A Expedição de Nacla ou Saria de Nacla () foi uma expedição realizada pelos primeiros muçulmanos contra uma caravana dos coraixitas em Nacla, entre Meca e Taife, durante Rajabe de 2 A.H. (623 ou 624). Comandado por Abedalá ibne Jaxe e formado exclusivamente por emigrantes, o destacamento havia sido enviado por Maomé com instruções seladas. As fontes divergem sobre o objetivo original da missão: segundo algumas versões, deveria observar os movimentos dos coraixitas e obter informações sobre uma caravana, enquanto outras afirmam que recebera ordens para emboscá-la.
O destacamento encontrou em Nacla uma pequena caravana coraixita e decidiu atacá-la durante Rajabe, um dos meses sagrados da Arábia pré-islâmica. Anre ibne Alhadrami foi morto, dois homens foram capturados e outro escapou, enquanto os expedicionários regressaram a Medina com o butim. O ataque provocou controvérsia por ter ocorrido durante um mês no qual o combate era tradicionalmente proibido e foi posteriormente associado à revelação de Albacara 2:217–218. Depois da controvérsia, Maomé aceitou a parcela do butim que lhe havia sido reservada e os dois prisioneiros foram libertados mediante resgate.
Preparação e ataque
A expedição ocorreu cerca de dezessete meses depois da Hégira. Fayda situa sua partida no início de Rajabe e o confronto no último dia do mês, correspondente a janeiro de 624, enquanto Gabriel data o episódio de novembro de 623. Foi comandada por Abedalá ibne Jaxe. Segundo o relato tradicional examinado por Watt, o destacamento era composto por oito a doze emigrantes. Fayda registra oito participantes, todos emigrantes, e identifica, além de Abedalá, Abu Hudaifa ibne Oteba, , Oteba ibne Gazuane, Sade ibne Abi Uacas, , e . Segundo algumas versões, a expedição destinava-se a obter informações sobre os movimentos dos coraixitas nas proximidades de Meca. Abedalá recebeu uma carta selada, que deveria abrir depois de dois dias de marcha e que o instruiu a dirigir-se a Nacla para observar os coraixitas; seus homens não deveriam ser coagidos a acompanhá-lo na missão. Segundo Fayda, a carta, escrita por Ubai ibne Cabe, foi aberta quando o grupo chegou a , depois de dois dias de marcha, e determinava que prosseguisse até Bátene Nacla, entre Meca e Taife, para obter informações sobre os coraixitas e a caravana que se aproximava do sul. Watt, ao examinar a versão de Ibne Isaque baseada no relato de Urua ibne Azobair e transmitida por Ibne Xiabe Azuri e , afirma, por sua vez, que a parte essencial das ordens determinava que Abedalá seguisse para Nacla e ali emboscasse uma caravana mecana, considerando a instrução de apenas observar e informar uma adição posterior. Rodinson igualmente afirma que as instruções determinavam que Abedalá tomasse posição em Nacla e atacasse uma caravana mecana.
Durante a marcha, Sade ibne Abi Uacas e Oteba ibne Gazuane perderam o camelo que compartilhavam em Burã e se separaram do restante do grupo para procurá-lo. Os demais prosseguiram até Nacla, onde encontraram uma pequena caravana coraixita procedente de Taife em direção a Meca, guardada por quatro homens e carregada de vinho, passas e artigos de couro. Fayda identifica os quatro integrantes da caravana como Anre ibne Alhadrami, , seu irmão e . Diante da circunstância de estarem em Rajabe, um dos meses sagrados, os expedicionários deliberaram sobre a possibilidade de atacar a caravana. Segundo Haykal, consideraram que, se permitissem que ela prosseguisse naquela noite, alcançaria no dia seguinte o território sagrado de Meca e ficaria fora de seu alcance; por outro lado, atacá-la imediatamente significaria derramar sangue durante o mês sagrado. Após hesitarem, decidiram atacar e tomar os bens da caravana. Rodgers igualmente relata que o grupo se viu diante da escolha entre permitir que a caravana alcançasse o território sagrado de Meca e atacá-la durante Rajabe, acabando por decidir pelo ataque.
As fontes, contudo, divergem sobre a posição exata do episódio dentro de Rajabe. Watt observa que Aluaquidi situa o ataque no fim do mês, circunstância na qual se baseia a tradição sobre a dúvida dos expedicionários entre atacar imediatamente ou aguardar, mas assinala que outras fontes o colocam no início de Rajabe. Considera, por isso, suspeita a tradição que situa o episódio no último dia do mês e admite a possibilidade de que tenha surgido como uma tentativa posterior de atenuar a violação do mês sagrado. Antes do confronto, ao menos um dos integrantes do destacamento raspou a cabeça, fazendo o grupo parecer composto por peregrinos e levando os guardas da caravana a relaxarem suas suspeitas. No ataque, Uáquide ibne Abedalá matou Anre ibne Alhadrami com uma flecha; Otomão ibne Abedalá e Aláqueme ibne Caiçane foram capturados, enquanto Naufal ibne Abedalá conseguiu escapar.
Controvérsia e desfecho
Os expedicionários regressaram a Medina com os dois prisioneiros e o butim. Antes de chegarem à cidade, Abedalá dividiu os bens entre os participantes e reservou um quinto para Maomé. Como o ataque havia ocorrido durante um mês no qual, segundo a convenção árabe, o derramamento de sangue era proibido, o episódio causou indignação. Os coraixitas acusaram os muçulmanos de terem violado a sacralidade de Rajabe, e a controvérsia repercutiu também entre os muçulmanos de Medina. Maomé manifestou seu desagrado e negou ter ordenado o ataque durante o mês sagrado. Segundo Watt e Rodinson, recusou-se inicialmente a aceitar a parcela do butim que lhe fora reservada.
A controvérsia foi posteriormente associada à revelação de Albacara 2:217–218, que trata do combate durante os meses sagrados e contrapõe sua gravidade à perseguição e à expulsão dos fiéis da Mesquita Sagrada. Watt interpreta o primeiro desses versículos como reconhecendo a gravidade da violação do mês sagrado, mas contrapondo-a às ações atribuídas aos coraixitas, apresentadas como ofensas ainda mais graves. Segundo Fayda, após a revelação Maomé aceitou o quinto do butim que lhe fora reservado, enquanto o restante permaneceu com os integrantes da expedição. Os coraixitas enviaram então representantes para negociar a libertação dos dois prisioneiros, mas Maomé adiou o resgate até que Sade ibne Abi Uacas e Oteba ibne Gazuane regressassem, temendo que tivessem sido capturados ou mortos. Os dois cativos foram posteriormente libertados mediante o pagamento de resgate; Aláqueme ibne Caiçane converteu-se ao Islã e permaneceu em Medina.
Bibliografia
Categoria:624 Categoria:Expedições ordenadas por Maomé