Um calendário é um sistema de organização dos dias. Isso é feito atribuindo-se nomes a períodos de tempo, em geral dias, semanas, meses e anos. Uma data é a designação de um dia único e específico dentro desse sistema. O termo também designa o registro físico, muitas vezes em papel, de tal sistema. Pode ainda significar uma lista de eventos programados, como um calendário judicial, ou uma relação parcial ou inteiramente cronológica de documentos, como um calendário de testamentos.

Os períodos de um calendário, como anos e meses, costumam, embora não obrigatoriamente, ser relacionados aos ciclos do Sol ou da Lua. Muitos calendários pré-modernos eram lunissolares: utilizavam meses lunares e acrescentavam, quando necessário, um mês intercalar para manter o ano próximo das estações solares.

Etimologia O termo calendário deriva do latim kalendae, nome dado ao primeiro dia do mês no calendário romano, relacionado ao verbo latino calare, "anunciar".Na Roma antiga, o começo do mês era anunciado em voz alta. A ideia de calendário estava, portanto, ligada a um aviso público, e não apenas a uma tabela escrita. Em latim, calendarium significava "livro de contas, registro", pois as dívidas venciam e as contas eram acertadas nas calendas de cada mês.Esse “livro de contas” era parecido com um caderno financeiro: nele se anotavam dívidas, juros e as datas em que os pagamentos deveriam ser feitos. O termo passou pelo francês antigo calendier antes de chegar a outras línguas europeias.

História Para uma abordagem histórica específica, veja História dos calendários.

esquerda|miniatura|upright=1.05|alt=Fragmentos de uma inscrição romana em pedra, organizados em colunas com letras e números|Os fastos romanos tornavam pública a organização ritual e cívica do mês. De kalendae e calendarium deriva o nome moderno do calendário.

Com o desenvolvimento da escrita, sistemas calendáricos do Antigo Oriente Próximo, entre eles os do Egito e da Mesopotâmia, tornaram-se alguns dos primeiros a ser documentados em detalhe.Povos anteriores também reconheciam estações e ciclos celestes. A escrita tornou possível fixar essas contagens, copiá-las e administrá-las por longos períodos.

Durante a civilização védica, a Índia desenvolveu uma metodologia sofisticada de medição do tempo e calendários para os rituais dos Vedas.A data e a hora de uma cerimônia podiam fazer parte do próprio ritual. Por isso, acompanhar os movimentos do céu tinha também uma função religiosa prática. Segundo Yukio Ohashi, o calendário Vedanga da Índia antiga baseava-se em estudos astronômicos do período védico e não derivava de outras culturas.

A tradição dos calendários hindus desenvolveu-se a partir de textos e práticas astronômicas de épocas diferentes, entre eles o Vedanga Jyotisha e o Sūrya Siddhānta, e foi aperfeiçoada por astrônomos como Āryabhaṭa, Varāhamihira e Bhāskara II.

esquerda|miniatura|upright=1.05|alt=Sol poente alinhado com uma abertura entre rochas em uma paisagem montanhosa|O alinhamento do equinócio em Fondachelli-Fantina, na Sicília, relaciona a contagem do tempo às estações por meio de um marco solar.

O calendário babilônico exerceu ampla influência no Antigo Oriente Próximo, mas a relação entre as tradições calendáricas da região não forma uma genealogia simples. A administração aquemênida empregou tanto o calendário babilônico quanto sistemas iranianos; o antigo calendário persa era lunissolar, enquanto a origem e a cronologia do posterior calendário zoroastriano permanecem debatidas. Na Judeia, a conquista babilônica alterou o calendário civil e a maneira de contar os anos; nomes de meses babilônicos continuaram na tradição do calendário hebraico.

Na Grécia Antiga desenvolveram-se numerosos calendários helênicos, e modelos gregos influenciaram o calendário romano. Durante o período helenístico, conceitos da astronomia grega também foram incorporados à astronomia matemática indiana, embora os calendários indianos tenham tradições próprias.

Na China imperial, a elaboração e a publicação do calendário oficial eram prerrogativas da corte. Astrônomos imperiais preparavam um almanaque anual com previsões de fenômenos celestes, e a exatidão desse trabalho estava ligada à legitimidade do soberano dentro da noção do Mandato do Céu.Publicar o calendário era também uma forma de governar: a corte definia datas de trabalho, festas e rituais e mostrava que conseguia interpretar corretamente o céu.

esquerda|miniatura|upright=1.05|alt=Disco circular de pedra coberto por figuras e símbolos dispostos em anéis concêntricos|A Pedra do Sol reúne ciclos rituais e astronômicos do calendário asteca em anéis que ordenam datas cerimoniais e ciclos do tempo.

Fora da Eurásia, desenvolveram-se sistemas próprios de organização do ano e das atividades sociais. Na Mesoamérica, os maias empregavam simultaneamente um calendário ritual de 260 diasEsse ciclo de 260 dias não pretendia reproduzir a duração do ano solar. Ele servia sobretudo para ordenar cerimônias, nomes de dias e práticas divinatórias. e um calendário agrícola de 365 dias, cujas combinações formavam uma Roda Calendárica de cerca de 52 anos. Entre povos aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres, na Austrália, calendários sazonais tradicionais organizam o ano por indicadores ambientais, ciclos de plantas e animais e condições meteorológicas, com números e limites de estações que variam entre as comunidades.Nesses calendários, uma estação pode começar quando certa planta floresce ou um animal aparece. Ela não precisa coincidir com as quatro estações de datas fixas comuns em países de clima temperado.

Muitos calendários da Antiguidade eram lunissolares e dependiam da introdução de meses intercalares para alinhar os anos solar e lunar; outros, como o calendário civil egípcio, eram solares.Doze meses lunares duram menos que um ano solar. De tempos em tempos, acrescentar um mês inteiro impede que as datas sazonais se desloquem pelo ano. Nos sistemas lunissolares, a intercalação podia depender de observações ou de regras, como sugere o fragmentário calendário de Coligny, do século II d.C.

direita|miniatura|upright=1.1|alt=Tabuleta de argila coberta por linhas de escrita cuneiforme|Uma tabuleta calendárica babilônica mostra como regras e datas podiam ser fixadas por escrito e consultadas dentro de uma administração que dependia da contagem organizada do tempo.

Os nomes de setembro a dezembro preservam vestígios de uma fase em que março era o primeiro mês do calendário romano e esses meses ocupavam as posições de sete a dez. A tradição romana atribuiu a Rômulo um ano de dez meses e 304 dias, com o inverno fora dos meses nomeados, mas a reconstrução histórica desse calendário inicial permanece incerta.As fontes romanas narravam essa fase muitos séculos depois. Por isso, os dez meses são tratados como uma tradição antiga plausível, não como uma cronologia inteiramente comprovada.

Júlio César ordenou a reforma do calendário romano em 46 a.C.; o calendário juliano entrou em vigor em 45 a.C. e passou a empregar uma regra de intercalação com um dia bissexto a cada quatro anos. Isso dissociou o mês do ciclo da lunação. O calendário gregoriano, introduzido em 1582, suprimiu três dias bissextos a cada quatro séculos e reduziu a diferença entre o ano calendárico médio e o ano solar.Blackburn e Holford-Strevens (2003), pp. 682–683.Uma diferença anual muito pequena se acumula ao longo dos séculos. Foi esse acúmulo que fez as datas sazonais se afastarem aos poucos no calendário juliano.

esquerda|miniatura|upright=1.15|alt=Fragmentos de placas de bronze cobertos por inscrições, recompostos em um painel retangular|No calendário de Coligny, a intercalação buscava conciliar meses lunares com o ano solar, o mesmo problema enfrentado por outros calendários lunissolares.

Durante o início da Idade Moderna, a adoção do calendário gregoriano limitou-se em grande parte às nações católicas romanas, mas depois se ampliou por razões administrativas e pela conveniência oferecida ao comércio internacional. Entre os países europeus de tradição ortodoxa, a Grécia foi o último a substituir o calendário juliano para fins civis, em 1923.Blackburn e Holford-Strevens (2003), pp. 682–689.A mudança não ocorreu ao mesmo tempo em todos os lugares. Diferenças religiosas e políticas fizeram países vizinhos usarem datas distintas durante séculos.

O calendário islâmico não intercala meses para acompanhar o ano solar. Seus doze meses lunares somam em média cerca de onze dias menos que o ano gregoriano, de modo que as datas islâmicas atravessam gradualmente as estações.A sigla “AH” vem do latim Anno Hegirae, “no ano da Hégira”. Ela indica que a contagem parte da migração de Maomé e seus seguidores de Meca para Medina. Para fins religiosos, o início dos meses pode depender da observação do primeiro crescente lunar; também existem calendários tabulares calculados por regras.

Foram apresentadas diversas propostas modernas de reforma do calendário, como o calendário mundial, o calendário fixo internacional, o calendário do Holoceno e o calendário permanente Hanke–Henry. Nenhuma obteve adoção internacional ampla; entre os obstáculos estiveram os custos da transição e, nos projetos que interrompem a sequência semanal, objeções religiosas.Blackburn e Holford-Strevens (2003), capítulo "Reform of the Calendar".Mudar um calendário afeta muito mais que os nomes dos meses: pode deslocar feriados, contratos, aniversários e a sequência semanal seguida por comunidades religiosas.

Estrutura e classificação

esquerda|miniatura|upright=1.15|alt=Diagrama circular com anéis concêntricos que representam dias, meses, anos e ciclos lunares|Um calendário precisa combinar ciclos de durações diferentes. Neste diagrama, o ciclo metônico relaciona meses lunares e anos solares.

Os calendários podem ser classificados conforme as unidades que combinam, a relação de seus ciclos com fenômenos astronômicos e o método utilizado para determinar as datas.

Unidades e ciclos

direita|miniatura|upright=1.05|alt=Mostrador circular cercado por doze mostradores menores em uma torre de tijolos|O Relógio do Jubileu da Torre Zimmer, em Lier, reúne fases da Lua, ciclo metônico, epacta, equação do tempo, semana, meses, estações e marés numa mesma leitura do tempo.

Quase todos os sistemas calendáricos agrupam dias consecutivos em meses e anos. Os dias também podem ser reunidos em outros períodos, como a semana, e as culturas podem definir unidades adicionais para programar atividades regulares que não coincidam facilmente com meses ou anos.

Alguns calendários empregam um único nível de ciclos: semana e dia da semana — sistema sem ano e com numeração contínua das semanas, pouco comum; ano e data ordinal dentro do ano — por exemplo, o sistema de datas ordinais da ISO 8601.

Outros empregam dois níveis principais: ano, mês e dia — estrutura da maioria dos sistemas, entre eles os calendários gregoriano, juliano, islâmico, hijri solar e hebraico; ano, semana e dia da semana — por exemplo, a data da semana ISO.

A maioria dos calendários combina ciclos mais complexos e acompanha anos, meses, semanas e dias. A semana de sete dias é praticamente universal, embora sua utilização varie, e vem se sucedendo sem interrupção há milênios.Zerubavel (1985).A sequência semanal continua mesmo quando começa um novo mês ou ano. Por isso, uma mesma data cai em dias da semana diferentes ao longo do tempo.

O momento convencionado para a passagem de um dia ao seguinte não é universal. O dia civil moderno começa à meia-noite, enquanto o dia do calendário islâmico começa ao pôr do sol. As observâncias do calendário hebraico também começam ao pôr do sol do dia civil anterior.Isso explica por que algumas festas religiosas começam na noite anterior à data mostrada em um calendário civil.

Identificação, eras e contagem das datas