thumb|Um reciário atinge um secutor com o seu tridente, neste mosaico da vila de Nennig, c.

Reciário ou retiárioDicionário Houaiss, verbete "retiário". (; plural: retiarii) era um tipo de gladiador do Império Romano que lutava equipado como um pescador: uma rede ou tarrafa (rete - origem do nome), um tridente (fuscina ou tridens) e um punhal de lâmina curta (púgio). O reciário usava uma armadura só num dos braços (manica: manga), e uma protecção no ombro (galero). O seu vestuário limitava-se a um tipo de tanga (subligar) preso por um cinto largo ou por uma pequena túnica com pouco acolchoamento; não usava protecção nos pés nem na cabeça.

Era habitual o reciário lutar com um secutor fortemente armado. Dado estar em desvantagem em termos de protecções, o reciário utilizava a sua agilidade e rapidez de movimentos para evitar os ataques do seu agressor, esperando pela melhor oportunidade para contra-atacar. Tentava, em primeiro lugar, atirar a rede sobre o seu rival. Se tivesse sucesso, atacava de seguida com o seu tridente, enquanto o rival se debatia com a rede. Outra táctica era apanhar a arma do seu oponente com a rede, atirando-a para fora do seu alcance, ficando aquele em desvantagem.

Se falhasse, ou se o secutor o agarrasse, o reciário largava a sua rede, embora tentasse recuperá-la de novo para um segundo ataque. O reciário ficava dependente do seu tridente e do seu punhal para terminar o combate. O tridente, da altura de um homem, permitia ao gladiador atacar rapidamente, mantendo a distância. Era uma arma muito poderosa, que podia infligir ferimentos graves no crânio ou nos membros desprotegidos. O punhal era a última arma a ser utilizada, caso ficasse sem o tridente; ficava reservada para combate corpo-a-corpo. Em alguns combates, um reciário podia ter de lutar com dois secutores em simultâneo. Nestas situações, o gladiador, com pouca armadura, era colocado numa plataforma elevada, e davam-lhe um abastecimento de pedras para manter os agressores afastados.

A primeira presença dos reciários numa arena data do , tornando-se uma presença habitual nos dois séculos seguintes. A não utilização de armadura e as tácticas evasivas utilizadas por estes gladiadores, levava a que fossem vistos como a categoria mais baixa daqueles, chegando mesmo a serem considerados como efeminados. Algumas passagens de obras de Juvenal, Séneca, e Suetónio, sugerem mesmo que aqueles que lutavam com uma túnica (retiarii tunicati) eram ainda mais desprezados, sendo considerados como palhaços e não como verdadeiros lutadores. Ainda assim, as pinturas, gravuras e a arte romana em geral, mostravam reciários como bravos combatentes e amantes.

História thumb|Relevo mostrando um combate entre um secutor e um reciário

Os gladiadores romanos eram agrupados por categorias baseadas no mundo real.Duncan 204. A maior parte das categorias tinha por base a organização militar; o reciário (lutador-de-rede ou homem-rede)Baker 53.Ward 39. era, no entanto, uma excepção, pois fazia referência ao mar.Junkelmann 59. Poucas foram as lutas de gladiadores realizadas na água, o que pode ter levado ao aparecimento de um gladiador baseado num pescador. As lutas entre diferentes tipos de gladiadores tornaram-se populares no período do Império Romano;Junkelmann 61. os combates entre o reciário e o secutor tornaram-se a luta entre um pescador e um peixe estilizado. No início, o gladiador mirmilão tinha um peixe no seu capacete;Oxford Classical Dictionary, "Gladiators" e os secutores uma armadura com escamas. No entanto, devido às grandes diferenças nas armaduras e nos braços entre os dois, levaram as lutas a novos extremos. A arte e a literatura romanas não mencionam os reciários senão no início do período Imperial; por exemplo, não há qualquer gravura, ou pintura, datada do , nas ruínas de Chieti e Pompeia. Mesmo assim, alguns desenhos e objectos encontrados em Pompeia indiciam a existência desta classe.Jacobelli 48. Os combates entre reciários e secutores tornaram-se populares no início do ; os "lutadores-de-rede" tornaram-se numa das categorias principais nos séculos II e , mantendo-se uma das atracções das lutas entre gladiadores até ao fim daquelas.Junkelmann 51, 59–60. Para além do simbolismo inerente em conflitos do tipo "homem contra a natureza",Duncan 206. os reciários eram vistos como o lado feminino, ou o oposto, dos fortemente armados secutores. O reciário era visto como "a água do fogo do secutor", um sempre a mover-se e a escapar, e o outro determinado a não fugir.Auguet 78. Um outro tipo de gladiador, o laqueário (laquearius), "o homem do laço", era semelhante ao reciário mas, em vez de uma rede, lutava com uma corda que tinha um nó em laço.Grant 60.

Quanto menos armadura usada e, consequentemente, mais exposição do corpo, mais baixo o status de gladiador e maior o grau de feminilidade.Braund 159. Da mesma forma, a própria rede podia ter sido considerada como um símbolo feminino.Edwards 93, note 47. Em resumo, a pouca potência das suas armas e a falta de uma armadura completa, classificava o reciário como o mais baixo, mais desprezado e mais feminino de todos os gladiadores. Os elmos permitiam a ambos os gladiadores, e aos espectadores, ignorar o lado humano dos lutadores; quando um deles tinha que matar o outro, alguém com tinha vivido e treinado todos os dias, o elmo impunha uma separação. No entanto, o reciário estava isento de usar o elmo; o seu rosto era visível a todos.Junkelmann 68. O imperador Cláudio mandava executar todos aqueles que perdiam o combate por forma a que os espectadores pudessem regozijar com o seu sofrimento.Auguet 49.

O estilo de combate do reciário era outro ponto fraco, pois fugir e esquivar-se do adversário era visto como fraqueza comparado com o combate directo e troca de golpes.Baker 55–56. Os reciários viviam nas piores condições.Grant 60–61. Alguns deles treinavam para ascender à classe dos samnitas.Grant 61.

Existem indícios que os reciários que usavam túnicas, os retiarii tunicati, formavam uma sub-classe ainda mais desprezada.Cerutti e Richardson 589. O escritor satírico Juvenal escreveu:

Esta passagem sugere que os reciários "de túnica" eram treinados com um objectivo diferente, "em servidão, sob disciplina rígida e sob certas restrições".Cerutti e Richardson 590–591. Alguns homens efeminados mencionados por Séneca no seu Naturales quaestiones, eram treinados como gladiadores e poderão corresponder aos reciários "de túnica" citados por Juvenal.Séneca, Naturales quaestiones 7.31.3; citado em Cerutti e Richardson 589–590. Suetónio refere na sua anedota: "Uma vez, um grupo de cinco reciários em túnica, combateram contra o mesmo número de secutores, sendo derrotados sem qualquer luta; mas, quando a sua execução foi anunciada, um deles pegou no seu tridente e matou todos os vencedores." A reacção do Imperador Calígula mostrou o desgosto que tinha em relação aos gladiadores: "Calígula lamentou isto através de uma proclamação pública, mencionando que considerava um homicídio mais cruel, e expressou seu horror em relação àqueles que tiveram a coragem de testemunhá-lo."Suetonius XXX. O destino dos reciários não é revelado. Provavelmente, aquela não terá sido um competição habitual, pois os verdadeiros gladiadores não se rendem assim tão facilmente.Cerutti e Richardson 594. Em vez disso, os reciários "de túnica" poderão ter actuado de forma humorística nesse combate.

A segunda sátira de Juvenal, onde ele critica a imoralidade da sociedade romana, introduz um elemento da família dos Gracos que é descrita como "uma homossexual casada com um tocador de trompa".Cerutti e Richardson 591. Mais tarde, Gracos aparece na arena:

esquerda|thumb|Um mirmilão vitorioso contra um reciário em Pollice verso (pintura de Jean-Léon Gérôme, 1872). Gracos aparece novamente na sátira oito, como o pior exemplo dos nobres romanos que fizeram má imagem de si próprios, aparecendo em espectáculos públicos e divertimentos populares:Cerutti e Richardson 592.

A passagem é obscura, mas Cerutti e Richardson argumentam que Gracos inicia a luta como um reciário com tanga. Quando o resultado da luta começa a ser-lhe desfavorável, veste uma túnica e uma peruca de mulher (spira),Evans 90 traduz como "high-peaked cap", e Baker 56 como "notável homossexual de braço-armado ". aparentemente do mesmo conjunto e, assim, acaba por obter um indulto, embora este traje possa não ser visto como feminino dado ser também usado pelos sacerdotes de Marte, de quem Gracos era o chefe. Esta troca de vestimenta alterava o significado de uma luta sangrenta para uma cena cómica, envergonhando o adversário. Não é habitual ver um gladiador descrito desta forma numa sátira, pois estes lutadores eram homens "musculados, brutos, sexualmente bem sucedidos com mulheres de alto e baixo estatuto social, nomeadamente com as primeiras, quase sem educação e pouco inteligentes."Cerutti e Richardson 593. A descrição do "reciário de túnica" nas sátiras é precisamente o oposto: "uma imagem caricaturada de gladiador, de sexo indefinido, bem vestido, normalmente como uma mulher, lutando com um secutor ou mirmilão, numa luta de gladiadores encenada."

Armas e armaduras thumb|Nesta cena do mosaico de Zliten (c. 200), um reciário armado apenas com um punhal ergue o seu dedo em sinal de rendição. O seu tridente está caído junto aos pés do seu adversário, um secutor; a sua rede encontra-se desparecida.

O reciário é o tipo de gladiador mais facilmente identificável dadas as característica do seu equipamento: uma protecção de braço (manica: manga), uma protecção de ombro (galero), uma rede (rete), um tridente (fuscina ou tridens) e um punhal (púgio). (tecnicamente, não se pode afirmar que o reciário era um gladiador pois não lutava com uma espada - gládio - origem do nome gladiador, gladius). A sua armadura, e as suas armas, podiam estar decoradas. Um punhal de gladiador com decorações, encontra-se em exposição no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles.Wisdom 32. Três protecções de ombro decoradas, foram encontradas por arqueólogos nas casernas dos gladiadores, em Pompeia: uma tem gravado uma âncora, um caranguejo e um golfinho; outra com um cupido e a cabeça de Hércules; e uma terceira com armas e a inscrição "RET/SECUND" ("reciário, segundo posto").Jacobelli 13–14.

Embora a rede fosse a característica diferenciadora deste gladiador, poucas são as imagens deste equipamento. É provável que tenham ocorrido batalhas com a utilização de redes, no entanto, experiências actuais, e comparações com redes de pesca, são as únicas pistas para como terão sido construídas as redes. Esses dados sugerem que a rede era circular, de malha larga, com cerca de 3 m de diâmetro e pesos ao longo do bordo. Ao longo do bordo da rede, corria uma corda que estava presa à cintura do gladiador.Wisdom 31–32. Dado ser atirada, a rede era, por vezes, designada por jáculo (iaculum).

O reciário complementava a sua rede com um tridente de ferro ou bronze (fuscina, fascina ou, menos usual, tridens)Braund 159 designa-o por fascina, mas grande parte das fontes escrevem fuscina. cujo comprimento equivalia à altura de um homem.Auguet 57. Um crânio encontrado numa sepultura em Éfeso, no que é hoje a Turquia, mostra alguns buracos que sugerem que foi atingido por um tridente. Os buracos têm cerca de 5 cm de largura e coincidem com um tridente de bronze encontrado no porto de Éfeso, em 1989. Os dentes do tridente têm cerca de 21,6 cm de comprimento.Follain 2.

Um punhal (púgio), era a última arma do gladiador.Junkelmann 60. Um túmulo encontrado na Roménia mostra um reciário a empunhar um punhal com quatro pontas (designado por quadrente, quadrens) em vez do habitual punhal de gume simples. Pensou-se, no início, que esta imagem seria apenas fruto da criatividade do artista que a elaborou ou uma arma cerimonial, mas escavações mais recentes descobriram um osso de um fémur, num túmulo de um gladiador em Éfeso, com feridas consistentes com um ferimento provocado por um quadrente.