A história de Andorra, um micro-estado europeu localizado nos Pirenéus, ligado à nação catalã, mas que conseguiu manter certa autonomia até a independência de 1994. Andorra sempre teve dificuldades com a Espanha e França, que não respeitaram sempre a sua independência.

O principado de Andorra foi durante séculos um território essencialmente agrícola e de pastorícia, onde a prática da caça era frequente. Segundo algumas lendas, Carlos Magno teria sido o fundador de Andorra. No entanto, Andorra foi povoada desde a Pré-história e o antigo povo dos "Andosins" é mencionado em escritos da Antiguidade. A independência de Andorra é reconhecida de facto pela primeira vez na época carolíngia quando forma um semi-Estado da Marca de Espanha para proteger o império das invasões árabes.

Durante muito tempo isolada e pouco povoada, Andorra cultivou costumes arcaicos, com um sistema de administração de partilha do trono entre o chefe de Estado francês e um bispo catalão e o "Conselho da Terra", um dos mais velhos parlamentos da Europa. Durante a segunda metade do século XIX, o principado conheceu uma forte oposição entre conservadores e apoiantes da democratização e abertura ao turismo. No século XX, a construção de infraestruturas tais como estações de esqui, estradas e hotéis, tornam Andorra num grande centro turístico e comercial, graças a taxas muito baixas sobre alguns produtos de consumo, mais caros no resto da Europa, assim como ao sistema de paraíso fiscal.

Origens Pré-história Os únicos vestígios que foram encontrados em Andorra e que remetem para a pré-história são utensílios de pedra encontrados na Balma de la Margineda, um abrigo rochoso que serviu durante o Paleolítico Superior aos grupamentos nómadas dos arredores (principalmente a Arieja, no sul da França atual e o Segre, no norte da Catalunha atual) para a caça, pesca e recolecção em épocas estivais, pois usavam Andorra como caminho de conexão entre a França e a Catalunha. Fenómeno que, no entanto, só foi possível pelo degelo que sofreu a Europa após o último período glacial chegar ao seu fim. O aquecimento do clima e a aparição de vegetação e alimento, principalmente o “isard”, uma cabra de montanha típica da zona e, aliás, símbolo nacional do país, levou várias populações dos arredores a deslocar-se para a Balma da Margineda, situada perto da capital andorrana.https://books.google.ad/books?id=4tjlZwEACAAJ&redir_esc=y&hl=cahttps://books.google.ad/books?id=mc8wPwAACAAJ&redir_esc=y&hl=ca

A constatação de aumento da população na Balma da Marginda no VI milénio aC tem vindo a confirmar que aqueles primeiros caçadores migraram para os modos de vida do neolítico. Foram encontrados cereais e outros elementos (vasos, cerâmica, habitáculos...) na Balma da Margineda, mas também no parque natural Vall del Madriu (declarado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO), que levam a conclusão que progressivamente a caça foi abandonada pela agricultura e o sedentarismo.http://whc.unesco.org/en/list/1160

Não é possível falar de habitáculos propriamente neolíticos para referir os vestígios do Vale do Madriu. A geografia condicionou durante muito tempo a evolução das populações que viviam em Andorra. Os primeiros sedentários foram-se adaptando lentamente às novas correntes. Por esse motivo o bronze andorrano não é tão rico como o iraniano ou grego. Não entanto também existem vestígios do período, principalmente na aldeia de Prats (em Canillo), onde foi achada uma fossa e gravuras rupestres sobre rocha, popularmente conhecidas como “Roc de les Bruixes” (do catalão, Rocha das Bruxas).

Existem também restos de ferro tipicamente ibéricos, facto que vem confirmar as fontes literárias. Textos escritos pelos próprios romanos designam os andorranos com o nome de “andosins”. O Grau de l’Antuix é um claro exemplo de vestigem do Ferro. Trata-se de uma aldeia ibérica encontrada perto de Escaldes-Engordany, onde também foram achadas sepulturas e moedas que, neste caso, não se conseguem datar com grande precisão. Há especialistas que situam-nas mais perto de Roma do que do mundo ibérico. Os topónimos andorranos têm provocado certa controvérsia. Há quem procure a sua origem na língua basca, outros a remetem à religião cristã. Não há consenso neste assunto, mas é provável que naquela época se falasse alguma língua aparentada com o basco.http://www.alomaeditors.com/portfolio-posts/historia-digital-dandorra/

Antiguidade thumb|Conquista de Roma da Península Ibérica

O processo de romanização foi tardio. Os historiadores preferem falar de aculturação. Não existem grandes vestígios romanos em Andorra. Apenas uma sepultura encontrada em Sant Julià de Lòria, no sul do país. Encontrou-se também vinho em Santa Coloma, facto que levou a conclusão de que Andorra foi incorporada a Strata Ceretana, uma via terrestre de conexão com o império e por onde se transportava vinho para a localidade da Seu d’Urgell (no norte da Catalunha, justo a tocar com a fronteira andorrana), que depois vendia-o às aldeias mais próximas.

Os andorranos são referidos por Políbio nos textos que relatam a passagem de Aníbal nos Pirenéus. Políbio conta que Aníbal “submete as tribos dos ilergetes, bargúsios, aeronosis e andosins” na sua viagem em direção à península Itálica. Mas pensa-se que os “andosins” teriam tentado resistir tanto a Aníbal como a Roma. Esta hipótese é elaborada a partir das experiências de outras áreas da Península, pois Roma só conseguiu impor-se realmente em território ibérico depois de quase 50 anos de guerra. É a única referência escrita de Roma que fala sobre Andorra. Por tanto, a tentativa de dar um relato de resistência pode ser visto como uma interpretação exagerada, para satisfazer um certo realce nacionalista.

Grandes invasões No século V as ocupações germânicas transformaram a paisagem europeia, além de fazer cair o império romano. Não se encontraram testemunhos em Andorra da chegada dos povos germânicos, mas há evidências de que Andorra foi incorporada à marca hispânica. Para controlar o avance das camadas germânicas Roma decidiu construir barragens ajudando-se das fronteiras naturais. Os Pirenéus constituem uma verdadeira barragem natural de montanhas. O objetivo era usá-las acrescentando torres de vigilância e muros de contenção. Andorra ficou precisamente incorporada à barragem da marca Hispânica. O castelo do Roc d’Enclar, hoje destruído, terá sido utilizado provavelmente com este fim. Por outra parte, não se acharam restos arqueológicos que testemunhem da presença de visigodos em Andorra, mas é bastante provável isso ter acontecido. Também é difícil afirmar uma possível ocupação muçulmana em Andorra. Encontraram-se necrópoles perto das igrejas românicas andorranas com objetos de filiação islâmica. Isto permite expor a hipótese que os muçulmanos sarracenos estiverem em Andorra ou por perto.

Idade Média Os condados catalães thumb|Condados Catalães Em 788 Carlos Magno ordena uma batalha contra os árabes nos Pirenéus. Isso marca a verdadeira criação de Andorra. O território andorrano fica integrado novamente à marca militar hispânica, dentro do condado militar de Seu d’Urgell. Seu d’Urgell, hoje uma localidade catalã, fazia parte integrante dos 13 condados que, com o decorrer da Idade Média, passam a serem conhecidos como “condados catalães”. No iniciam um processo de separação após a morte de Carlos Magno devido às incursões árabes no seu próprio território. Efetivamente, as razias muçulmanas obrigaram-nos a pedir ajuda ao rei franco, mas este, preocupado pela instabilidade interna (lutas fratricidas de poder) e externa (incursões viquingues e hungaresas), não socorre. Em 987 os Condados Catalães decidem unilateralmente prestar vassalagem ao conde de Barcelona, desligando-se do rei Capeto. Nasce à chamada “Catalunha Velha”, Vifredo I de Barcelona torna-se de facto monarca. É neste contexto que Andorra se terá originado. Mas a tradição popular considera que Andorra foi doada em 800 por Carlos Magno como mostra de reconhecimento aos andorranos por terem-no ajudado a combater contra os muçulmanos. Esta lenda vai inclusive mais longe e garante Carlos Magno ter salvado os andorranos dos sarracenos. Mesmo se incluída no próprio hino de Andorra, o relato é falso.http://edmaps.com/html/catalonia_in_seven_maps.htmlhttp://fpgabnam.wbl.sk/mapa_-_europa_pred_rokom_1200.jpg

As Pareagens Os primeiros documentos medievais que falam sobre Andorra datam do século IX. Concretamente, assinalam que o contado de Urgell recebera em 843, por parte do rei franco Carlos II de França, a Andorra. Mas progressivamente os condes urgelenses despreocupam-se das terras andorranas para aproximar-se ao conde barcelonês. Esta vontade leva-os a vender Andorra ao bispado de Urgell. Em 1133 todas as terras nos Pirenéus, Andorra incluída, são finalmente entregues ao bispado urgelense. Tendo conseguido grande poder com a aquisição, o bispo de Urgell inicia por sua vez um processo de vassalagens que leva-o à assinatura da Pareagem (em catalão “Pariatge”), documento que historiadores interpretam como a independência de facto de Andorra.

Efetivamente, o bispo da Catedral de Urgell encontra-se repentinamente com um território invejado pelos condados mais próximos. Não podendo defender-se fisicamente, resolve enfeudar a família Caboet. Esta garante a defesa de Andorra e das terras de Urgell em troca de uma gestão ampla sobre o território andorrano. Mas em 1185 o viscondado de Castelbo casa-se com a família Caboet: é o ponto de partida para um verdadeiro conflito armado. A família Castelbo praticava o catarismo, um movimento cristão de ascetismo extremo, condenado pela Igreja Católica. Esta, preocupada pelo avance do catarismo na Europa, resolve de uma cruzada que veio justificar a Inquisição. O bispo da Seu d’Urgell é imediatamente alvo de violência catar. Quando em plenas cruzadas albigenses o condado de Foix decide casar com os Castelbo a crise chega ao apogeu. Catar e ansioso de se ligar as linhagens catalãs, o contado de Foix protagoniza diferentes campanhas bélicas em Andorra, saqueando a Catedral de Urgell.

Em 1278 ambas as partes decidem assinar finalmente a paz através da chamada Pareagem. Uma Pareagem era um acordo que se assinava entre nobres para resolver problemas relacionados com a posse de terras. O bispo de Urgell e o condado de Foix resolvem declaram-se soberanos de Andorra, concretamente príncipes de Andorra, daqui o nome de co-principado de Andorra, em troca de fazerem as pazes. Mas apesar de tudo não se consegue impor a paz. O condado de Foix tinha decidido construir um castelo no Roc d’Enclar (hoje Andorra), interpretado pelo bispo da Seu d’Urgell como uma ameaça e declaração de guerra. Voltam os confrontos armados. Em 1288 assina-se uma segunda e definitiva Pareagem, que levará o sistema de co-principado até aos nossos dias.

Conselho da Terra