Rui Preto Pacheco OSE, (29 de Março de 1922 — 1989) foi um proeminente retratista português. Entre as suas obras, contam-se, entre outros, os retratos do Almirante Américo Thomaz, do Presidente da República do Brasil, José Sarney e do primeiro-ministro da África do Sul, John Vorster.

Biografia Infância Rui Preto Pacheco nasceu na cidade do Porto (Portugal) em 29 de Março de 1922. Filho de pai português e mãe hispano-americana, correm-lhe nas veias os dois sangues da Península Ibérica, de cuja grande tradição artística é um dos poucos representantes autênticos nesta segunda metade do nosso século. A sua natureza essencialmente contemplativa cedo o levou a descobrir o mundo da Pintura e a compreender que só nele poderia realizar o seu verdadeiro destino.

Aos três anos de idade já o seu brinquedo favorito eram os lápis de cores, com os quais desenhava incansavelmente tudo quanto impressionava os seus olhos ainda a familiarizarem-se com o espectáculo da vida… Abriu o seu primeiro estojo de tintas em Mafra, no dia em que fez doze anos.

Convento de Mafra Por essa altura o Conservador do convento, então em obras de limpeza e restauro, impressionado com o talento do pequeno Rui, cedeu-lhe os antigos aposentos reais do histórico monumento para ali poder exercitar sossegadamente os seus pincéis enquanto durassem as obras da empreitada – que se prolongaram durante cinco anos.

Rui aproveitou avaramente esse tempo para progredir no conhecimento e no domínio dos seus meios de expressão.O seu temperamento acentuadamente interiorizado não lhe permitia trabalhar senão só, longe dos olhares estranhos que não deixavam concentrar-se no que fazia. Se se via surpreendido por alguém, mesmo pelas pessoas mais íntimas, suspendia imediatamente o que estava a fazer. Para Rui, desenhar e pintar era obedecer a um impulso que só através da concentração se mantinha e que a presença dos outros, ainda que silenciosa e apagada, quebrava sempre, às vezes de maneira irremediável. A não ser isso, seria apenas mostrar uma habilidade – a coisa que mais repugnava à sua maneira de ser. Assim, a primeira vez que ouviu falar em trabalhar sob a direcção de um professor de pintura, adoeceu de aflição e de angústia. Porque queriam dar-lhe um mestre? Ele sabia o que queria e era capaz de encontrar sozinho a forma que mais lhe convinha para representar na tela as imagens que apareciam, perfeitas, no seu espírito!…Deixaram-no tentar.

Os Quadros existentes no Mosteiro, principalmente os excelentes painéis da basílica, ajudaram-no a resolver as primeiras dificuldades com a composição e a harmonia das cores. E tinha sonhos que ensinavam segredos…

O velho Benvindo Ceia, que andava a restaurar as pinturas do Convento, conheceu o pequeno artista e interessou-se por ele. Juntamente com palavras de grande incentivo, ensinou-lhe os nomes de diluentes e vernizes que lhe eram indispensáveis e deu-lhe conselhos preciosos sobre a maneira de usar as tintas e obter com elas belos efeitos plásticos e cromáticos

A fim de dominar esses efeitos, pintava, sem cessar, quando lhe aparecia pela frente. Mas era a figura humana quem o interessava acima de tudo. No ambiente de passada grandeza que ainda se respirava nos régios aposentos agora ao seu dispor, teve os pedintes da região como seus primeiros modelos-vivos. E o contraste impressionou a sua imaginação de menino-artista – fê-lo pensar, pela primeira vez, que a beleza também pode ter um reverso tecido de angústia e de miséria. Velhos mendigos, que pareciam retirados das páginas da Bíblia ou dos Evangelhos, iam ao Mosteiro posar para ele a troco de alguns escudos para comprar pão, contavam-lhe histórias deste mundo imperfeito, e chamavam-lhe – o menino do Convento.

Rui sentia-se comovido na frente desses pobres seres intimidados pelo grande salão onde eram recebidos, e pintava-os com amor e respeito, muitas vezes de lágrimas nos olhos, numa exaltação de espírito feita de ideias e sentimentos terrivelmente contraditórios.

Influência paterna Em casa, o pai vigiava-lhe os pensamentos, tentando sempre evitar que uma emoção mais forte o lançasse por caminhos errados. Era um homem de fé cristã e vasta cultura humanista, que tinha como centro das suas preocupações intelectuais o estudo incansável dos problemas económicos e sociais do mundo moderno. A presença constantemente tenta desse pai que era, ao mesmo tempo, um mestre, transmitia-lhe, acima de tudo, uma sensação impressionante de dignidade espiritual que era, no seu lar, como numa igreja o perfume do incenso.

Sob a orientação de tal pai, Rui começou cedo a familiarizar-se com um tipo de preocupações que não encontrava eco nas crianças da sua idade, e, por isso, faziam dele um rapazinho sem infância. Gostava de ler, e quando o sol descia no horizonte, escurecendo-lhe o atelier, pegava nos seus livros preferidos, que eram sempre as biografias dos grandes artistas. Esse tipo de leitura libertava-lhe a imaginação e fazia-o sonhar com coisas extraordinárias num mundo onde os seus heróis se chamavam Rembrandt, Holbein e Miguel Ângelo, e os painéis de Nuno Gonçalves ocupavam lugar destacado sob uma luz dourada que descia do alto e se derramava, igualmente, na superfície maravilhosa das Meninas, e de Velazquez.

À medida que o ia guiando intelectualmente, o pai, espírito disciplinado em estudos de natureza eminentemente objectiva, preocupava-se com o temperamento de Rui, tão dado às emoções e ao devaneio, o não arrastassem para além dos seus limites próprios - o que levava muitas vezes o pequeno a refugiar-se junto de sua mãe, que nesse aspecto compreendia melhor. D. Maria de la Soledad era uma senhora de formação romântica, toda afectividade e emoção, a quem a saudade de uma infância rica e feliz, vivida entre rendas brasonadas e requintes de boa educação, impelia constantemente para um passado que há muito levara, no seu país distante banhado pelo Rio da Prata. Sem saber porquê, Rui sentia dever a melhor parte do seu talento àquele ser amado que gostava de lhe falar de tudo poeticamente e nunca mostrava interesse por aquilo que lhe parecia ser apenas a prosa da vida.

Chegada a Lisboa Mas passaram-se os anos e tudo se transformou, um dia, de repente. Em fins de 1939, teve Rui de abandonar o seu Convento, e a vilazinha onde se fez pintor, para acompanhar a família que se mudava para Lisboa. Tinha nessa altura dezassete anos e o destino acabava de encerrar o primeiro capítulo da sua vida.

Começaram, então, na capital, as visitas continuadas aos museus, - suas fontes insubstituíveis de aprendizagem, - às galerias de pintura e às exposições de arte. Conheceu o Chiado, cabeça intelectual do Império! E o Chiado, com os seus poetas e os seus pintores-de-café, os seus críticos cheios de verrina, os seus grupos de elogio-mútuo, desiludiu completamente a ideia que fazia da arte e dos artistas. Voltou a fechar-se na sua solidão, só interrompida pela presença de um velho escritor e jornalista para quem também a arte era a coisa mais séria da vida. Chamava-se Eduardo Frias e desempenhou, até à morte, um papel importante na existência de Preto Pacheco – como seu irmão espiritual, sonhador dos mesmos sonhos e caminheiro de idênticos caminhos.

Início do reconhecimento Tinha o Artista dezoito anos quando o destino trouxe à sua tebaida, inesperadamente, a primeira oportunidade de se tornar publicamente conhecido. Um amigo de seu pai trazia-lhe a notícia de que o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, tendo tido conhecimento do seu caso, desejava encarregá-lo de lhe pintar o retrato para a Galeria Oficial do Patriarcado.

Houve uma reacção de surpresa a tal acontecimento. Um encargo de tanta responsabilidade entregue a um pintor tão jovem, a ainda por cima completamente desconhecido, era caso de espantar. Mas à surpresa sucedeu-lhe a expectativa, e esta moveu a simpatia e o aplauso à obra realizada. Os maiores críticos do País, a começar por Matos Sequeira (O Século – 26 de março de 1941), saudaram nos melhores termos o aparecimento do Artista, augurando-lhe futuro brilhante na pintura portuguesa. Mas Preto Pacheco não se deixou impressionar por isso. Ele sabia exactamente o que queria e em que ponto se encontrava. Resolveu, assim, continuar a trabalhar duramente no seu isolamento, até que a consciência lhe desse luz verde para aparecer ao lado dos melhores. Seis anos depois, sentiu que finalmente podia corresponder ao convite que lhe foi feito para enviar três quadros à Exposição da Primavera da Sociedade Nacional de Belas Artes. O êxito, dessa vez, não teve reticências. O seu trabalho foi distinguido pelo júri da exposição e tanto a Crítica como o Público foram unânimes em ver nele o primeiro retratista da sua Pátria.

Esse triunfo, porém, veio encontrá-lo já marcado pela dor e pelas preocupações da vida. Seu pai havia morrido três anos antes, perto do fim da guerra, e o Pintor, além de casado e com dois filhos, tinha agora a seu cargo a responsabilidade da numerosa família a que pertencia.

No ano seguinte viu-se convidado, por unanimidade, a ingressar no Grupo de Artistas Portugueses – nata de pintores e escultores que se haviam reunido em defesa dos valores característicos da Arte Portuguesa ameaçada pelos adeptos do internacionalismo artístico proposto nos Encontros de Genebra.

A desilusão Preto Pacheco aceitou o convite por concordar abertamente com a necessidade de se preservar uma linha de valores artísticos cujos símbolos se chamavam Nuno Gonçalves, Cristóvão Lopes, Vieira Lusitano, Vieira Portuense, Domingos Sequeira, Miguel Lupi, Silva Porto, Marques de Oliveira, Columbano, Machado de Castro, Soares dos Reis, Francisco Franco. Mas, exactamente por isso, o Grupo de Artistas Portugueses tinha inimigos, e poderosos. Eram aqueles a quem incomodava qualquer frente erguida contra os seus desígnios, só possíveis de realizar depois de destruída a cultura tradicional dos povos.

Tal circunstância abria um novo período na vida do Pintor, cujo êxito alcançado por uma obra cheia de dignidade e de nobreza humana exasperava os que, organizados em grupos de força, atribuíam à arte uma missão unicamente revolucionária, que devia ser realizada entre o cartaz de revolta social e a destruição sistemática da Natureza e do Homem na obra dos artistas.

Profundamente sensível a todas as formas de injustiça, Rui Preto Pacheco nada tinha a objectar aos que se revoltavam contra as injustiças sociais, por demais evidentes, para poderem ser negadas por quem quer que fosse. Mas ele era um artista acima de tudo e entendia que a arte não devia servir nenhuma espécie de ódio, sob risco de se negar a si mesma. No fundo, estava até certo de que nada como o amor poderia servir, na arte como na vida, a causa desse tipo de injustiça. De qualquer modo, e fossem quais fossem as razões, não dava a ninguém o direito de ousar interferir no impulso que o levava a pintar como pintava. Só os não-artistas poderiam negar-lhe esse direito ou combatê-lo por não querer abdicar dele.

E os não-artistas combateram-no, de facto, até lhe tornarem a vida intolerável no país onde nasceu!Independente através de todas as dificuldades que lhe foram criadas, Preto Pacheco pôde, não obstante, realizar uma obra notável, antes de se ver constrangido a abandonar solo pátrio.