thumb|Urna funerária da cultura marajoara miniaturadaimagem|Selo brasileiro de 1975 representando a cerâmica marajoara Os marajoaras ou cultura do Marajó foram uma sociedade que floresceu na Ilha de Marajó ou Rio Amazonas na Era pré-colombiana. Em uma pesquisa, o arqueólogo Charles Mann sugere datas entre 400 e 1600 para a cultura. Contudo, atividade humana desde 1000 a.C. já tinha sido reportada nesses locais. A cultura parece ter persistido na era colonial. A cultura pré-colombiana do Marajó pode ter desenvolvido estratificação social e comportado uma população de 100 000 pessoas.
Fases Considera-se que a sociedade marajoara e a cultura marajoara (termo global) subdividia-se em várias fases distintas de acordo com níveis de ocupação e desenvolvimento social: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Acauã, Alta Marajoara e, Aruã. Nas duas últimas, desenvolveu-se o que chama-se de civilização (caracterizada basicamente por construção de comunidades fixas), chamadas de Cacicados Amazônidas, que ia desde o Tapajós até a foz do rio Amazonas. Essa sociedade indígena no período de 400 a 1400 d.C levantavam suas casas sobre morros artificiais, estrutura elevada que protegia das inundações, chamados de teso.
Antecedentes Trabalhos sofisticados em cerâmica, grandes pinturas elaboradas e desenhos com representações de plantas e animais são a descoberta mais impressionante na área e forneceram a primeira evidência de uma sociedade complexa no Marajó. Evidências de construção de montículos (pequenas colinas artificiais) sugerem, ainda, uma área bem povoada. No entanto, a extensão do nível de complexidade e as interações de influências da cultura Marajoara são contestados. Trabalhando na década de 1950, Betty Meggers sugere que a sociedade migrou dos Andes e se estabeleceu na ilha.
Origem dos montes
Hipótese antropogênica Na década de 1980, contudo, liderou escavações e levantamentos geofísicos do montículo de "Teso dos Bichos", e concluiu que a sociedade que construiu os montes se originou na própria ilha. Os nativos americanos da amazônia podem ter usado a terra preta para conseguir desenvolver uma agricultura em grande escala, necessária para alimentar grandes populações e formações sociais complexas, como chefias. Betty Meggers posteriormente, considerando o baixo potencial agrícola da região para o suporte de uma grande população, supôs a ascensão e queda da cultura marajoara como ocorrendo em torno da exploração e esgotamento de sagueiros.
Sedimentação fluvial Rossetti et al. propôs que os assentamentos arqueológicos associados com montes isolados ou compostos foram "sistematicamente desenvolvidos em cima de extensas superfícies elevadas formadas devido a processos sedimentares naturais".
Assim, os grandes montes marajoaras ou tesos não são inteiramente artificiais. Em vez disso, os marajoaras aproveitaram montes naturais preexistentes como superfícies elevadas que servissem às suas comunidades. Esta interpretação sugere menos investimento em trabalho acumulado na construção dos montes.
"Vários montículos na Ilha do Marajó e na Bolívia têm rendido datações de 1000-300 a.C. nos níveis iniciais, o que sugere que os primeiros montes da cultura foram construídos sucessivamente no período em que a horticultura parece generalizar-se pela primeira vez."
Agricultura e economia Restos mortais na Ilha do Marajó apresentam um padrão de subsistência que dependeu fortemente de pequenas sementes, bem como de pequenos peixes, que foram ou cultivados ou protegidos pelos povos indígenas. Infelizmente, muitos dos restos das sementes carbonizadas ainda não foram identificadas, embora parecem ser herbáceas e derivadas de gramíneas locais.Roosevelt, 1991: 377, 405. Árvores como o açaí e tucunzeiros (Bactris setosa) também forneceram suplementos importantes na dieta marajoara, além de serem usadas para a fabricação de itens como cestas ou canoas.Roosevelt 1991; Meggers 1957. Outras evidências de restos humanos mostram que os povos marajoaras não consumiam pesadamente raízes ricas em amido, como a mandioca; em vez disso, os padrões de desgaste pesado de dentes sugerem uma dieta baseada predominantemente em sementes, frutos de árvores e peixes.Roosevelt, 1991: 394-395. Dado que os peixes pequenos compõem a maioria da biomassa da fauna local e há relativamente poucos animais terrestres na ilha, segue-se que os povos pré-históricos focavam sua alimentação nas populações abundantes de peixes pequenos.Roosevelt, 1991: 23. O método para a captura de peixes foi provavelmente muito semelhante às actuais técnicas dos índios da Amazônia, que incluem a técnica de pesca com lianas tóxicas (o timbó), que consiste em intoxicar as águas dos rios com o timbó e, depois, retirar os peixes quando estes flutuam à superfície. Este método de colheita de massa não é tão útil na época das chuvas, sendo mais usado durante os meses de seca, quando os peixes são capturados em córregos ou lagoas recuadas.Roosevelt, 1991: 382-383.
A tecnologia agrícola no Marajó era limitada, principalmente, a machados de pedra que foram introduzidas na Fase Marajoara.Meggers 1957: 603. Outros artefatos de pedra incluem "grelhas" encontradas em "Teso Dos Bichos" durante as escavações de Roosevelt, embora estes sejam muito raros. Na verdade, sua raridade comprova a ausência de culturas de raízes a partir da dieta Marajoara.Roosevelt, 1991: 378.
Montículos, ao contrário de artefatos líticos, são abundantes. Eles foram usados para fins de cemitérios, bem como para a habitação nas áreas baixas propensas a inundações na época das chuvas. Os montículos podem ter servido a um propósito defensivo também. Povos pré-históricos da Ilha de Marajó também pode ter construído rampas, canais, lagoas e campos drenados encontrados perto de montes de terraplenagem, mas a maior parte das provas foi provavelmente enterrada por sedimentos em inundações sazonais.Roosevelt, 1991: 33.
Provas das redes de comércio no Marajó se baseiam principalmente em material lítico, porque a ilha não tem nenhuma fonte local adequada de rochas ígneas ou metamórficas.Roosevelt, 1991: 9, 348; Meggers 1957: 371. Os artefatos líticos são feitos principalmente a partir de uma rocha máfica verde, microcristalina.Roosevelt, 1991: 348. Tais rochas verdes são tipicamente mais associadas à Mesoamérica, um possível ponto de origem das pedras importadas pela cultura Marajoara.
Um aumento da complexidade das vestimentas cerimoniais e da uniformidade de louças utilitárias ocorreu com a fase Marajoara, sugerindo que a fabricação de cerâmica tornou-se uma indústria especializada em algum momento. Algum tempo após, no entanto, houve um declínio nas características de especialização de cerâmica.Meggers 1957: 403-404
Arquitetura Muitas das escavações na ilha de Marajó concentraram-se em grandes montes de terra,Meggers, 1957 apesar de as escavações em montículos menores e em locais planos provavelmente serem em maior número. Há uma divisão dos sítios por tamanho.Roosevelt, 1991: 39 Há de 3 a 4 sítios muito grandes, com muitos montes. O sítio "Os Camutins" possui 40 montes, e o sítio "Fortaleza" possui 20 montes.Roosevelt, 1991: 33 Eles abrigaram vários milhares de pessoas; por exemplo, Os Camutins tinha uma população de cerca de 10 000 pessoas.Roosevelt, 1991: 38 Há sítios menores, com de 3 a 5 montes cada, como "Monte Carmelo". Há vários sítios com um único monte, como "Teso do Sítio", que poderiam ter abrigado de algumas centenas de pessoas a mil pessoas. Há muitos sítios com pequenos montes ou com nenhum monte. Os montes predominam nas áreas mais baixas, que são mais propensas a inundações graves.Roosevelt, 1991: 31 Eles foram construídos com barro, e lixo era usado como preenchimento para mantê-los.Roosevelt, 1991: 37. Eles serviram a muitos propósitos, como cemitérios, habitações, defesas e proteção contra inundações sazonais.Roosevelt, 1991: 333-334, 401-402
Os montes abrigaram residências semelhantes às atuais residências dos índios da Amazônia.Roosevelt, 1991: 37 Eram estruturas multifamiliares com várias lareiras alinhadas ao longo do centro do edifício; cada lar provavelmente representou uma família nuclear. As residências eram construídas no sentido leste-oeste. Eram, geralmente, agrupadas num padrão oval concêntrico.Roosevelt, 1991: 401. Eram construídas de terra, postes de madeira e telhados de palha. Tiveram ocupação contínua como evidenciado por camadas sobrepostas de estruturas.Roosevelt, 1991: 335 Tinham até 20 estruturas construídas uma em cima da outra em alguns lugares, como em "Os Camutins".Roosevelt, 1991: 38. Havia instalações de cozinha permanentes feitas de barro e piso com reboco, que foram reparados com frequência ao longo do tempo.Roosevelt, 1991, 38, 334-335 Há, também, obras de terraplenagem monumentais, calçadas, rampas, canais, lagoas e campos drenados que foram enterradas por extensa sedimentação.Roosevelt, 1991, 33, 331-333, 422
Artefatos
thumb|180px|esquerda|Urna funerária, Coleção de H. Law 180px|thumb|Vaso, Coleção de H. Law Viajantes em 1800 observaram tanto a presença de montes como a beleza das cerâmicas encontradas dentro deles ou expostas em seus lados.
Museus da Europa e dos Estados Unidos começaram a recolher alguns dos pedaços maiores e mais bonitos, os maiores dos quais são urnas funerárias. Enterradas em pisos de casas construídas sobre os cumes dos montes, as urnas, elaboradamente decoradas, contêm os restos mortais de pessoas significativas. Quando os indivíduos morreram, a carne foi retirada de seus ossos e os restos mortais foram colocados nas urnas, que foram, em seguida, cobertas com uma tigela ou prato.
As pessoas no Marajó produziram artefatos muito diversos:Roosevelt, 1991: 59-60 vasos de cerâmica, urnas, potes, frascos, copos, tigelas, pratos,Roosevelt, 1991: 402 cerâmica utilitária para o uso diário, grandes estátuas, tangas (coberturas púbicas principalmente femininas) de cerâmica, pingentes, joias para lábio e orelha, apitos, miniaturas de machados e outras ferramentas, amassadores de comida, martelos e outras ferramentas. Instrumentos de pedra eram muito raros porque a ilha de Marajó não tem uma fonte de pedra adequada.Roosevelt, 1991: 9, 348; Meggers 1957: 371 Os instrumentos de pedra que foram encontrados sugerem que eles foram usados como artigos e presentes de alto status, ou que eles foram utilizados na produção artesanal.Roosevelt, 1991: 396
Os marajoaras produziram cestaria, madeira e cerâmica. Elaborados vasos de cerâmica foram encontrados no lixo entre as casas e em túmulos, mas não em torno de fogueiras, que continham apenas louça comum doméstica.Roosevelt, 1991: 37, 402 Além disso, os sítios de montes baixos ou sem monte contêm muito pouca ou nenhuma louça. Alguns artefatos são encontrados apenas em locais específicos. Teso dos Bichos contém milhares de pequenas placas de cerâmica e de arenito, que são muito raros ou ausentes em outros sítios. O padrão geral de evolução encontrado nos artefatos marajoaras, especialmente os de cerâmica, se move em direção a maior complexidade, elaboração e especialização, rumo à fase Marajoara. No entanto, mais tarde na fase Marajoara, parece que a especialização e complexidade diminuíram.
Liderança e desigualdade Apesar de algumas características apontarem para a estratificação, as evidências sobre a desigualdade e a liderança são inconclusivas quanto ao fato de se essa estratificação era baseada no sexo ou na classe social, ou se era determinada por um governo centralizado.Roosevelt, 1991: 411. A mera existência de grandes montes e grandes malocas multifamiliares e artesanato complexo e intensivo de subsistência é, normalmente, interpretado como evidência de autoridade centralizada e classes socioeconômicas estratificadas. No entanto, esta não é uma hipótese testada empiricamente.Roosevelt, 1991: 417