob a alçada da Casa Távora, havia sido criada por Rui Lourenço de Távora, abrigando cerca de 50 mulheres de virtude reconhecida sob a direcção de D. Catarina de Sá, vinda do recolhimento de São Cristóvão e falecida em 1668. A transformação deste espaço num reduto carmelita deveu-se à iniciativa de D. Luísa de Távora, ilustre fidalga nascida em 1609, filha de Álvaro Pires de Távora, 5.º Senhor do Morgado de Torre da Caparica, e de D. Maria de Lima, filha do 7.º Visconde de Vila Nova da Cerveira. A aristocrata herdara o património familiar após o falecimento da sua sobrinha, D. Helena de Távora, casando-se posteriormente em 1631 com Luís Francisco de Oliveira e Miranda, 11.º Senhor dos Morgados de Oliveira e Sobrados, 9.º Senhor do Morgado da Patameira e comendador de Santa Eulália na Ordem de Cristo.
Ao ficar viúva em 1647, D. Luísa ingressou no mosteiro de Santos-o-Novo por indicação do monarca D. João IV, assumindo o cargo de comendadeira da Ordem de Santiago a partir de 1671 (ou 1675, consoante as fontes). Esta nomeação suscitou forte oposição por parte das religiosas residentes, as quais manifestaram o seu descontentamento em três ocasiões distintas junto do príncipe D. Pedro, alegando o acesso imediato de D. Luísa ao cargo de comendadeira sem que esta conhecesse previamente a vida conventual. Perante esta hostilidade e motivada pelo seu profundo fervor a Santa Teresa de Ávila e à reforma carmelita, a fundadora decidiu, logo em 1671, instituir uma renda anual de 600$000 réis para edificar um convento num ambiente mais propício ao isolamento. A este desejo somava-se a necessidade de cumprir uma disposição testamentária do seu tio-bisavô, Garcia Rodrigues de Távora, que exigia a criação de uma casa da Ordem de Cristo, pelo que D. Luísa solicitou um breve pontifício a Roma, conseguindo a autorização para comutar a exigência original para a edificação de um convento da Ordem das Carmelitas Descalças.
O novo convento Os trabalhos de conversão e ampliação das estruturas pré-existentes arrancaram por volta de 1677, implicando o dispêndio de uma larga porção da fortuna pessoal de D. Luísa, que doou terrenos adjacentes e assegurou o financiamento vitalício da congregação. A autorização régia para a alteração institucional foi precedida por um despacho do Desembargo do Paço datado de 22 de Novembro de 1681, sendo concedida pelo Príncipe Regente através de um alvará a 2 de Dezembro desse mesmo ano, o qual determinava "que não teria effeito esta fundação senão depois de feita a fabrica do convento e posto elle com todas as offecinas em perfeição".
Na noite de 7 de Dezembro de 1681, quatro monjas deixaram o Convento de Santo Alberto, na Pampulha, para se instalarem no novo recinto. Este grupo fundador integrava a Madre Micaela do Santíssimo Sacramento e a irmã Umbelina Teresa de Santa Maria, ambas oriundas de Aveiro; a irmã Maria de Cristo, vinda de Santo Alberto; e a madre Maria Teresa de Jesus, originária do convento de Carnide. Constituindo o quinto convento desta ordem em Portugal, abriu oficialmente no dia 8 de Dezembro. A comunidade atingiria, apenas em 1688, as 21 freiras, número ideal estipulado pela regra de Santa Teresa. No alvorecer do dia seguinte à chegada, dedicado à Imaculada Conceição, procedeu-se à celebração da primeira eucaristia, à entronização do Santíssimo Sacramento e à efectivação da cerimónia de clausura. Embora as instalações já permitissem a habitação, a campanha de obras prolongou-se bastante. miniaturadaimagem|306x306px|Anunciação de André Gonçalves Após o falecimento de D. Luísa de Távora, em 1692 (ou 1693, consoante as fontes), com o edifício ainda inacabado, o patrocínio transitou para o seu herdeiro, o seu neto D. José de Meneses e Távora. Por disposição testamentária da fundadora, cabia-lhe continuar a obra e determinar o lugar do seu túmulo na capela, vontade que terá ficado por cumprir, visto nunca ter sido aí sepultado. Para assegurar o sustento das religiosas, D. Luísa legara rendimentos provenientes de propriedades em Almada, Sesimbra, Setúbal e Lisboa. As empreitadas foram dadas como terminadas por volta de 1703, ano da morte do neto, o que não impediu que o convento continuasse a ser erguido e decorado. Diversos artífices de renome colaboraram nesta fase, destacando-se o arquitecto João Antunes e o entalhador José Rodrigues Ramalho, a quem se atribui a execução do retábulo da igreja em 1688. O desenho dos embutidos a brecha da Arrábida para o embasamento da capela-mor data de 9 de Fevereiro de 1693, tendo sido concebido por Ramalho e Antunes e executado pelos pedreiros Manuel Antunes, João Teixeira e João Esteves. No século XVIII, a igreja foi enriquecida com painéis de azulejos de António Pereira Ravasco e produções pictóricas de Bento Coelho da Silveira (finais do séc. XVII), de André Gonçalves (cerca de 1720, responsável por uma Anunciação, Adoração dos Pastores, Coroação da Virgem e uma Imaculada para a boca da tribuna, bem como uma outra Coroação da Virgem concebida especificamente para o coro-alto) e de Vieira Lusitano (que pintou uma Nossa Senhora da Conceição). miniaturadaimagem|319x319px|O Convento dos Cardais em inícios do século XVIII, conforme o painel Grande Panorama de Lisboa, presente no Museu Nacional de Arte Antiga
Sismo e reconstrução O terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou danos no complexo arquitectónico, forçando as freiras a recolherem-se temporariamente em barracas de madeira erguidas provisoriamente no interior da cerca. Os registos das Memórias Paroquiais datados de 26 de Abril de 1758, redigidos pelo pároco Joaquim Ribeiro de Carvalho, atestam a permanência das mulheres nestas barracas e referem a sujeição das mesmas aos religiosos do Convento dos Remédios à Estrela, sob a protecção do então governador da Torre Velha, D. José de Meneses de Távora.
Apesar dos reveses materiais, a atracção pelo mosteiro manteve-se sólida, registando-se a admissão de 103 religiosas ao longo da sua existência. A adesão foi particularmente notável no século XVIII, verificando-se a entrada de 29 noviças num intervalo de apenas 19 anos, enquanto a média de admissões entre 1701 e 1833 era de uma freira a cada par de anos.
Assistência social a cegos O decreto que extinguiu as ordens religiosas masculinas em 1834 ditava o fecho do convento assim que se desse a morte da última freira, e tal aconteceu no mês de Abril de 1876, com o falecimento da irmã Gertrudes Maria José. Perante este facto, a 12 de Abril o Ministério dos Negócios Eclesiásticos comunicou a vacatura à tutela da Fazenda para efeitos de expropriação, formalizando a posse estatal. Na prática, a vida religiosa nunca chegou a ser interrompida e o edifício não passou imediatamente para a Fazenda Pública. Nos alvores de Maio desse ano, o 2.º Marquês de Valada, D. José de Meneses da Silveira e Castro, descendente da instituidora, contestou a apropriação governamental reivindicando os direitos fiduciários sobre o imóvel, pretensão que acabou por ser rejeitada.
Nesse mesmo ano, a Associação de Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, vocacionada para o auxílio à pobreza oculta e idosa e criada por um grupo de senhoras (onde se incluía D. Maria Miquelina Pereira e Pinto) em 1847 ou 1848, peticionou ao rei D. Luís a cedência do espaço para a instalação de um refúgio destinado a mulheres cegas, concretizando indirectamente um projecto assistencial já idealizado em 1834 pela Viscondessa de Valmor. Desde 1853 que esta Associação era presidida pela 3.ª Condessa de Rio Maior (sogra da Viscondessa de Rio Maior, aia da Rainha D. Maria Pia), cuja filiação na velha nobreza da corte terá pesado na decisão, contando também na direcção com a sua filha Teresa Saldanha, futura fundadora da Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena em Portugal (1868). O Estado anuiu à solicitação, à semelhança do precedente ocorrido com o Convento de Marvila (convertido no Asilo de D. Luís I), através de um ofício de 24 de Outubro de 1876, cedendo à instituição "o extinto Convento dos Cardais de Jesus, com a cerca, igreja e suas pertenças para servir de Asylo aos cegos desvalidos". A transferência provisória foi oficializada por diploma a 28 de Julho de 1877 (com a concessão régia atribuída, noutras fontes, em 1878), estabelecendo a reversão a favor do erário público se estritamente necessário.
A instituição tomou conta do recinto a 13 de Novembro de 1877, promovendo uma profunda reabilitação que ascendeu a 5.314.410 réis, englobando a introdução de redes de distribuição de água por 71.790 réis e gás iluminante por 47.800 réis. A inauguração oficial do asilo consumou-se a 16 de Julho de 1878, com a celebração prévia de um Te Deum, procedendo-se ao acolhimento inicial de sete mulheres cegas sob a orientação das Irmãs Terceiras Dominicanas. Esta congregação já colaborava com a Associação e a sua presença mantém-se até à actualidade, assistindo cerca de quarenta internas. É de sublinhar que o prelado que assistia as carmelitas, o padre Manuel António Alves, transitou para a nova administração exercendo idênticas funções pastorais. A posse definitiva das instalações foi ratificada por via legislativa através do Diário do Governo a 22 de Julho de 1893, impulsionada por uma proposta parlamentar do deputado Tomás Ribeiro. Através desta diligência, o rei D. Carlos concedeu em definitivo o convento e todo o seu recheio à Associação.
Contemporaneidade Com a implantação da República em 1910, as freiras chegaram a ser presas, mas por apenas dois dias, uma vez que o choro das internas cegas tornava a situação demasiado incómoda para as autoridades. A importância patrimonial do recinto mereceu reconhecimento oficial a 26 de Setembro de 1940, quando o espaço foi decretado , classificação que sofreu uma breve suspensão a 1 de Novembro, motivada por questões relacionadas com a propriedade particular, mas que se consolidou com nova legislação em 1943. O edifício sofreu sérias patologias estruturais devido a um abalo sísmico ocorrido em Fevereiro de 1969, desencadeando intensas campanhas de consolidação das coberturas e da capela-mor. Antes, em 1968, os novos estatutos da Associação já haviam transformado o asilo numa escola, permitindo a admissão de outras pessoas com deficiências profundas.