José da Silva Mendes Leal (Lisboa, 18 de outubro de 1820 – Sintra, 22 de agosto de 1886) foi um escritor, jornalista, diplomata e político português. Trabalhou na Biblioteca Nacional de Lisboa, de que foi diretor, e dedicou-se ao jornalismo, colaborando na Revista Universal e em O Panorama, entre outras. Foi deputado, par do Reino e ministro de um dos governos de Costa Cabral, tendo terminado a sua carreira como ministro plenipotenciário de Portugal em Madrid e Paris. Foi grão-mestre da Maçonaria. Escritor ultra-romântico, notabilizou-se como dramaturgo de sucesso, embora tenha também publicado poesia, ficção e história e se tenha dedicado à tradução. O seu sucesso no teatro teve início em 1839 com o drama histórico O Homem da Máscara Negra.

Biografia Nasceu em Lisboa a 18 de outubro de 1820, filho de José da Silva Mendes Leal, pianista e professor de música, e de Maria Domingas de Ascensão Botelho Barbosa. Por ter o mesmo nome de seu pai, utilizou frequentemente o adjetivo Júnior após o nome. Pelo lado materno descendia de uma família de ilustres escritores, entre eles Diogo Barbosa Machado. A família vivia modestamente dos rendimentos do pai enquanto professor e músico em festas privadas.

Um seu tio padre, o desembargador Francisco de Borja Ferreira, vigário de Loures e homem de inteligência e erudição sólida, encarregou-se de lhe ensinar as primeiras letras e de o iniciar nos clássicos. Destinado a seguir a carreira eclesiástica, passou depois a aluno interno de Humanidades no Mosteiro de São Vicente de Fora, ao mesmo tempo que frequentava a Academia de Marinha e a Aula de Comércio.

Em 1836, com apenas 15 anos, em ruptura com o pai, decide abandonar os estudos eclesiásticos, deixando as lições do Mosteiro de São Vicente de Fora e passando a ter de assegurar a sua própria subsistência. Em Julho desse ano iniciou funções como empregado do depósito da Livraria dos Extintos Conventos, tendo nos anos imediatos transitado para oficial da Biblioteca Nacional, criada por decreto de Dezembro de 1836 por transformação da Real Biblioteca Pública da Corte.

No entretanto, inicia-se na escrita, compondo versos e peças de teatro. Provavelmente pela via da sua presença na Biblioteca, estabelece contacto com a elite intelectual da época. É em resultado desses contactos que, em 1838, é iniciado na loja maçónica Restauração, pela mão de António Feliciano de Castilho. A partir daí, vão surgindo oportunidades de publicação das suas peças, que culminam, no ano seguinte, com uma delas a ser levada à cena num dos principais teatros de Lisboa.

Em resultado, logo em 1839, contando o autor escassos 19 anos de idade, foi um acontecimento artístico de Lisboa a estreia, no teatro da Rua dos Condes, da peça Os Dois Renegados, a qual, em conjunto com outro sucesso no ano seguinte, O Homem da Máscara Negra, lançou decisivamente a sua carreira como autor de peças teatrais.

José casou-se no dia 28 de novembro com Rosa Mariana Biester, filha de Frederico Biester e Maria da Luz de Ataíde, neta de Ernesto Augusto Biester e Mariana Inocência Lecussan Verdier (filha de Timothéo Lecussan Verdier e Helena Frizoni.

A carreira literária e jornalística Com a subida à cena em importantes teatros de Lisboa de peças da sua autoria, estava solidamente lançada a carreira literária de Mendes Leal. De obscuro empregado da Biblioteca passou a autor de peças da moda, ligado, pela via maçónica, aos mais influentes homens da época.

Nos anos imediatos consolidou a sua reputação como autor de excelentes peças teatrais, especializando-se no drama pesado e sério (o típico dramalhão, que perdurou quase à atualidade), género artístico que aperfeiçoou com grande adesão do público.

Ao mesmo tempo que continuava a sua produção lírica, foi progressivamente encetando uma carreira na área do romance histórico e do comentário político, escrevendo artigos de fundo para O Panorama (1837-1868) e para a Revista Universal Lisbonense (1841-1859), então periódicos de referência entre a elite culta portuguesa, tendo também colaborado na Revista do Conservatório Real de Lisboa (1842), no jornal A Época (1848-1849) fundado e dirigido por Andrade Corvo juntamente com Rebelo da Silva, na Illustração luso-brasileira (1856-1859) na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865) e ainda na Revista de arte e de crítica (1878-1879).

Manteve o seu emprego enquanto amanuense, passando nos anos da década de 1840 da Biblioteca Nacional para a secretaria da Câmara dos Deputados, com uma passagem pela Companhia Confiança.

Com o despontar da sua carreira política, passa a colaborar ativamente nos periódicos de conotação partidária, começando pelo A Restauração da Carta, uma publicação dos conservadores cartistas que se batia contra A Revolução de Setembro, periódico de esquerda, então dirigido por António Rodrigues Sampaio.

Terminada a guerra civil da Patuleia, passa a apoiar José Bernardo da Silva Cabral, transformando-se em finais de 1847, num dos esteios da redação de O Estandarte, o respetivo órgão oficioso. Prosseguindo a sua presença na imprensa conservadora, em 1849 passa a redator principal do periódico A Lei, órgão que apoiava o outro irmão Cabral, o então conde de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral.

Em 1848 muda novamente de emprego, obtendo o lugar de secretário do Conservatório, cargo que acumulou com a sua primeira, e breve, passagem pela direção da Biblioteca Nacional.

Mantendo-se ativo na imprensa política, em 1853 passou a chefe de redação do periódico conservador Imprensa e Lei, que absorvera o A Lei. Nos anos seguintes irá progressivamente rompendo com o cartismo, iniciando uma deriva em direção à ala esquerda do espectro monárquico, que o conduz progressivamente à órbita do Partido Histórico e ao apoio a António José de Ávila.

Nesta nova fase do seu percurso político, alia-se a José Estêvão Coelho de Magalhães na criação de um novo periódico, agora de esquerda, o jornal Política Liberal. Nesta fase, já na famosa unha negra da extrema esquerda do Partido Histórico, é pela primeira vez nomeado membro do governo.

A partir desta época, a sua escrita passa a ser mais institucional, privilegiando o ensaio e o romance histórico, num progressivo afastamento da imprensa periódica. Esse afastamento foi quase total quando ingressou na diplomacia e foi viver para Espanha e França.

A Biblioteca Nacional Depois de ter sido simples empregado do depósito e amanuense, Mendes Leal volta à Biblioteca Nacional em Julho de 1850, pelas mão de Costa Cabral, agora nas funções de diretor (bibliotecário-mor). Mal tinha estabilizado nas funções, e já depois de ter apresentado um ambicioso plano de reestruturação, o governo de Costa Cabral caiu e, em Maio de 1851, Mendes Leal é exonerado.

Depois de um período de afastamento, que correspondeu ao seu período de maior atividade jornalística e literária, em finais de 1857 aceita o convite que lhe foi formulado pelo governo presidido pelo duque de Loulé para regressar ao lugar de bibliotecário-mor.

Este regresso faz-se no termo de um período de cerca de 30 anos em que a Biblioteca Nacional enfrentou alguns dos seu maiores desafios institucionais, sempre num ambiente de grande instabilidade diretiva. A comprovar essa instabilidade, entre 1834 e 1865, aquela instituição teve seis diretores em não menos que oito mandatos, ditados pelo alternar das confianças políticas, por vezes efémeras, ao mesmo tempo que tinha que receber, gerir e assimilar grandes quantidades de livros provenientes das livrarias conventuais entretanto extintas.

Uma das tarefas com que Mendes Leal se teve de haver logo no início desta sua segunda passagem pela direção da Biblioteca foi a necessidade de liquidar o Depósito dos livros conventuais, no que contou com a efetiva colaboração dos Conservadores que serviam, rotativamente, de bibliotecários-mores interinos, António da Silva Túlio e Francisco Martins de Andrade. Esta situação de interinidade durará quase todo o longo mandato de Mendes Leal, já que a política, que incluiu o exercício de funções ministeriais, e depois a diplomacia, com uma permanência quase constante no estrangeiro, impediam uma eficaz presença do titular. A liquidação do Depósito, através da sua incorporação na biblioteca e da venda, em leilão e a peso, de muitos milhares de volumes, foi de facto conseguída durante os anos da sua direção.

Manterá este cargo até à sua morte, tendo-o exercido com variável grau de atividade consoante as circunstâncias da sua vida política e diplomática o permitiram. Foi sucedido no lugar por António José Enes.

A atividade política A aproximação de Mendes Leal à atividade política ocorre no início da década de 1840, quando por influência de um seu amigo, Rodrigo José de Lima Felner, se filia no cabralismo. No seio do movimento, Costa Cabral fomenta a sua incipiente experiência no jornalismo político, pondo o seu inequívoco talento literário ao serviço da respetiva causa. Mendes Leal passou a ser a resposta cabralista à verve de António Rodrigues Sampaio na esquerda setembrista.

Já jornalista e comentador político comprometido com o "cabralismo", quando se precipitaram os acontecimentos que levaram à guerra civil da Patuleia, Mendes Leal assumiu um papel importante nas movimentações políticas que rodearam o deflagrar da guerra.

Logo no início da guerra foi nomeado secretário do governo civil do Distrito de Viana do Castelo, cabendo-lhe naquela região coadjuvar os esforços do duque da Terceira. Entretanto passou ali a exercer interinamente as funções de governador civil, sendo responsável pela organização das forças cartistas que se bateram contra as tropas comandadas pelo general Francisco Xavier da Silva Pereira, o 1.º conde das Antas, tendo ativamente participado nas campanhas de 1846 e 1847, o que lhe valeu ser condecorado com a Ordem da Torre e Espada.

Terminada a guerra seguiu a fação política de António Bernardo da Costa Cabral, passando a ser a sua principal voz na imprensa, com destaque para a redação de O Estandarte e de A Lei.

Apesar de se ter mantido fiel às suas anteriores posições e de ter feito parte da oposição de direita ao governo, ao longo da década de 1850, Mendes Leal foi-se progressivamente afastando da órbita cabralista, aproximando-se das posições antisaldanhistas do nascente Partido Histórico.

Estreou-se no parlamento na legislatura de 1851 a 1852 (8.ª legislatura) como deputado eleito pelo círculo de Beja, com juramento prestado na sessão de 21 de janeiro de 1852. A sua entrada na Câmara dos deputados não foi pacífica, já que o Governo contestou a validade da sua eleição, razão pela qual apenas na véspera do juramento a Comissão de Verificação de Poderes lhe confirmou o lugar. Nesta legislatura já foi clara a sua aproximação a António José de Ávila, tendo-o acompanhado na contestação dos poderes constituintes da Câmara e na crítica acesa às medidas financeira tomadas por Fontes Pereira de Melo.

Foi neste contexto de afastamento progressivo das hostes do cartismo que em dezembro de 1852 Mendes Leal falhou a sua reeleição para a 9.ª legislatura (1853-1856), desta vez tentada pelo círculo de Lisboa. Mesmo assim, em 1856 ainda fez parte da comissão central do Partido Cartista, mas em 1858 rompeu oficialmente com o partido, tendo já no ano anterior aceitado o cargo de bibliotecário-mor que lhe fora oferecido pelo duque de Tomar.