Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, – Paris, ) foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra À la recherche du temps perdu (Em Busca do Tempo Perdido), que foi publicada em sete partes entre 1913 e 1927.
Oriundo de família rica e culta, de origem judaica por parte de mãe, católica por parte de pai (professor de medicina em Paris), Marcel Proust foi uma criança de saúde frágil, e teve toda a vida marcada por graves dificuldades respiratórias causadas pela asma. Muito jovem, frequentava salões aristocráticos onde conheceu artistas e escritores, o que lhe rendeu a ele sua fama de socialite diletante. Aproveitando a fortuna, viveu sem ter empregos e em 1895 inicia um romance que permanece em estado de fragmentos (publicado em 1952, postumamente, sob o título Jean Santeuil). Em 1900, abandona o projeto e viaja para Veneza e Pádua para descobrir obras de arte, seguindo os passos de John Ruskin, de quem publicou artigos e traduziu dois de seus livros: La Bible d'Amiens e Sésame et the Lilies.
Em 1907, Proust começou a escrever sua grande obra Em busca do tempo perdido, cujos sete volumes foram publicados entre 1913 (Du Côté de chez Swann) e 1927, ou seja, em parte após sua morte; o segundo volume, À l'ombre des jeunes filles en fleurs, ganhou o Prêmio Goncourt em 1919. Em Busca do Tempo Perdido é tanto uma grande reflexão sobre o tempo e memória afetiva, quanto uma reflexão sobre o amor, ciúme, questões existenciais, no qual a homossexualidade ocupa um lugar importante. Também é uma vasta comédia humana de mais de duzentos personagens. Proust recria lugares reveladores, sejam os lugares da infância na casa da tia Léonie em Combray ou os salões parisienses que opõem círculos aristocráticos e burgueses, mundos estes evocados por vezes de forma ácida, por um narrador cativante e irônico. Esse teatro social é animado por personagens muito diversos, cujas características cômicas Proust não esconde: são figuras muitas vezes inspiradas em pessoas reais, o que torna Em busca do tempo perdido, em parte, um roman à clef e a pintura de 'uma época'. A marca de Proust também está em seu estilo com frases muitas vezes muito longas, que seguem a espiral da criação em construção, buscando atingir uma totalidade da realidade que sempre escapa.
Proust morreu em 1922, de uma bronquite maltratada: foi enterrado no cemitério Père-Lachaise em Paris, acompanhado por um grande público que saudava um escritor importante e que as gerações seguintes colocaram no mais alto nível, fazendo dele um mito literário.
Marcel Proust continua sendo o escritor francês cuja obra é a mais traduzida e publicada em todo o mundo. Ele foi considerado por muitos como um dos maiores autores de todos os tempos.Harold Bloom, Genius, pp. 191-224.
Família e infância thumb|180px|Placa comemorativa na rue La Fontaine em Paris. thumb|esquerda|180px|Robert e Marcel Proust, em março de 1876. Proust nasceu em 10 de julho de 1871, na casa de seu tio-avô, no bairro parisiense de Auteuil (o setor sudoeste do então rústico 16.º arrondissement), dois meses após o Tratado de Frankfurt encerrar formalmente a Guerra Franco-Prussiana. Seu nascimento ocorreu no início da Terceira República Francesa, durante a violência que cercou a repressão da Comuna de Paris, e sua infância correspondeu à consolidação da República.
Grande parte de Em busca do tempo perdido diz respeito a essas grandes mudanças, principalmente o do declínio da aristocracia e a ascensão da classe média, que ocorreram na França durante o fin de siècle.
Sua mãe, nascida Jeanne Clémence Weil (Paris, 1849 – id., 1905), era filha de Nathé Weil (Paris, 1814 – id., 1896), que era um corretor da bolsa e de Adèle Berncastel (Paris, 1824 – id., 1890),. pertencia a uma família da classe média alta judaica, cujos membros tiveram um papel importante na história do judaísmo francês (notadamente um tio chamado Godchaux Weil, conhecido como Ben Lévi, que foi um escritor famoso na comunidade judaica;Évelyne Bloch-Dano, Madame Proust, Grasset, p. 58-59. e Adolphe Crémieux , presidente da Alliance Israélite Universelle e ex-ministro, que era o tio-avô e testemunha do casamento de Madame Proust).Évelyne Bloch-Dano, Madame Proust, Grasset, p. 41-42. Vinda de uma formação muito culta, ela conduziu o filho a uma ampla cultura.Tadié, J-Y. (Euan Cameron, trans.) Marcel Proust: A life. New York: Penguin Putnam, 2000. Seu domínio da língua inglesa foi primordial nas traduções de John Ruskin feitas por seu filho.
Seu pai, Dr. Adrien Proust (Illiers, 1834 – Paris, 1903) era filho de François Proust (1800-1801 – Illiers, 1855), um próspero comerciante de Illiers, em Eure-et-Loir, e Virginia, nascida Catherine Virginie Torcheux (Cernay, 1809 – Illiers, 1889). Adrien Proust foi professor da Faculdade de Medicina de Paris, além de um proeminente patologista e epidemiologista francês, que estudava sobre o cólera na Europa e na Ásia. Escreveu numerosos artigos e livros sobre medicina e higiene. Marcel tinha um irmão mais novo, Robert, nascido em 24 de maio de 1873 (falecido em 1935), que se tornou urologista e ginecologista.
Ao longo de sua vida, Proust atribuiu sua frágil saúde às privações sofridas por sua mãe durante a gravidez, por volta de 1870 e, posteriormente, durante a Comuna de Paris.Cyril Grunspan, Marcel Proust : Tout dire, Portaparole, 2005, .Julia Kristeva, invitée de Marc-Alain Ouaknin, « Proust, être juif entre la Madeleine et la Victoire », Les Talmudiques, France Culture, 9 octobre 2013. Foi para se proteger dos problemas causados pela Comuna e sua repressão que seus pais buscaram refúgio em Auteuil. O parto foi difícil, mas o cuidado paterno salvou o recém-nascido.
Como tinha problemas respiratórios, a primavera era a estação do ano na qual ele sofria mais dificuldades.Le seul témoignage est celui de son frère médecin Robert (12 janvier 1923), dans le numéro d'hommage de La NRF à son frère, Marcel Proust, intime : « C’est à l’âge de neuf ans, en rentrant d’une longue promenade au bois de Boulogne que nous avions faite avec nos amis D…, que Marcel fut pris d’une effroyable crise de suffocation qui faillit l’emporter devant mon père terrifié, et de ce jour, date cette vie épouvantable au-dessus de laquelle planait constamment la menace de crises semblables. » O pólen liberado pelas flores nos primeiros dias da estação causava ataques violentos de asma. Aos nove anos, quando voltava de um passeio no Bois de Boulogne com seus pais, estava sufocando, ao ponto de sua respiração não voltar. Seu pai quase o viu morrer..
Proust foi criado na religião católica de seu pai. Ele foi batizado (em 5 de agosto de 1871, na igreja de Saint-Louis-d'Antin) e posteriormente confirmado como católico. Apesar de reunir as condições para pertencer a duas religiões, filho de pai católico e mãe judia que se recusou a se converter ao cristianismo por respeito aos seus pais,. Proust reivindicou seu direito de não se definir em relação a uma religião específica (em todo caso, não a religião judaica), mas escreveu que era católico e seu funeral ocorreu em uma igreja católica. No entanto, em suas correspondências, se pode ler que ele não era "crente”..
Dreyfusard convicto, ele foi sensível ao antissemitismo prevalente de sua época e também foi alvo de ataques antissemitas de alguns autores célebres. Em 1873, nasceu seu irmão Robert.Mireille Naturel, "Chronologie" en Marcel Proust, Un amour de Swann, Flammarion, Paris, 2002, pp. 6-19.
Proust passou longas férias na aldeia de Illiers com os tios Amiot. Jules Amiot viajava muito para a Argélia, onde moravam seus dois filhos; por isso desenvolveu uma tendência para o orientalismo: salão oriental, orangerie, hammam, plantas exóticas, etc. Essa aldeia, combinada com as características da casa de seu tio-avô em Auteuil, se tornou o modelo para a cidade fictícia de Combray, onde acontecem algumas das cenas mais importantes de Em Busca do Tempo Perdido. (Illiers foi renomeado Illiers-Combray em 1971, por ocasião do centenário de Proust).
Juventude 180px|thumb|left|Marcel Proust aos 15 anos, em março de 1887, fotografado por Paul Nadar. Quando jovem, Proust foi aluno de um pequeno curso primário intitulado Pape-Carpantier, no qual teve como colega Jacques Bizet, filho do compositor Georges Bizet (falecido em 1875) e de sua esposa Geneviève Halévy. Ela tinha um salão na casa de seu tio, onde os artistas se encontravam, quando ela se casou novamente, em 1886, com o advogado Émile Straus, abriu seu próprio salão, do qual Proust seria um frequentador assíduo. thumb|180px|Marcel Proust na 2ª fila, 1ª à esquerda, no Lycée Condorcet, 1888-1889. thumb|180px|Marcel Proust, em 1892. A partir de 1882, Proust estudou no Lycée Condorcet, no qual repetiu a quinta série, sendo colocado no quadro de honra pela primeira vez em dezembro de 1884. Muitas vezes faltava por causa de sua saúde frágil, mas já conhecia Victor Hugo e Musset de cor, como a personagem de Jean Santeuil.
Nessa época, se tornou aluno de filosofia de Alphonse Darlu, e manteve amizades com Fernand Gregh, Jacques Baignères e Daniel Halévy (primo de Jacques Bizet), com quem escreve em revistas literárias do ensino médio.
Ele se destacava em literatura e recebeu um prêmio em seu último ano. Graças aos colegas conseguiu acessar alguns salões da mais alta burguesia, que lhe forneceram farto material para a Em Busca do Tempo Perdido.Painter, George D. (1959) Marcel Proust: a biography; Vols. 1 & 2. London: Chatto & Windus esquerda|thumb|180px|Placa da 92 rue du faubourg Bannier, em Orleães, onde residiu durante o serviço militar. O primeiro amor de infância e adolescência do escritor foi Marie de Benardaky, filha de um diplomata polonês, súdito do Império Russo, com quem brincava nos jardins da Champs-Élysées nas tardes de quinta-feira, junto a Antoinettee e Lucie Félix-Faure Goyau (filhas do futuro Presidente da República), Léon Brunschvicg, Paul Bénazet e Maurice Herbette.
Ele parou de ver Marie de Benardaky em 1887, os primeiros impulsos de amar ou ser amado por alguém que não fosse sua mãe haviam falhado. thumb|esquerda|180px|Jean Béraud, saindo do Lycée Condorcet (cerca de 1903), Paris, museu Carnavalet. As primeiras tentativas literárias de Proust datam dos últimos anos do ensino médio. Mais tarde, em 1892, Gregh fundou uma pequena revista, com seus ex-colegas do Condorcet, intitulada Le Banquet, da qual Proust era o colaborador mais assíduo. Sua fama de esnobe surge nessa época, na qual foi apresentado a vários salões parisienses e iniciou sua ascensão social.
Ele se torna amigo de Robert de Billy. Tempos depois, se torna amigo de Lucien Daudet, filho do romancista Alphonse Daudet, que é seis anos mais novo do que ele. O adolescente é fascinado pelo futuro escritor. Eles se conheceram durante o ano de 1895. Sua ligação, ao que parece, sentimental, é revelada pelo diário de Jean Lorrain. thumb|180px|Casa de Proust, em 92 Faubourg Bannier Orleans, durante seu serviço militar. Proust antecipa a convocação e cumpre o serviço militar em 1889-1890 em Orleães, no 76º Regimento de Infantaria, e dele guarda uma feliz lembrança. Foi nessa época que conheceu em Paris Gaston Arman de Caillavet, de quem se tornou um grande amigo, e sua noiva, Jeanne Pouquet, por quem se apaixonou. Ele se inspira nessas relações para os personagens de Robert de Saint-Loup e Gilberte.
Ele também é apresentado ao salão de Madame Arman de Caillavet, a quem permanece ligado até a sua morte e que o apresenta ao primeiro escritor famoso de sua vida, Anatole France (modelo de Bergotte).
Voltando à vida civil, fez cursos na École Libre des Sciences Politiques (ELSP) com Albert Sorel (que o considerou “muito inteligente” em seu exame oral final) e Anatole Leroy-Beaulieu. Seu pai sugeriu que ele prestasse concursos diplomáticos ou fizesse parte da Ècole Nationale des Chartes.Adam Watt, Marcel Proust, 2013, .