thumb|upright=1.3|Ruínas de Göbekli Tepe, na atual Turquia, cujas estruturas datam de c. , sendo os megalitos mais antigos já encontrados. thumb|upright=1.3|Reconstrução de uma casa de Çatalhüyük, um assentamento neolítico na Anatólia que data de cerca de
Revolução neolítica ou Transição Demográfica Neolítica, às vezes chamada de Revolução Agrícola, foi a revolução tecnológica que permitiu a transição em grande escala de muitas culturas humanas do estilo de vida de caçador-coletor e nômade para um agrícola e sedentário fixo, tornando possível uma população cada vez maior. Estas comunidades estabelecidas permitiram que os seres humanos observassem e experimentassem com plantas para aprender como crescem e se desenvolvem. Este novo conhecimento levou à domesticação das plantas.
Dados arqueológicos indicam que a domesticação de vários tipos de plantas e animais evoluiu em locais separados em todo o mundo, começando na época geológica do Holoceno, cerca de 12.500 anos atrás. Foi a primeira revolução agrícola historicamente verificável no mundo. A Revolução Neolítica reduziu muito a diversidade de alimentos disponíveis, com uma mudança para a agricultura que levou a uma diminuição da nutrição humana. A mudança envolveu muito mais do que a adoção de um conjunto limitado de técnicas de produção de alimentos. Durante os milênios seguintes, ela transformaria os pequenos e móveis grupos de caçadores-coletores que até então haviam dominado a pré-história humana em sociedades sedentárias (não-nômades) baseadas em vilas. Essas sociedades modificaram radicalmente seu meio ambiente através do cultivo de culturas alimentares especializadas (com, por exemplo, a irrigação e o desmatamento), o que permitiu um excesso de produção de alimentos.
Esses desenvolvimentos forneceram a base para os assentamentos densamente povoados, a especialização e a divisão do trabalho, as economias comerciais, o desenvolvimento da arte, da arquitetura, de estruturas políticas centralizadas, de ideologias hierárquicas, de sistemas despersonalizados de conhecimento (por exemplo, a escrita) e da propriedade privada, o que levou a uma sociedade hierárquica, com uma classe social de elite,Know Your Place Neural Processing Of Social Hierarchy In Humans Neuron April 58(2) pp.273-283 2008 compreendendo uma nobreza, uma classe política e uma militar. A primeira manifestação totalmente desenvolvida de todo o complexo neolítico é vista nas cidades sumérias do Oriente Médio (c. 5.500 aC), cuja emergência anunciou também o começo da Idade do Bronze.
A relação das características neolíticas acima mencionadas com o início da agricultura e a relação empírica entre vários sítios neolíticos continua a ser tema de debate acadêmico e varia de lugar para lugar, em vez de ser o resultado de leis universais da evolução social."The Slow Birth of Agriculture" , Heather Pringle* A região do Levante, seguida da Mesopotâmia, são os locais dos primeiros desenvolvimentos da Revolução Neolítica, por volta de 10.000 aC. Este processo "inspirou alguns dos desenvolvimentos mais importantes da história humana, incluindo a invenção da roda, a plantação das primeiras culturas cerealíferas e o desenvolvimento da letra cursiva, da matemática, da astronomia e da agricultura." http://www.ancientobjectsformoderndilemmas.com/current-projects.html
Distribuição geográfica
Oriente Médio O Oriente Médio possui as mais antigas evidências de agricultura, possuindo diversos sítios arqueológicos que fornecem valiosas informações sobre a Revolução Neolítica nesta região. Frequentemente o surgimento de tal prática neste período e região é dividido em 5 fases. No final da última era glacial, os humanos que habitavam o Oriente Médio eram caçadores e coletores nômades, que se movimentavam de acordo com a presença ou ausência de recursos ao longo do ano. Na região do Levante, se destacam duas culturas:Kebaran e Kebaran Geométrica. Conforme o clima se tornava mais quente, um ambiente mais propício para o crescimento de diferentes tipos de plantas surgiu, o que melhorou a qualidade de vida daquelas populações e permitiu sua entrada no próximo estágio.
Eventualmente, com maior fartura, os nômades puderam adotar um comportamento sedentário, coletando alimentos permanentemente em uma região fixa. Essas populações foram descobertas por Dorothy Garrod em uma escavação na Caverna Shuqba, tendo sido nomeadas Natufianos. Os natufianos viviam nas florestas de carvalho do norte dos atuais Israel e Palestina, onde coletavam, por exemplo, alguns tipos de nozes. Em torno daquela região, incluindo a Crescente Fértil, eram encontrados diferentes tipos de animais, como gazelas, bodes, e ovelhas; e também diferentes tipos de plantas, incluindo cereais que, naquela época, ainda eram selvagens, como o trigo e a cevada. Todavia, as evidências apontam que não foi nesse período que os grãos se tornaram parte importante da dieta desses povos, com a coleta de outros tipos de vegetais sendo mais adotada.
Durante esse período, houve um grande revertério climático, chamado de Dryas Recente. No Oriente Médio, o clima se tornou mais seco e frio, o que favoreceu o crescimento de espécies como o trigo e a cevada, cujos antecessores selvagens ocupavam os espaços entre as árvores de carvalho, tornando a paisagem similar a das savanas. Com a diminuição das florestas, alguns tipos de alimentos tiveram sua disponibilidade reduzida, o que provavelmente forçou o retorno de alguns grupos a seu antigo estado nômade, podendo ter feito alguns migrarem para áreas mais úmidas em busca de zonas férteis onde era possível o consumo de alimentos baseados em sementes, mais abundantes nessas regiões. Este último estilo de vida deu espaço para o que ficou conhecido como “cultivo pré-doméstico”. O neolítico é dividido em dois períodos: pré e pós cerâmica, com o primeiro sendo também subdividido em duas fases, chamadas de Pre-Pottery Neolithic A (PPNA) (em português, “Neolítico Pré-Cerâmica”) e Pre-Pottery Neolithic B (PPNB). A primeira conhecida pela presença de construções ovais, e a segunda por construções retangulares. Na crescente fértil do PPNA predominava ainda o nomadismo e o sistema de cultivo pré-domesticação de sementes, onde os sítios de plantação recebiam água de forma natural e o replantio acontecia apenas por meio da reprodução das plantas, com seus grãos retroalimentando os cultivos. Tal modo de vida se tornou cada vez mais comum ao longo dos séculos, carregando traços daquele adotado durante o Natufiano.
Corresponde ao período em que passou a ocorrer a domesticação de animais e plantas, mas existem perguntas que permanecem: como e em quais lugares? Grupos de geneticistas e arqueólogos buscam responder essas questões. Todo o trigo Einkorn moderno, por exemplo, possui parentesco com as versões selvagens encontradas em Karacadag, o mesmo sendo possivelmente verdade para o trigo Farro. O grão-de-bico também possui origem nessa região. Além disso, as lentilhas podem ter ancestralidade ligada aos grãos selvagens encontrados no leste da atual Turquia e no norte da atual Síria. Aparentemente, o farro pode ter sido domesticado de modo independente no Levante tendo, entretanto, menor adoção por questões adaptativas ligadas ao clima da região. Já a cevada domesticada possui variedades traçadas em duas regiões: a do Levante e as Montanhas Zagros.
América A Revolução Neolítica nas Américas trouxe mudanças significativas na produção de alimentos e no modo de vida das sociedades, de forma semelhante ao que ocorreu em outras partes do mundo. Durante o Holoceno, três grandes áreas de domesticação inicial emergiram no continente: o centro-sul dos Andes, a América Central e o leste da América do Norte. Nesse sentido, provavelmente a revolução começou em um contexto em que pequenos grupos humanos, que eram caçadores e coletores nômades, começaram a se estabelecer em vales irrigados por rios, cavernas e outros abrigos disponíveis. Assim, a domesticação de diferentes espécies de plantas e animais refletiu um processo similar ao ocorrido no Oriente Médio, mas com características próprias das regiões americanas. No México, variedades de milho e abóboras foram domesticadas entre 9 e 7 mil anos atrás, existem vestígios desse evento nas regiões que hoje compreendem os estados de Guerrero e Tabasco. A domesticação de plantas possibilitou uma fonte de alimento mais estável e confiável, contribuindo para o desenvolvimento de comunidades sedentárias. Além disso, os únicos animais inicialmente domesticados na Mesoamérica e América do Norte foram o cachorro e o peru, que desempenharam papéis importantes na vida cotidiana e nas práticas culturais dessas sociedades. Nesse sentido, a domesticação de espécies, em especial o milho, teve um importante papel na sedentarização desses grupos, ainda que esse processo tenha sido gradual e desigual, o que possibilitou o desenvolvimento de civilizações complexas, como a Maia, por exemplo.
Nos Andes, o milho foi domesticado ao norte entre 7.2 mil e 6.6 mil anos atrás. No Equador, abóboras e ariá são cultivados nos Andes há 11 mil anos. Já no Peru, diferentes variedades de abóboras foram encontradas datando de 11 mil anos atrás. No tocante aos animais, nos Andes peruanos, entre 7.2 mil e 6 mil anos atrás, os caçadores alimentavam-se de guanacos e vicunhas, que mais tarde foram domesticados, dando origem às lhamas e alpacas. Com o tempo, as comunidades das regiões mencionadas desenvolveram sofisticadas técnicas agrícolas, como a construção de terraços e sistemas de irrigação, que foram fundamentais para a prosperidade de civilizações como a Inca. Além disso, as lhamas e as alpacas viriam a ter papel importante na manutenção da comunicação dentro desse império indígena, gerando impactos duradouros na cultura dos povos dessas regiões.
Quatro plantas com sementes foram domesticadas no período entre 5 mil a.p e 3.7 mil a.p no nordeste da América do Norte: abóboras e girassol. Os registros do plantio do milho, datam de mais tarde, por volta de 200 A.C. Os vales dos rios parecem ter sido as áreas onde a domesticação de plantas começou nessa região.
África Central Há discussões acerca do período inicial da revolução neolítica na África, porém é entendido que o mesmo ocorreu entre 10.000 a 5.000 anos A.C. Este período na África Central acabou ocorrendo forçadamente por conta de uma nova fase de seca na Terra e processos de desertificação em direção ao Sul. Caçadores, que tinham de percorrer as savanas em busca de alimento, e coletores, que dependiam de grãos selvagens da planícies, aos poucos migraram para perto dos rios, realizando a domesticação de grãos, legumes e vegetais e aprimorando suas habilidades de pesca. O principal alimento domesticado na região foi o inhame-da-guiné-branco, que foi por muito tempo a base da alimentação dos agricultores da savana do Norte, permitindo um grande aumento populacional deste grupo há cerca de 5.000 anos A.C. Em relação à pecuária, a domesticação de gado ocorreu inicialmente no nordeste por pastores móveis que não tinham conhecimento da agricultura sedentária. Essa prática se espalhou de maneira irregular pelo Saara e posteriormente pelo Sul devido a alterações nas condições climáticas.
Antecedentes Nomadismo
thumb|esquerda|Dois homens hadzas retornam de uma caçada. Os hadzas são uma das poucas sociedades africanas contemporâneas que vivem principalmente de caça e coleta thumb|esquerda|Artefatos de pedra do Neolítico