Adelina Lydia de Bittencourt (Porto Alegre, 6 de dezembro de 1870 – Porto Alegre, 20 de dezembro de 1925) foi uma professora pública negra de Porto Alegre, formada pela Escola Normal em 1888, com carreira docente de 33 anos no magistério público do Rio Grande do Sul. Pertencente a uma família negra de reconhecida respeitabilidade, a família Bittencourt, ligada ao jornal O Exemplo, Adelina representou o investimento de uma geração na instrução como caminho de ascensão social e combate ao racismo. Sua trajetória destaca-se por três eixos: a conquista da carreira pública em um contexto de crescente branqueamento do magistério, a subversão dos papéis de gênero impostos às mulheres negras, e o simbolismo de sua morte ocorrida em pleno exercício do dever, após um discurso de formatura no Colégio Elementar Treze de Maio, escola cujo nome evocava diretamente a Abolição. Seu legado educacional atravessou gerações, sendo seguido por sua filha Celina Pederneiras e sua neta Nelly Cunha, referência no magistério gaúcho nas décadas de 1960 e 1970.
Origem Adelina Lydia de Bittencourt nasceu em 1870, filha de Aurélio Veríssimo de Bittencourt (1834–1919) e Joana Joaquina do Nascimento (1837–1894). Era, portanto, a segunda filha do casal, nascida dois anos após o casamento dos pais, celebrado na noite de 28 de dezembro de 1868, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Porto Alegre. Aurélio Veríssimo era funcionário público de longa carreira, secretário da Presidência do Estado do Rio Grande do Sul e figura central na comunidade negra de Porto Alegre, tendo participado do Partenon Literário e sido cofundador do jornal O Exemplo (1892), periódico de imprensa negra gaúcha. Joana Joaquina era filha natural de Joaquim Manoel do Nascimento e Maria Magdalena da Conceição e foi descrita como "parda" em seu registro de óbito. A família Bittencourt construiu ao longo de gerações um projeto coletivo de ascensão social calcado em instrução, inserção no funcionalismo público, redes associativas e engajamento na imprensa negra. Adelina foi parte central desse projeto e sua via de acesso foi o magistério público.
Formação Seguindo o projeto familiar de ascensão social por meio da instrução, Adelina ingressou na Escola Normal de Porto Alegre em 1886, instituição destinada a formar professores/as para o ensino primário provincial, com curso de dois anos aberto a homens e mulheres. Em 1888, Adelina forma-se aluna-mestra pela Escola Normal, alcançando a terceira melhor pontuação entre as formandas.
Carreira docente Em 1894, Adelina ingressou no magistério público estadual, dando início à sua carreira docente que duraria 33 anos. Seis anos após ingressar no magistério, Adelina foi nomeada professora da 6ª aula do sexo feminino, localizada entre as ruas Fernando Machado, Duque de Caxias, Espírito Santo e Bento Martins, em Porto Alegre, com aula mista por algum período. Adelina passou a integrar o grupo de examinadores das aulas públicas da capital, permanecendo na 6ª aula ao menos até esse ano.
Reconhecimento Em reconhecimento à sua dedicação e competência no magistério, o Presidente do Estado decretou uma "gratificação especial da quarta parte dos respectivos vencimentos" para Adelina, o que lhe rendeu um acréscimo de 810$000 réis anuais. À época, era professora de 3ª entrância e atuava no Colégio Elementar Treze de Maio.
Paraninfa e morte em serviço Adelina foi escolhida por unanimidade pelas alunas formandas do Colégio Elementar Treze de Maio para paraninfar a turma de 1925. A cerimônia de formatura realizou-se na manhã do dia 20 de dezembro de 1925. Durante a cerimônia, proferiu um "eloquente discurso, repleto de conselhos e ensinamentos". Transcorridos alguns minutos após a conclusão da leitura, sentiu-se repentinamente mal e tombou ao solo, já morta, pouco depois das nove da manhã, vítima de um colapso cardíaco. Tinha 55 anos de idade, seu corpo foi velado na própria escola, acompanhado por todas as professoras e alunas do colégio, e transferido posteriormente para a residência da família, à rua Lima e Silva, 207. O sepultamento ocorreu na carneira n. 279 do Cemitério São Miguel e Almas. Na ocasião do funeral, o vice-presidente do Estado, Dr. Protásio Alves, delegou ao prof. Jules Lebrum a representação oficial para apresentar condolências à família, o que revela o prestígio e o reconhecimento público conquistado por Adelina. O sobrinho Dario de Bittencourt, então redator de A Federação e diretor de O Exemplo, redigiu o necrológio publicado no dia seguinte (21 de dezembro de 1925) e o reproduziu no mês seguinte no periódico negro.
Vida pessoal Adelina casou-se com Júlio José Machado, comerciante e posteriormente funcionário municipal. O processo de habilitação de casamento está datado de 01/01/1897. Do casamento com Júlio nasceram dois filhos: Aquiles José Machado e Celina de Bittencourt Machado. Celina casou-se em 5 de janeiro de 1918 com Romeu Pederneiras, funcionário de um dos cartórios de notas da capital.
Adelina lecionou para o sobrinho Dario de Bittencourt (filho de Aurélio Júnior) em uma aula mista da capital, sendo sua professora de instrução primária entre 1909 e 1910. Dario a chamava carinhosamente de "Tia Chinoca" e descreveu sua aula como marcada pela "rigidez e pela disciplina, pois a mestra era 'da velha escola'".
Significado histórico Adelina era uma mulher negra, pertencente a uma família que teve consciente pertencimento racial. Os registros de óbito de sua mãe, Joana, e de seu pai, Aurélio, indicam a qualificação de "pardos", e Paulo Moreira sublinha a consciência racial do casal na formação familiar. Perussatto, em sua tese de doutorado, pontua que Adelina, ao atuar como professora pública em uma cidade que tendia ao branqueamento do magistério, foi uma exceção significativa e um símbolo de resistência. Perussatto também argumenta que Adelina subverteu a imagem da mãe-imaculada transformada em professora: ao investir em carreira pública além da maternidade e do matrimônio, ela transcendeu os papéis de gênero esperados para as mulheres de sua época e, mais ainda, os limites impostos às mulheres negras. O nome da escola onde Adelina morreu, no Colégio Elementar Treze de Maio é explicitamente apontado pela autora como simbólico: a data refere-se à Lei Áurea (13 de maio de 1888), que aboliu a escravidão no Brasil. Uma mulher negra que dedicou 33 anos ao magistério público morreu lecionando em uma escola que carregava no nome a data da Abolição e o fez enquanto exercia sua última função como educadora, com um discurso proferido como paraninfo.
Legado O legado educacional de Adelina prolongou-se por gerações: sua filha Celina Pederneiras seguiu os passos da mãe no magistério e sua neta Nelly Cunha tornou-se referência no magistério gaúcho nas décadas de 1960 e 1970.
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