Juan de Carvajal (Trujillo ou Villafranca del Bierzo, século XVI - El Tocuyo, 17 de setembro de 1546) foi um funcionário régio e conquistador espanhol activo na Província da Venezuela em meados do século XVI. Exerceu funções de governo por delegação do governador Juan de Frías e fundou, em 1545, a cidade de El Tocuyo, inicialmente denominada Nuestra Señora de la Pura y Limpia Concepción del Tocuyo. A sua actuação ficou marcada pelo conflito com os representantes da casa Welser, no qual ordenou a morte de Philipp von Hutten e de Bartolomé Welser. Foi posteriormente preso, julgado e executado em El Tocuyo, em setembro de 1546.

Origem e chegada à Venezuela

Segundo a Real Academia da História, Carvajal seria natural de Trujillo, na atual província de Cáceres. Na década de 1540, era relator da Audiência Real de Santo Domingo e tenente-general do licenciado Juan de Frías , governador interino e juiz de residência nomeado pela Audiência Real de Santo Domingo para a Província da Venezuela. Após a morte do governador alemão Enrique Remboldt, a Audiência nomeou Frías para intervir na província; como este não se deslocou de imediato, Carvajal exerceu funções de governo como seu delegado.

Chegou a Coro,o fim de dezembro de 1544 ou 1 de janeiro de 1545 acompanhado por Juan de Villegas, que designou seu tenente-general, assumiu funções como tenente de Juan de Frías. Frías seria posteriormente substituído por Juan Pérez de Tolosa, nomeado governador interino e juiz de residência por real cédula de 12 de setembro de 1545.

A legitimidade e a extensão dos poderes de Carvajal seriam mais tarde objecto de controvérsia, num contexto de disputa entre a Audiência de Santo Domingo, os colonos espanhóis e os administradores alemães da casa Welser.

Fundação de El Tocuyo

Em 1545, Carvajal conduziu uma expedição de Coro para o vale do rio Tocuyo e ali fundou a cidade de Nuestra Señora de la Pura y Limpia Concepción del Tocuyo, depois conhecida simplesmente como El Tocuyo, sendo a primeira povoação duradoura fundada no interior do actual território venezuelano.

A investigação histórica sobre El Tocuyo salienta que a fundação esteve ligada ao objectivo de estabelecer uma povoação agrícola e pecuária no interior, em contraste com as expedições de exploração aurífera promovidas pelos Welser. A mesma investigação nota, porém, que o processo foi condicionado por conflitos de jurisdição, tensões entre espanhóis e alemães e mecanismos coercivos de mobilização de colonos.

Fonte académica posterior, baseada em documentação e bibliografia colonial, indica que a expedição transportava 175 homens, 18 mulheres com filhos, 100 cavalos, 200 éguas, 300 vacas e 500 ovinos e suínos. A criação pecuária teria constituído a primeira actividade económica organizada do novo núcleo.

A posição de El Tocuyo, no interior e numa rota de passagem, favoreceu a sua consolidação. A cidade serviu como base para a expansão do povoamento espanhol em direcção a Barquisimeto, Borburata, Valencia, Trujillo e Caracas. A historiografia regional costuma referi-la como «Cidade-Mãe», em razão dessa função de centro irradiador de expedições e novos assentamentos.

A atribuição de encomiendas em El Tocuyo é objecto de alguma divergência nas fontes. Segundo a Fundación Empresas Polar, as primeiras foram concedidas por Carvajal e posteriormente confirmadas por Juan Pérez de Tolosa. Contudo, o historiador Eduardo Arcila Farías indica que Pérez de Tolosa considerou nulo o repartimento feito por Carvajal, por falta de jurisdição, e expediu novos títulos aos mesmos beneficiários.

Conflito com os Welser

A Província da Venezuela encontrava-se, desde 1528, sob uma concessão da Coroa espanhola à casa bancária alemã Welser. Em 1546, Philipp von Hutten e Bartolomé Welser regressaram à região de Coro depois de uma longa expedição ao interior. O encontro com Carvajal ocorreu num contexto de disputa pela autoridade sobre a província e pelo controlo de El Tocuyo.

Segundo um estudo de Blanca De Lima e Jorge Jaber, Hutten encontrou-se com Carvajal em El Tocuyo em 24 de abril de 1546. Cinco dias depois, os dois grupos acordaram que Hutten e os seus companheiros poderiam seguir para Coro após a restituição de armas e cavalos. O acordo não impediu que Carvajal os mandasse perseguir e deter no mês seguinte.

A documentação do processo de residência identifica como vítimas Philipp von Hutten, Bartolomé Welser, Gregorio de Plasencia e Diego Romero. A sentença posterior considerou provada, com base em testemunhos e na confissão de Carvajal, a morte dos quatro homens.

O episódio marcou o fim de facto da administração alemã na Venezuela, embora a concessão dos Welser tenha permanecido formalmente em litígio até 1557.

Prisão, julgamento e morte

A Coroa enviou Juan Pérez de Tolosa como governador e juiz de residência da Província da Venezuela. Tolosa chegou a Coro em junho de 1546, iniciou a averiguação contra Carvajal em 30 de junho e ordenou a sua detenção em 8 de julho.

Carvajal rendeu-se sem resistência em El Tocuyo. O julgamento iniciou-se em 27 de agosto; no dia anterior haviam sido encontrados títulos que ele teria falsificado para se apresentar como governador da província, e não apenas como tenente encarregado em Coro.

A sentença foi proferida em 16 de setembro de 1546. A documentação do processo determinava que Carvajal fosse retirado da prisão, levado «atado a la cola de un caballo» e conduzido até à forca, onde deveria ser enforcado. Foi igualmente condenado a pagar as despesas do processo, da execução e do instrumento utilizado para a pena. Os seus bens não chegaram para cobrir os custos judiciais.

A execução ocorreu em 17 de setembro de 1546. Segundo a edição documental citada por Blanca De Lima e Jorge Jaber, Carvajal declarou que «él solo tenía la culpa» pelas mortes de Philipp von Hutten, Bartolomé Welser, Gregorio de Plasencia e Diego Romero.

A existência documental do processo, da confissão, da condenação e da execução está registada no inventário dos fundos do Arquivo Geral das Índias, descrito como um processo de 183 páginas relativo à morte de Hutten, Welser, Romero e Plasencia.

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