thumb|250px|Exemplar de herbário (exsicata) de Vitellaria paradoxa adequadamente montado numa folha de papel, com a sua etiqueta de identificação Herbário é uma coleção científica organizada de exsicatas, que consistem em amostras de plantas prensadas, secas (desidratadas) e fixadas. Cada exsicata é obrigatoriamente acompanhada por uma etiqueta contendo a identificação do táxon em latim, o local e a data de coleta, o nome dos coletores e notas ecológicas adequadas sobre o habitat e caracteres físicos do espécime vivo.
Os herbários abrigam uma grande quantidade da informação e dados sobre a diversidade vegetal, tais como a conservação, ecologia, fisiologia, farmacologia, agronomia, sistemática, evolução, biogeografia e etnobotânica. Esses dados são cruciais para fundamentar a recuperação de áreas degradadas, o melhoramento vegetal, o incremento da resistência a pragas, o desenvolvimento de compostos farmacológicos e as pesquisas preditivas sobre os efeitos de mudanças climáticas globais na flora.
Além disso, os herbários desempenham um papel decisivo na descoberta de novas espécies para a ciência: um levantamento sobre novas espécies publicadas entre 1970 e 2010 demonstrou que apenas 16% delas foram coletadas diretamente no campo, enquanto 84% foram descritas a partir de espécimes que já estavam previamente depositados em coleções de herbários, muitos deles coligidos há mais de 50 anos
Construção Estas coleções de espécies de plantas secas são cuidadosamente pressionadas e coladas em papel pesado. É recomendável que o papel contenha uma cápsula (pequeno envelope) contendo fragmentos adicionais de várias partes da planta, de modo que futuros pesquisadores possam coletar amostras para análises anatômicas ou moleculares sem danificar o exemplar principal. Estas espécies encontram-se devidamente catalogadas e identificadas com informação acerca das plantas e o local onde foram colhidas. Num herbário, a sua coleção está em constante atualização. Regularmente são feitas novas colheitas de exemplares, acompanhadas com informações adicionais sobre a evolução do habitat, do clima, da vegetação, e outras informações que se considerarem relevantes. Se corretamente conservadas, um espécie-tipo pode durar centenas de anos.
Além das tradicionais exsicatas de plantas, algas e fungos, os herbários modernos expandiram seu escopo e costumam abrigar importantes coleções correlatas e auxiliares, tais como:
Carpoteca: acervo organizado de frutos secos ou preservados em meio líquido; Xiloteca: conjunto de amostras de madeira (lenho) incorporadas segundo técnicas específicas para estudos de anatomia vegetal, filogenia e identificação de espécies florestais, auxiliando inclusive na fiscalização do comércio madeireiro; Fototeca: acervo histórico de imagens botânicas e registros de expedições de campo; Banco de DNA: coleção de amostras de tecido vegetal (geralmente folhas jovens desidratadas rapidamente em sílica gel) mantidas sob congelamento extremo para preservação genética e pesquisas biotecnológicas; Coleções de Etnobotânica: acervo de plantas úteis, artefatos e derivativos que registram o conhecimento de comunidades tradicionais sobre o uso histórico das espécies vegetais.
Uma espécie de planta num herbário é uma fonte insubstituível de registo da biodiversidade das plantas e serve como referência a muitas e variadas funções, incluindo identificação, pesquisa e educação científica.
História Para resgatar a origem dos herbários, é necessário olhar três milênios de história das ciências naturais e remontar à Grécia Antiga, onde os rhizotomoi ("cortadores de raízes") coletavam plantas medicinais com fins utilitários para abastecer os herbarii (ervanários) e onde grandes filósofos como Aristóteles e Teofrasto iniciavam estudos sobre as plantas, dando à Botânica os seus primeiros passos. Desde então, e até o século XVI, a Botânica se desenvolveu sem o auxílio de coleções de plantas secas, fazendo uso apenas de ilustrações e do cultivo de plantas vivas em jardins botânicos.
A transição crucial ocorreu no século XVI, impulsionada pelo surgimento e barateamento da produção de papel por meios mecânicos. A técnica de prensar e secar plantas sobre o papel preservando suas características botânicas foi criada pelo professor de botânica italiano Luca Ghini (1490–1556), que denominou essa inovação de hortus siccus ("jardim seco"). O herbário conservado mais antigo do mundo é o do francês Jehan Girault, montado em Lyon em 1558, contendo 313 plantas preservadas em estilo naturalista dentro de um volume encadernado em pergaminho.
No século XVIII, o naturalista sueco Carl Linnaeus revolucionou o modus operandi botânico ao introduzir uma inovação decisiva em sua obra Philosophia Botanica: a montagem de apenas um espécime por folha solta de papel. Em vez de livros encadernados e fixos, Lineu armazenou suas folhas soltas na horizontal, em armários de madeira providos de prateleiras ajustáveis. Isso permitiu que o herbário funcionasse como um fichário aberto, onde novos espécimes podiam ser inseridos e a ordem taxonômica podia ser rearranjada livremente à luz de novas descobertas. Foi Lineu quem definitivamente adotou o termo latino herbarium, fazendo com que a expressão hortus siccus entrasse em desuso.
Cenário Brasileiro O registro pioneiro da flora brasileira remonta ao século XVII, quando o naturalista Georg Markgraf, integrante de uma expedição holandesa em 1636, realizou coletas e produziu um herbário em forma de livro com 173 espécimes. Esse acervo histórico, estudado por Lineu, encontra-se hoje no Museu de História Natural da Dinamarca. O primeiro herbário fundado em território brasileiro foi o Herbário do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 1831. Ao final do século XIX, consolidou-se o Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. No ano de 2000, para articular e divulgar os dados dos acervos nacionais, foi estruturada a Rede Brasileira de Herbários (RBH) sob a égide da Sociedade Botânica do Brasil (SBB).
Entre 2000 e 2015, o número de herbários brasileiros cresceu 43% em todas as regiões brasileiras. Até setembro de 2015, o Brasil contava com 237 herbários cadastrados na RBH, dos quais 196 eram considerados ativos. Um marco moderno de inovação deu-se em 2010 com o início da construção do Herbário Virtual Reflora, sediado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e financiado pelo CNPq. O programa promoveu o repatriamento digital (através de imagens em alta resolução) de espécimes coletados no Brasil no passado e depositados em herbários estrangeiros de renome: como os Royal Botanic Gardens of Kew, o Muséum National d’Histoire Naturelle de Paris e o Missouri Botanical Garden, além de impulsionar a digitalização dos acervos domésticos brasileiros. No final de 2015, o Herbário Virtual Reflora já disponibilizava online quase 1,4 milhão de imagens e servia de suporte essencial para o desenvolvimento da Flora do Brasil Monografada Online.
Herbariologia A herbariologia, ramo da {Botânica} que tem como objectivo o estudo das plantas em herbário, visa contribuir para o conhecimento da biodiversidade vegetal mundial, fornecendo uma coleção de espécimes das populações naturais, que constituem referências científicas, ou que podem ter grande interesse para a preservação e conservação da biodiversidade. O papel desempenhado pelos herbários nos estudos de biodiversidade é cada vez mais reconhecido pelos investigadores. Através de uma enorme base de dados de onde se está constantemente a extrair, utilizar e adicionar informações sobre cada uma das populações e/ou espécies é possível aplicar essa informação nas mais variadas disciplinas, tais como fisiologia, ecologia, agronomia, farmacognosia, etnobotânica, com os mais diversos objectivo: recuperação de áreas degradadas, resistência a pragas, melhoramento vegetal, desenvolvimento de compostos com interesse farmacológico, etc.
A manutenção e ampliação dos herbários constituem uma preocupação crescente face o aumento dramático de espécies vegetais ameaçadas a nível mundial. Todo o trabalho de preservação das colecções é feito com grande precisão. Quando estudados no Herbário, descobre-se que algumas espécies são desconhecidas e no seu devido tempo serão descritas e ser-lhes-á atribuído um nome científico. Outras espécies, uma vez examinadas e determinadas tornam-se material de pesquisa essencial nos estudos de sistemática, micromorfologia, bioquímica e genética molecular.
A observação cuidadosa das espécies permite conduzir estudos acerca da estrutura das plantas, a sua morfologia e anatomia, enquanto que a análise comparativa com outros espécies de diferentes períodos históricos permite o exame das variações que ocorreram no tempo e assim avaliar a diversidade inter e intra-específica.
Bibliografia e ligações externas COTTON, C. M. Ethnobotany: Principles and Application. London: J. Willey & Sons, 1996. Britannica Concise Enciclopedia Bebber et al., 2010: BEBBER, D.P. et al. Herbaria are a major frontier for species discovery. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 107, p. 22169-22171, 2010. Funk, 2003: FUNK, Vicki. The importance of Herbaria. Plant Science Bulletin, v. 49, n. 3, p. 94-95, 2003. Funk, 2004: FUNK, Vicki. 100 uses for an Herbarium (well at least 72). Yale: Division of Botany, The Yale University Herbarium, p. 1-4, 2004. Gasper & Vieira, 2015: GASPER, André Luís de; VIEIRA, Ana Odete Santos. Herbários do Brasil - Apresentação da Edição Especial. UNISANTA Bioscience, v. 4, n. 6, p. 1-11, 2015. Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2020: INSTITUTO DE PESQUISAS JARDIM BOTÂNICO DO RIO DE JANEIRO. Herbário. Rio de Janeiro: JBRJ, 30 de dezembro de 2020. Machado et al., 2017: MACHADO, C.C.C. et al. Herbários: resgate histórico e científico. Revista de Fitoterapia/Ciência, 2017. Müller-Wille, 2006: MÜLLER-WILLE, Staffan. Linnaeus’ herbarium cabinet: a piece of furniture and its function. Endeavour, v. 30, n. 2, p. 60-64, 2006. Thiers, [em contínua atualização]: THIERS, Barbara. Index Herbariorum: A global directory of public herbaria and associated staff. New York Botanical Garden’s Virtual Herbarium. Vieira, 2015: VIEIRA, Ana Odete Santos. Herbários e a rede brasileira de herbários (RBH) da Sociedade Botânica do Brasil. UNISANTA Bioscience, v. 4, n. 7, p. 3-23, 2015.
Ligações externas Como executar uma prensa de secagem de plantas Global Biological Information Facility Herbário da Escola Politécnica de Lisboa Online Herbário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Herbário de Coimbra Online Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Herbário Profª Drª Marlene Freitas da Silva da Universidade do Estado do Pará Herbário dos Jardins de Kew International Plant Name Index JSTOR Plant Science Rede dos Herbários da França Royal Botanic Garden de Edimburgo The New York Botanical Garden University of British Columbia Herbarium
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