Maria, a Copta (; m. ) foi uma concubina de Maomé e mãe de seu filho Ibraim ibne Maomé. De origem copta e procedente do Egito, foi enviada a Maomé em 628 por Almucauquis, governador bizantino de Alexandria, juntamente com sua irmã Sirim e outros presentes diplomáticos. Após chegar a Medina, converteu-se ao islã e passou a residir em uma propriedade situada na região de Auali, onde Maomé a visitava com frequência. O nascimento de Ibraim, em 630, fez de Maria a única mulher, depois de Cadija, a dar um filho a Maomé, circunstância que lhe conferiu posição singular entre as mulheres ligadas a Maomé. A atenção que lhe era dispensada suscitou rivalidades entre algumas das demais esposas de Maomé e deu origem a tradições relacionadas à revelação dos primeiros versículos da sura at-Tahrim. As fontes também registram que rumores acerca da paternidade de Ibraim motivaram uma investigação conduzida por Ali ibne Abi Talibe, encerrada após se comprovar que Mabur, o servo copta envolvido nas acusações, era eunuco. Após a morte de Maomé, Maria permaneceu em Medina sob a proteção dos califas Abu Becre e Omar ibne Alcatabe, que lhe asseguraram uma pensão até sua morte, em 637. Sepultada no Cemitério de Albaqui, sua memória permaneceu associada tanto ao nascimento de Ibraim quanto às recomendações atribuídas a Maomé para que os muçulmanos tratassem favoravelmente os egípcios, considerados seus parentes por afinidade em razão de sua ligação com Maria.
Vida
Maria, a Copta, era filha de um copta oriundo do Alto Egito, embora algumas tradições afirmem que seu pai fosse originalmente persa ou grego. Sua mãe é descrita pelas fontes como uma cristã de origem grega. F. Buhl registra ainda uma tradição segundo a qual seu pai chamava-se Xamume. Em 7 A.H. (628), quando Maomé enviou emissários aos governantes dos países vizinhos convidando-os a aceitar o islã, despachou com uma carta dirigida a Almucauquis, governador bizantino de Alexandria e dirigente do Egito. Embora, segundo a tradição islâmica, Almucauquis tenha recebido favoravelmente a mensagem, não aderiu ao islã por receio do imperador bizantino. Em resposta, enviou a Maomé uma carta acompanhada de diversos presentes, entre eles Maria e sua irmã , ambas escravas, além do eunuco Mabur, mil meticais de ouro, tecidos, perfumes, um jumento, a mula Duldul e outros bens. Algumas tradições acrescentam que também foram enviadas outras duas escravas.
Segundo uma tradição, durante a viagem de regresso a Medina Hatibe apresentou o islã a Maria e Sirim, que aceitaram a nova religião antes mesmo de chegarem à cidade. Outras narrativas afirmam que ambas se converteram somente após ouvirem a pregação de Maomé em Medina. O eunuco Mabur, por sua vez, teria abraçado o islã posteriormente, ainda durante a vida de Maomé. Maomé tomou Maria como concubina, enquanto presenteou Sirim ao poeta Haçane ibne Tábite. Inicialmente Maria permaneceu hospedada na casa de , embora algumas fontes mencionem a residência de . Posteriormente foi instalada numa casa situada na região de Cufe, no distrito de Auali, na parte alta de Medina. F. Buhl observa que Maomé lhe demonstrava grande afeição, visitando-a frequentemente tanto de dia quanto à noite, razão pela qual sua residência passou a ser conhecida como Mašrabat Umm Ibrāhīm ("o pavilhão da mãe de Ibraim").
Pouco tempo depois, alguns indivíduos passaram a divulgar rumores acerca da relação entre Maria e Mabur, o servo copta que a acompanhara do Egito. Segundo a tradição preservada pela TDV, Maomé encarregou Ali ibne Abi Talibe de investigar a acusação. A apuração demonstrou que Mabur era eunuco, fazendo cessar imediatamente os boatos. F. Buhl observa que o surgimento dessas acusações não é surpreendente, considerando que Maria foi a única mulher de Maomé, após a morte de Cadija, a dar-lhe um filho, circunstância que naturalmente poderia despertar suspeitas entre pessoas mal-intencionadas. Em Dulrija de 8 A.H. (abril de 630), Maria deu à luz Ibraim ibne Maomé, único filho homem nascido de Maomé após a Hégira. Com esse nascimento adquiriu a condição jurídica de ume ualade, passando a não poder mais ser vendida e garantindo sua liberdade após a morte do senhor. Ibraim morreu ainda criança. Segundo uma tradição citada por F. Buhl, sua morte coincidiu com um eclipse solar ocorrido em 27 de janeiro de 632, poucos meses antes da morte de Maomé.
A beleza de Maria e o afeto que Maomé lhe dedicava despertaram ciúmes entre suas demais esposas, sobretudo Aixa. F. Buhl observa que Maomé demonstrava particular afeição pela concubina copta, circunstância que intensificou a rivalidade doméstica. Segundo a tradição mais difundida, certa vez Háfeça binte Omar regressou inesperadamente à sua residência e encontrou Maomé em companhia de Maria num dia que, pelo sistema de rodízio entre as esposas, lhe era destinado. Profundamente contrariada, Háfeça recebeu de Maomé a promessa de que ele se afastaria de Maria, pedindo-lhe, porém, que mantivesse o ocorrido em segredo. Háfeça comunicou o episódio a Aixa, levando, segundo essa tradição, à revelação dos dois primeiros versículos da sura at-Tahrim, nos quais Deus censura Maomé por proibir a si próprio aquilo que lhe havia sido tornado lícito apenas para agradar às suas esposas.
A tradição islâmica, entretanto, preserva outra explicação para a ocasião da revelação desses versículos. Segundo um hádice transmitido por Albucari, o motivo teria sido a decisão de Maomé de abster-se de beber mel na casa de Zainabe binte Jaxe, depois que algumas de suas esposas manifestaram desagrado com esse costume. Aynur Uraler observa que ambas as tradições podem representar circunstâncias distintas relacionadas ao mesmo conjunto de versículos. F. Buhl considera plausível que a promessa de afastar-se de Maria esteja ligada ao contexto da sura, mas chama atenção para uma dificuldade interna da narrativa tradicional: o texto corânico menciona que Maomé confiara um segredo a uma de suas esposas, sem que a versão relacionada a Maria explique satisfatoriamente em que consistiria exatamente esse segredo. Após a morte de Maomé, Abu Becre e Omar ibne Alcatabe continuaram a honrar Maria, assegurando-lhe uma pensão regular. Ela permaneceu em Medina até falecer, segundo F. Buhl, em Moarrão de 16 A.H. (fevereiro de 637). A tradição preservada pela TDV registra que seu funeral foi presidido por Omar, que conduziu a oração fúnebre antes de seu sepultamento no Cemitério de Albaqui.
Legado
Maria ocupou posição singular entre as companheiras de Maomé por ter sido a única de suas concubinas e a única mulher, depois de Cadija, a dar-lhe um filho. Seu filho Ibraim ibne Maomé, embora tenha morrido ainda na infância, tornou-se figura recorrente na tradição biográfica de Maomé, e a residência onde Maria viveu em Medina permaneceu conhecida como Mašrabat Umm Ibrāhīm ("Pavilhão da Mãe de Ibraim"), preservando sua memória na topografia histórica da cidade. Segundo a tradição preservada pela TDV, o vínculo estabelecido por meio de Maria levou Maomé a considerar os egípcios seus parentes por afinidade. Em razão disso, recomendou aos muçulmanos que tratassem bem a população do Egito quando aquele território viesse a ser conquistado. A recomendação, transmitida em coleções de hádices, foi posteriormente associada à conquista muçulmana do Egito durante o califado de Omar , ocasião em que, segundo a tradição islâmica, procurou-se observar essa orientação de Maomé.
Bibliografia
Categoria:Coptas Categoria:Esposas de Maomé Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Albaqui