Luís Pereira Barreto (Resende, 11 de janeiro de 1840 — São Paulo, 11 de janeiro de 1923), foi um médico, cirurgião, filósofo, político, cientista, agricultor, jornalista e sanitarista brasileiro.
Pioneiro em estudos do fruto do guaraná, Pereira Barreto foi presidente da Assembleia Constituinte de São Paulo e deputado à Assembleia Constituinte Republicana. Também foi vice-governador do estado. Foi sócio-fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e membro-fundador da terceira cadeira da Academia Paulista de Letras, em novembro de 1909.
Biografia Luís nasceu em Resende, no estado do Rio de Janeiro, em 1840. Era filho do comendador Fabiano Pereira Barreto e da paulista Francisca de Salles Barreto, abastados fazendeiros da região do Vale do Paraíba. Inicialmente, desejaram que o filho seguisse a carreira jurídica, mas um conselho de seu tio, o conselheiro Antonio Barreto Pedroso, o inclinou para a medicina.
Os estudos primários foram feitos em Resende, no Colégio Joaquim Pinto Brasil, onde iniciou também os preparatórios, os quais, todavia, veio a concluir em São Paulo, no Colégio “João Carlos”, em 1857. Aos 15 anos, Luís partiu para Montpellier, na França, a fim de completar seus estudos em humanidades e poder matricular-se na faculdade de medicina. Ao invés de retornar ao Brasil, matriculou-se no curso de medicina da Universidade de Bruxelas, onde três anos depois foi nomeado preparador de química da cátesa.
Luís retornaria ao Brasil cinco anos depois, em 1865, já doutorado em medicina e ciências naturais, com 25 anos. Por sua exemplar atuação acadêmica na universidade, seus professores ofereceram a oportunidade dele se tornar professor da Universidade de Bruxelas, mas Pereira Barreto recusou a oferta para voltar ao seu país.
Em 18 de julho de 1865, Luís fez o exame de proficiência para poder exercer a profissão no país. Ele defendeu a tese perante uma banca da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. O jovem médico causou surpresa entre os examinadores ao apresentar a tese Teoria das Gastralgias e das Neuroses em Geral, devido ao alto conteúdo científico e filosófico para a época. Nela, ele explicava que o espírito humano passa por três estados sucessivos: o teológico ou fictício; o metafísico ou abstrato e o positivo ou real.
Em 1866, Luís decidiu morar em Jacareí, em São Paulo, onde abre um consultório e adquire uma vasta clientela. Lá casa-se com Carolina Leitão Peixoto, com quem teve quatro filhos: Clotilde Augusta Pereira Barreto, José Pereira Barreto, Luiz Pereira Barreto Filho e Paulo Pereira Barreto.
Carreira miniaturadaimagem|343x343px|Monumento a Luiz Pereira Barreto, localizado na Praça Marechal Deodoro, em São Paulo. Luís acreditava no valor e no poder da ciência, visto por ele como a única força capaz de impulsionar a nação para o futuro. Como médico, via a necessidade de sanear o país; como homem de ciência, percebe a necessidade de resolver questões técnicas. Para isso, escreveu artigos sobre plantações, qualidade e propriedade das terras, com destaque para a terra roxa.
Foi membro e presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e figura atuante na busca das causas da febre amarela, além de contribuir para o desenvolvimento do serviço sanitário da época. Foi pioneiro e o introdutor, no Brasil, de novas técnicas cirúrgicas; de métodos de anestesia, além de defender a antissepsia cirúrgica, logo após as descobertas de Pasteur e as aplicações de Joseph Lister com ácido carbólico.
Luís foi adepto do darwinismo e conceitos de eugenia como forma de medicina preventiva: os homens sadios seriam capazes de assegurar a tranquilidade e prosperidade (como a lei da seleção natural), porém respeitando-se o princípio da moral, ao qual tudo deve subordinar-se. Dedicou-se, também, à problemática do envelhecimento. Apesar de combater o academicismo, Luís foi um grande educador e defensor da abertura de novas universidades. Por isso, foi um dos protagonistas na tentativa de abertura de uma Faculdade de Medicina e Cirurgia em São Paulo, fundada em 1912 por Arnaldo Vieira de Carvalho.
Além da carreira na medicina, foi presidente da Assembleia Constituinte de São Paulo e deputado à Assembleia Constituinte Republicana. Trouxe o pensamento positivista para o Brasil e seguia as teorias de Comte, defendendo que elas fossem adequadas à realidade brasileira.
Luís tinha grandes terras onde pôde cultivar o café e as uvas. Teve descobertas importantes no ramo do café, introduzindo a plantação do tipo Bourbon e na viticultura foi o introdutor das primeiras safras de uvas destinadas à produção de vinho. Além disso, é considerado o descobridor do guaraná no país e responsável pela industrialização da cerveja em São Paulo. Na época, a cerveja era receitada como remédio contra a febres.
Positivismo Luís conheceu a ideologia positivista por meio da obra de Augusto Comte, enquanto estudava na Bélgica. Sua adesão à ideologia explica-se pela constante preocupação com o Brasil e encontrou no positivismo um caminho da filosofia moderna que apresentava uma diretriz para a vida política nacional.
Ao voltar ao Brasil, em 1865, passou a divulgar a ideologia positivista, assim, ficou conhecido como o iniciador desta filosofia no país. A ambição de Pereira Barreto era de elevar o nível do Brasil, pois a nação da época se encontrava longe do estado positivo. Barreto propunha uma análise sociológica do país, que busca entender para transformar. A ciência apresenta-se, portanto, não apenas um meio de conhecimento mas também uma arma política.
Neste período, acontecia a Guerra do Paraguai, que fez com que o Brasil pensasse como uma nação unida contra o inimigo externo. Além do cenário internacional, o período trouxe modificações internas. Aos poucos a filosofia positivista passava a ganhar a espaço – ela era republicana e antiescravagista. Na mesma época se formava uma classe militar, que se uniria à elite intelectual positivista contra os bacharéis da época.
O positivismo de Barreto atacava o Império dos bacharéis e buscava estabelecer a organização da sociedade civil, com acento na educação e não na política, e tinha o apoio da força econômica emergente dos fazendeiros do oeste paulista. Dentre os elementos da doutrina positivista de Comte, Pereira Barreto se manteve fiel a Lei dos três estados. Dessa forma, acredita-se que as operações intelectuais são regidas por três estados: primeiro é ofensiva, depois defensiva e, por fim, pacífica. Assim, explica-se que o amor pela paz surge com as convicções da maturidade. Pereira Barreto procura submeter a realidade nacional à lei dos três estados que rege a humanidade.
Entre 1874 e 1876, Pereira Barreto publicou a obra As Três Filosofias, em dois volumes, nos quais fala da lei dos três estados. Além disso, explica: a primeira filosofia diz respeito aos conservadores, representantes do antigo passado; a segunda, aos liberais, os representantes do passado moderno; e a terceira, ao contemporâneo, à ciência atual, o positivismo. Para escrever a obra ele se baseou e expôs o pensamento de Comte. Também propõe a reforma espiritual como solução e a única forma de alcançá-la é por meio da educação.
Pereira Barreto apresenta, por meio da filosofia positivista, um projeto civilizatório para o país. A ruptura com a igreja é um ponto fundamental para entender este projeto. Haviam distinções importantes entre a avaliação de Barreto e a da igreja a respeito da obra de Comte. Para a igreja, o positivismo era uma doutrina pronta, com soluções para todos os problemas; assim, eram obedientes às ideias de Comte, sem discordar ou divergir de qualquer opinião dele, seguindo-as como se fosse uma lei. Já Barreto, ao contrário, enxergava no positivismo uma filosofia orientadora da ação que servia para ajudar no diagnóstico da sociedade brasileira e, a partir disso, formular alternativas para o desenvolvimento do país. Pereira Barreto entendia que a obra de Comte tinha sido escrita no contexto francês e por isso tinha necessidade de adaptá-la ao contexto brasileiro. Essa diferença levou à expulsão de Barreto da igreja.
Na sua obra As Três Filosofias, disse sobre o bacharelismo:
Este distanciamento fez com que Barreto fizesse uma extensa crítica das instituições nacionais e tentasse reformá-las. Dessa forma, Pereira Barreto ia configurando um projeto civilizatório para o Brasil. Assim, eram duas as preocupações dele: como operar a transição do país para a civilização tanto do ponto de vista material quanto espiritual.
A equação barretiana é definida no domínio técnico aliado a uma filosofia da história e a um conhecimento dos problemas nacionais, adicionando-se o componente moral. Com isso, é possível identificar focos de estagnação ou de contra-tendências ao desenvolvimento normal do país. A partir dessa identificação, Barreto formulava projetos de transformação. Nesse sentido, o projeto que proposto por ele não é revolucionário, mas reformador. Colocando em jogo as hegemonias intelectual, política e econômica do país, englobando estas três esferas.
Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo Em 1895, a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (atual Academia de Medicina de São Paulo) foi criada por Sérgio Meira (primeiro diretor do serviço sanitário) e Matias Valladão (que posteriormente dirigiu a Policlínica de São Paulo); Luís foi convidado para se juntar a eles.
A primeira reunião para a criação da entidade aconteceu em 24 de fevereiro de 1895 e contou com a presença de vários expoentes da classe médica da capital. Nesta reunião, Pereira Barreto foi escolhido por aclamação presidente da nova instituição. Depois, recebeu a honraria de presidente perpétuo da instituição. Em março de 1895 aconteceu a inauguração da Sociedade, que passou a realizar as suas assembleias em uma sala chamada "Casa de Pereira Barreto", no edifício da Faculdade de Direito de São Paulo, no largo São Francisco, cedido pelo diretor Barão de Ramalho.
A instituição tinha um caráter científico, e valorizava, conjuntamente, um lado humanitário ou mesmo caritativo. Exemplo disso foi a criação de uma Policlínica, estabelecida na praça da Sé, que atendia a população mais pobre de forma gratuita. Essa policlínica foi instalada no mesmo ano da criação da Sociedade.
Febre amarela A febre amarela foi o tema principal dos debates médicos do Brasil, na última década do século XIX. Entender as formas de propagação e os meios de prevenção era uma grande preocupação da saúde pública nos centros urbanos, inclusive em São Paulo. Como não existia uma faculdade onde o debate poderia ser centralizado, a questão foi intensamente discutida na Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.
Luís foi um nome importante na busca de respostas sobre questões relacionadas a Febre Amarela, a principal moléstia epidêmica do Brasil - na época. Seu trabalho ajudou na criação de um consenso sobre a transmissão culicidiana (por meio de mosquitos) da doença .
Em 1889, uma forte epidemia se instalou na cidade de Santos, e chegou em parte do Oeste Paulista, inclusive em Campinas, capital agrícola da província e seu segundo maior centro. A partir desse momento, a cidade seria atingida por sucessivas epidemias em 1889, 1890, 1892, 1896 e 1897. Nesse período, a crença de que a doença atingia apenas o litoral (os surtos em Santos aconteciam desde 1850) foi desmitificada. Além de Campinas, os surtos se alastraram pelas demais cidades do Oeste, e geraram preocupações à medida que colocavam em risco a produção cafeeira. Entre 1898 e 1904, todos os anos surgiram epidemias da doença em cidades do Oeste Paulista.
Na década de 1870, ainda haviam divergências sobre os meios de propagação da enfermidade: ela poderia ser contagiosa (passada diretamente de pessoa a pessoa),poderia ser transmissível ou infeccioso (necessitando de um agente que o transportasse do doente a uma pessoa sã), por exemplo.