Cassandra Rios, pseudônimo de Odette Pérez Ríos (São Paulo, 3 de outubro de 1932 – São Paulo, 8 de março de 2002), foi uma escritora brasileira. Escrevia ficção, mistério e principalmente sobre homossexualidade feminina e erotismo, sendo a primeira escritora a tratar do tema, quebrando um grande tabu nacional. Cassandra Rios acabou sendo perseguida e ameaçada pela ditadura militar, mas não parou jamais de escrever.Deneval Siqueira de Azevedo Filho; Rita Maria de Abreu Maia. Livros e ideias: ensaios sem fronteiras. Arte & Ciência; 2004. ISBN 978-85-7473-131-5. p. 185.
Biografia Odette Pérez Ríos nasceu e cresceu em uma família de classe média alta do bairro de Perdizes, na cidade de São Paulo, em 3 de outubro de 1932. Filha dos imigrantes espanhóis Graciano Fernández Ríos e Damiana Pérez Ríos, ambos naturais da vila da Gudiña, província de Ourense, na Galiza.
Em 1948, aos 16 anos, publicou seu primeiro livro: A Volúpia do Pecado, uma história de amor entre duas adolescentes, se tornando a primeira autora do país de romances eróticos voltados ao universo da homossexualidade feminina.Fernando Lima, Trip Editora e Propaganda SA. Tpm. Trip Editora e Propaganda SA; 2001. ISSN 15194035. p. 11.
Na época, após ter sido rejeitado por todas as editoras de São Paulo, A Volúpia do Pecado foi publicado pela própria Odette com dinheiro emprestado por sua mãe. Sob o pseudônimo de Cassandra Rios, em homenagem a sacerdotisa grega que profetizou o episódio do "cavalo de Troia", o livro de estreia fez tanto sucesso que chegou a ser reeditado nove vezes em pouco mais de dez anos. Até que, em 1962, foi proibido e tirado de circulação por ofender os valores familiares.
"A sociedade rotula o homossexual como cachaça de macumba, não como uísque", brincou a escritora em 2001, pouco antes de morrer, ao lembrar da sua trajetória.
Durante sua carreira Cassandra escreveu mais de quarenta romances que lidam com o tema da homossexualidade.
Em 1986 foi convidada a se candidatar a deputada estadual pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) durante um programa de rádio em que entrevistava Adhemar de Barros. Aceitou e candidatou-se com o número 12169, porém não foi eleita.
Foi, ainda, o primeiro caso conhecido de uma escritora nacional a viver exclusivamente da venda de seus livros, nunca tendo exercido outra profissão.
Com os direitos autorais que recebia de seus livros, a escritora mantinha um padrão de vida elevado: Tinha seu próprio apartamento no Centro de São Paulo, uma casa em Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, uma chácara em Embu das Artes e alguns carros, além de sua própria livraria.
"Escrevi A Santa Vaca de raiva", disse a autora quando questionada se o objetivo do título do livro, que conta as fantasias eróticas por trás de uma jovem considerada boa moça, era chocar. "De tanto me perseguirem, resolvi fazer pornografia, então fiz esse livro. Na introdução, está a minha intenção: Mostrar a força da mulher ao ser chamada de prostituta", contou Cassandra Rios em entrevistas. Este livro lhe concedeu a alcunha de "A escritora mais proibida do Brasil".
Porém, além de não se considerar pornográfica, Cassandra não conseguia entender por que o erotismo era algo a ser combatido pelos ditadores. "Pornografia é a intenção deliberada de chocar. É o sexo pelo sexo. Nos meus livros, o sexo só acontece em função do amor, para realizá-lo plenamente e sem preconceitos", esclareceu a escritora na entrevista à revista Realidade.
Nos anos 1990, a escritora ganhou um programa na Rádio Bandeirantes. Durante uma entrevista ao vivo com o ex-governador paulista Adhemar de Barros, Cassandra foi convidada pelo político a concorrer às eleições de 1986, eleições que marcaram o fim da ditadura. Ela aceitou o convite e se candidatou a deputada estadual por São Paulo pelo PDT, mas não foi eleita.
Ditadura Militar Ninguém foi mais perseguida pelos censores da ditadura militar brasileira do que Cassandra Rios, escritora recordista em vetos durante o regime, com 36 dos seus 50 livros publicados censurados durante a vida - fora algumas edições clandestinas.
Entre 1964 a 1985, anos da ditadura, outras três dezenas de livros da escritora foram proibidos. Ficou conhecida como a "escritora maldita", pela ditadura, devido aos conteúdos publicados, a sua sexualidade em uma época conservadora - a escritora era publicamente lésbica - e a sua popularidade com as classes ricas e pobres incomodaram muito os que estavam no poder.
Apesar da perseguição recorde durante a ditadura militar, com 36 obras censuradas, Cassandra Rios se tornou a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de exemplares, meta alcançada em 1970.
Mesmo censurada, Cassandra era persistente, continuava escrevendo. No final, a própria censura ajudou a transformá-la em um mito. Mais que um xingamento, a fama de escritora maldita se transformou em um rótulo lucrativo para as editoras. Foi uma das pioneiras na profissionalização do escritor no país.
Ainda que fosse um sucesso de vendas e de popularidade entre os anos 1950 a 1980, Cassandra foi perseguida e tirada de circulação com tanta ferocidade pelos militares que até hoje é difícil encontrar seus mais de 50 livros em livrarias e sebos.
Com a perseguição dos censores, Cassandra foi à falência em 1976, ano em que 14 obras da escritora foram censuradas em apenas seis meses. Ela perdeu quase tudo e teve de fechar a livraria temporariamente.
Para sobreviver, Cassandra passou a escrever artigos para revistas e jornais, e criou um pseudônimo: Oliver Rivers, para conseguir publicar livros e equilibrar as contas.
Com seu pseudônimo masculino, Odette conseguia passar pela censura e vender os livros, igualmente eróticos. Isso comprova que a perseguição era contra a pessoa Cassandra, e não só contra sua literatura. A escritora, enquanto assinava seu pseudônimo feminino, Cassandra, foi levada com frequência pelo DOPS para depor, a cada vez que um livro seu era publicado, onde a maioria deles foram queimados. Aqueles que conseguiam comprar as obras proibidas de Cassandra liam os livros com receio de serem descobertos. "Escondiam meus livros debaixo do colchão, meu nome virou palavrão!", contou a escritora em uma entrevista dada em 2001 à revista TPM.
A vida de Cassandra Rios se tornou ainda mais difícil a partir de 1968, com a promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5), que oficializou a censura no país.
O endurecimento da censura pelo AI-5 trouxe diversas consequências para Cassandra Rios - para além da falência. Em uma entrevista à revista Realidade, em março de 1970, a escritora revelou que a censura lhe causava abalo emocional e decepção.
Mesmo escrevendo, com o tempo a escritora passou a ter medo dos militares, se tornando muito reclusa. A perseguição da ditadura a deixou muito mais reservada.
Enraivecida com a censura de suas obras e com o rótulo de pornográfica - Cassandra não gostava desse estereótipo -, a escritora publicou A Santa Vaca, em 1978, uma espécie de resposta à perseguição e difamação causada pelos militares.
Vida pessoal Casou-se na igreja aos 18 anos, com seu melhor amigo gay. A união, contudo, era de fachada, pois ela queria sair de casa sem contar aos pais sobre sua sexualidade. Após ficar viúva, decidiu assumir publicamente sua homossexualidade para a família e os amigos, e passou a viver sozinha. Manteve relacionamentos estáveis com mulheres anônimas e famosas, mas não quis casar-se.
Em entrevistas, revelou: "Sou uma criatura simples, comum, cheia de problemas, tristezas e amarguras. A vida de escritora tem sido muito dura para mim.".
Falecimento Cassandra Rios morreu aos 69 anos em decorrência de um câncer colorretal no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 2002. alt=Capa do seu livro Um Escorpião Na Balança, de 1965.|miniaturadaimagem|Capa do seu livro Um Escorpião Na Balança, de 1965.
Estética e estilo narrativo A obra de Cassandra Rios articula um coloquialismo do cotidiano com estrutura folhetinesca de aventuras românticas, o que impulsionou sua circulação comercial e, ao mesmo tempo, fixou-lhe um lugar marginal nos circuitos "oficiais" de legitimação crítica.Lira, R. “Meta(na)morfoses lésbicas em Cassandra Rios”. Estudos Feministas, 2013, p. 30-36. Em termos de público, seus romances circularam por um "Brasil subterrâneo", associado ao "prazer proscrito", que lhe rendeu simultaneamente o rótulo de "escritora mais proibida" e alta vendagem.Lira, R., op. cit., p. 40-48. Boa parte dessa recepção se deu num mercado próximo ao pulp, em chave análoga aos romances de banca como Sabrina, Júlia e Bianca, o que moldou horizontes de leitura e expectativas de gênero narrativo.Mantovani, F. Da volúpia do pecado e dos delírios da carne. Tese (Doutorado), 2023, p. 7-11.
O enquadramento como "pornografia" é debatido na crítica. A partir de Susan Sontag, abre-se espaço para reconhecer escritas "pornográficas" que, não obstante, requerem critérios estéticos revisados e podem configurar literatura "séria" — deslocando a discussão de uma redução moral para uma avaliação formal e de efeitos de linguagem.Mantovani, F., op. cit., p. 15-22. No plano discursivo, Dominique Maingueneau situa o pornográfico como discurso atópico (sem "lugar próprio", clandestino), uma chave útil para entender o estatuto de Rios no campo literário; a noção pode ser aproximada das heterotopias foucaultianas, como "lugares-outro" onde pertencimento e desvio coexistem.Amara Moira. Fizera-se mulher: Cassandra Rios, visionária maldita. Cadernos de Literatura Comparada, 2020, p. 51-61.
Forma e procedimentos: metamorfose, tática e folhetim Do ponto de vista estético, a escrita de Rios funciona como um campo de batalha onde se constroem e se desconstroem identidades lésbicas, por meio de transformações linguísticas e diegéticas que suspendem essencialismos e multiplicam modos de existir.Lira, R., op. cit., p. 9-15. Em termos de efeito de linguagem, destacam-se a porno-poética e a dissolução de fronteiras identitárias.Lira, R., op. cit., p. 18-22. A crítica mobiliza ainda o contraste entre estratégias e táticas (Michel de Certeau): em vez de uma posição totalizante, a prosa opera taticamente, com gestos fragmentários e insinuantes que desestabilizam leituras fixas.Lira, R., op. cit., p. 24-33. O resultado aparece, inclusive, em deslizamentos diegéticos e "trocas de nome" que funcionam como sinais de metamorfose no plano narrativo.Lira, R., op. cit., p. 47-54. Essa plasticidade convive com elementos típicos do folhetim: capítulos curtos, ganchos e afetos melodramáticos, em registro coloquial que aproxima narradora e leitorado.Lira, R., op. cit., p. 30-36.
Voz narrativa, montagem e "truque de espelho" Num contexto de censura e disputa pelo sentido público, a crítica aponta que Rios maneja um truque de espelho: alterna posições enunciativas (entre vozes que parecem acatar o olhar normativo e outras que o subvertem), de modo a iludir o controle e ainda assim fazer circular contranarrativas sobre sexualidade e vida urbana.Santos, R. “Cassandra Rios e o surgimento da literatura gay e lésbica no Brasil”, 2003, p. 62-71. Esse procedimento amplia a agência da escrita na (re)apresentação de vidas e subjetividades gays e lésbicas, contra a heteronormatividade dominante.Santos, R., op. cit., p. 19-41.
Temas e arquitetura dos primeiros romances Nos romances de estreia, a construção formal amarra enredo e dispositivo. Em A Volúpia do Pecado (1948), a narrativa acompanha duas adolescentes e mapeia técnicas de poder que normatizam sexualidade e corpo (família, medicalização), em registro que faz da ficção um laboratório de enunciação e conflito.Mantovani, F., op. cit., p. 49-57. A chave histórica da recepção (imprensa, censura, persona autoral) ajuda a entender a oscilação entre moralização e transgressão que estrutura a forma de dramatização do desejo.Santos, R., op. cit., p. 3-11.
Narrativas trans e experimentos de focalização