Roberto Cochrane Simonsen (Santos, — Rio de Janeiro, ) foi um engenheiro, industrial, intelectual, administrador, empresário, escritor e político brasileiro. Atuou como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado federal classista na Assembleia Nacional Constituinte de 1934 e senador por São Paulo. Foi um dos principais defensores da industrialização e do planejamento econômico no Brasil, notabilizando-se pela polêmica travada com o economista Eugênio Gudin em 1944–1945 sobre os rumos da política econômica brasileira.LIMA, Heitor Ferreira. Mauá e Roberto Simonsen: dois pioneiros do desenvolvimento. São Paulo: Editora Edaglit, 1963. (Coleção ensaios)
Origens e formação
Filho de Sidney Martin Simonsen, súdito britânico que se estabeleceu no Brasil ainda jovem, e de Robertina da Gama Cochrane, natural do Rio de Janeiro e oriunda de tradicional família de ascendência escocesa. A mãe era parente de lorde Cochrane, célebre por sua participação nas lutas pela independência de nações sul-americanas. Seu avô materno e padrinho, Inácio Wallace da Gama Cochrane, foi deputado à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo entre 1870 e 1879, dirigiu importante firma de exportação de café em Santos e integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Inácio Cochrane foi também responsável pela fundação da Companhia Melhoramentos de Santos (The City of Santos Improvements), que, com participação de capitais ingleses, organizou os serviços de bondes, luz e água da cidade.
Roberto Simonsen fez o curso primário no Colégio Tarquínio da Silva, em Santos, onde a família vivia. Enviado à capital paulista, passou a residir com o avô materno e cursou o secundário no Colégio Anglo-Brasileiro, tornando-se primeiro aluno da turma. Aos 14 anos, matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo (hoje integrante da Universidade de São Paulo), onde obteve o diploma de engenharia civil em 1909.
Ainda nesse ano, empregou-se na Southern Brazil Railway, considerada à época a melhor ferrovia de São Paulo, permanecendo na empresa até 1910. Casou-se com Raquel Cardoso em 1911.
Início da carreira empresarial em Santos
Em 1912, foi nomeado diretor-geral de obras da Prefeitura de Santos e, logo depois, engenheiro-chefe da Comissão de Melhoramentos do Município. Deixou a administração pública ao fundar, ainda em 1912, em sociedade com os irmãos, a Companhia Construtora de Santos, empresa pioneira na área de planejamento urbano. A companhia realizou diversas obras na cidade, entre as quais a pavimentação de vias, a edificação da Bolsa do Café e da sede da Associação Comercial, uma base de aviação naval, armazéns e agências bancárias. Seguidor dos princípios de Taylor, aplicou métodos de racionalização administrativa na empresa, que, segundo Heitor Ferreira Lima, alcançou expressivo sucesso e deu origem a outros empreendimentos.
Habitação popular e outras iniciativas
Entre os empreendimentos derivados da Companhia Construtora, destacaram-se a Companhia Santista de Habitações Econômicas, destinada à construção de casas para operários, e a Companhia Brasileira de Calçamento. Com o apoio do prefeito Belmiro Ribeiro, Simonsen obteve a sanção, em julho de 1912, da Lei nº 501 da Câmara Municipal de Santos, que concedia incentivos a investidores na construção de casas populares.
Em 1914, a Companhia Santista começou a erguer um conjunto habitacional para operários no bairro de Vila Belmiro, projeto que ficou incompleto em razão dos efeitos da Primeira Guerra Mundial sobre a economia. Simonsen denunciou a "concorrência desleal" exercida pela Prefeitura, que construíra casas de madeira isentas de fiscalização sanitária e tributária, atraindo a preferência popular. As moradias que a Companhia projetara para operários passaram a ser procuradas pela classe média, desviando-se dos objetivos iniciais.
A crise econômica do período levou Simonsen a pedir a liquidação da Companhia Brasileira de Calçamento. Acusado de obter lucros ilícitos nessa operação, conseguiu provar publicamente a falsidade das alegações.
Centro dos Construtores e Industriais de Santos
O prolongamento da guerra estimulou o crescimento fabril em São Paulo, impulsionado pela necessidade de substituição de importações. Nesse contexto, em 1916, Simonsen fundou e presidiu o Centro dos Construtores e Industriais de Santos, entidade voltada ao cadastro de trabalhadores, à criação de serviços de assistência e seguro operário e à instalação de escolas profissionais.
Logo no início de sua gestão, organizou uma câmara de trabalho que, muito antes da criação formal da Justiça do Trabalho, funcionou de maneira não oficial como instância pioneira de conciliação entre patrões e empregados no país. Ainda em 1916, adquiriu a Companhia Parque Balneário.
Projeção nacional e missões internacionais
A partir do fim da Primeira Guerra Mundial, Roberto Simonsen passou a ganhar projeção no cenário público nacional. Em dezembro de 1918, em discurso no banquete oferecido em Santos ao recém-nomeado ministro da Agricultura, Antônio de Pádua Sales, defendeu a substituição dos métodos empíricos de produção pela organização científica do trabalho. Esse discurso, publicado com o título Orientação agrícola brasileira, impressionou Pádua Sales, que o convidou a integrar a missão comercial brasileira enviada à Inglaterra em junho de 1919, chefiada por João Pandiá Calógeras.
A viagem à Inglaterra, iniciada um mês antes da posse de Epitácio Pessoa na presidência da República, teve notável êxito. Simonsen pronunciou discurso solicitando a vinda de capitais e técnicos para auxiliar o crescimento da economia brasileira, além de maior incremento nas relações comerciais entre os dois países. Seus artigos sobre a indústria de carnes frigoríficas e sobre oportunidades de negócios com madeira no Brasil foram publicados pelo Times de Londres.
Durante a viagem, foi nomeado representante do Brasil no Congresso Internacional dos Industriais de Algodão, realizado em Paris em setembro de 1919, onde apresentou trabalho intitulado Possibilidades algodoeiras do Brasil e sugeriu a vinda de especialistas para introduzir no país técnicas de expansão da cotonicultura. Como consequência, veio ao Brasil o técnico Arno Pearce, que publicaria em 1922 o livro Brazilian Cotton. Ainda em 1919, Simonsen participou da Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Washington.
Construção de quartéis para o Exército
Em 1919, a Companhia Construtora de Santos venceu a concorrência para a construção da Companhia Frigorífica de Santos, da qual Simonsen se tornou presidente. Nessa mesma época, assumiu a presidência da Companhia Frigorífica e Pastoril de Barretos.
Em 1920, assinou contrato com Pandiá Calógeras, então ministro da Guerra do governo Epitácio Pessoa, para a construção de 103 estabelecimentos militares em 26 cidades de nove estados, em um projeto oficial de expansão e melhoria das instalações do Exército Brasileiro. A maior parte das obras foi realizada entre princípios de 1922 e fins de 1923, sendo recebidas com hostilidade por parte de certos setores da imprensa, que denunciaram a existência de irregularidades ao novo presidente da República, Artur Bernardes, empossado em novembro de 1922. Ainda assim, Bernardes confiou à empresa novos trabalhos de engenharia no Sul do país, cancelados em dezembro de 1924 a pedido da própria firma devido às revoluções que conflagraram essa região em 1923 e 1924. Uma devassa procedida em 1930 sobre esses contratos confirmaria a correção dos serviços prestados, levando Simonsen a publicar em 1931 A construção dos quartéis para o Exército, em que se defendeu de todas as acusações.
Liderança empresarial na década de 1920
Ao longo da década de 1920, Simonsen consolidou-se como líder empresarial. Em 1923, passou a presidir o Sindicato Nacional dos Combustíveis Líquidos. No ano seguinte, assumiu a direção da Cerâmica São Caetano e, em 1926, criou a Companhia Nacional da Borracha e a Companhia Nacional de Artefatos de Cobre, dando início à fabricação nacional de produtos até então exclusivamente importados.
Seguindo a tradição da família, ingressou no comércio do café, diversificando seus interesses. Em sociedade com o cunhado, Edwin Murray, fundou a Casa Comissária Murray, Simonsen e Cia. Ltda., que, durante o governo de Washington Luís (1926–1930), representou os banqueiros ingleses Lazard Brothers, financiadores do Instituto Paulista de Defesa do Café. Criou também a Companhia de Comércio do Café e a Brazil Warrants, ambas sediadas em Santos.
A questão do asfalto em São Paulo
Em 1923, a prefeitura de São Paulo abriu concorrência para pavimentação da cidade especificando a marca do asfalto a ser utilizada — o asfalto natural produzido na ilha de Trinidad pela monopolista Barber Asphalt Company, cujo importador exclusivo era a firma Monteiro & Aranha. A empresa de Simonsen representava a Barret Company, que produzia um asfalto artificial derivado do petróleo. Com o apoio do vereador Luiz Augusto Pereira de Queiroz, Simonsen iniciou uma polêmica que resultou na publicação O calçamento de asfalto em São Paulo — aspecto técnico.
Fundação do CIESP
Em dezembro de 1926, em entrevista ao O Jornal do Rio de Janeiro, Simonsen afirmou que a indústria e a agricultura se opunham ao rebaixamento artificial da taxa de câmbio determinado pelo governo federal para facilitar as importações. A adoção dessa medida, conhecida como "câmbio vil", levou os importadores a abarrotar o mercado nacional com tecidos estrangeiros, provocando sérias divergências entre empresários do comércio e da indústria, até então reunidos na Associação Comercial de São Paulo.
Em janeiro de 1928, os industriais lançaram chapa própria para concorrer à direção da Associação Comercial, em oposição à chapa ligada ao comércio. A disputa culminou numa ruptura definitiva e na fundação, em 3 de junho de 1928, do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), presidido por Francisco Matarazzo e tendo Roberto Simonsen como vice. Na cerimônia de posse, Simonsen reivindicou ao governo maior proteção tarifária, sustentando que a indústria era motor da soberania econômica do país. Respondeu às acusações de que o setor fabril fosse "artificial" e causador de carestia, argumentando que o problema não era o custo de vida elevado, mas a baixa renda da população.
Revolução Constitucionalista de 1932
O CIESP apoiou a candidatura de Júlio Prestes à presidência da República, opondo-se ao programa da Aliança Liberal (1929). Após a Revolução de 1930, que conduziu Getúlio Vargas ao poder, São Paulo ficou sob a interventoria do tenente João Alberto Lins de Barros, cuja gestão gerou forte resistência das elites políticas locais. A crescente tensão levou, em fevereiro de 1932, à formação da Frente Única Paulista (FUP), movimento que exigia a restauração da autonomia estadual e a reconstitucionalização do país.
Com a deflagração da luta armada em 9 de julho de 1932, Simonsen assumiu a tarefa de converter a indústria paulista para fins bélicos. Sob sua liderança, o CIESP e a Associação Comercial de São Paulo articularam-se para garantir o abastecimento da capital, cercada pelas tropas do Governo Provisório.
Durante o conflito, chefiou a Comissão de Cadastro e Mobilização Industrial, instituída pelo governo revolucionário de São Paulo, e atuou no Conselho Consultivo Econômico estadual, no Departamento Central de Munições e no Conselho de Assistência Civil. Em 30 de setembro de 1932, quando a capitulação estava próxima, convocou reunião da FIESP — cuja presidência exercia em caráter interino — e fez constar em ata a importância do trabalho da entidade na mobilização das indústrias para a guerra. Após a derrota dos paulistas, selada pelo armistício de 2 de outubro, partiu em exílio voluntário para Buenos Aires, de onde retornou semanas depois.
O IDORT e a Escola de Sociologia e Política