Cabar (frequentemente documentado sob as formas compostas Cabar-Sul ou Dea Cabar) é uma divindade indígena pertencente ao panteão galaico-lusitano e hispano-celta pré-romanoVASCONCELOS, José Leite de (1905). Religiões da Lusitânia. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 317-318.. Cultuada no noroeste da Península Ibérica durante o período de romanização, a divindade manifesta um caráter polivalente, alternando entre atributos de cariz solar, termal e medicinal e funções ligadas à aristocracia militar e à soberania regionalTeixeira, Monteiro (2014). Cultos e Deuses da Lusitânia Pré-Romana. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa."Cabar-Sul: Un dios solar de los lusitanos". In: RedHistoria: Lista de divinidades de Hispania (2018)..
Evidência Epigráfica A existência histórica do culto a Cabar assenta no registo arqueológico de inscrições votivas gravadas em aras e monumentos de pedra recuperados na antiga província da Lusitânia e em territórios vizinhos da Gallaecia"El altar levantado por el imaginifer de la cohors IIII Gallorum a una deae Cabar". In: Soldados y territorio en la Hispania Citerior Altoimperial / UAB (2018). p. 415..
Um dos testemunhos materiais mais célebres foi erguido por um oficial do exército romano, o imaginifer (porta-estandarte com a efígie do imperador) da Cohors IIII Gallorum, chamado Sulpícius Avitus. O monumento exibe a dedicatória latina integral direcionada à divindade local:"Estudos de Toponimia Galega: DEAE CABAR / SVL(picius) AVICTVS...". Scribd / Deputación da Coruña. p. 114. DEAE CABAR SVLPICIVS AAVITVS V(OTUM) S(OLVIT) L(IBENS) M(ERITO)
Análise Linguística e Atribuições
O Complexo Cabar-Sul e Sulis Muitas das correntes de mitologia comparada contemporânea analisam o teónimo através da sua variante composta Cabar-Sul. Historiadores e filólogos estabelecem uma correlação direta entre o elemento -Sul e a deusa pan-céltica britânica Sulis (venerada no famoso complexo termal de Aquae Sulis, atual Bath, no Reino Unido)"Cabar sul, que era una deidad solar y además de las aguas termales". In: Celts of Iberia Folklore / Heyzine (2022). p. 34..
Sob esta perspetiva, Cabar operava como uma divindade ligada às águas termais e curativas que brotavam das entranhas da terra, fundindo o poder ctónico do submundo com as qualidades medicinais da superfície. O seu forte caráter ambíguo ou andrógino (sendo descrita umas vezes como entidade masculina e outras como feminina) levou a que os romanos a sincretizassem com o deus Apolo (na sua vertente de Apolo Borvo, protetor das fontes térmicas) ou com a deusa Minerva (Minerva Cabardiacensis), justificando o culto por parte de militares de alta patente.
Onomástica e Antroponímia Regional O radical Cabar- ou Cabru- exibe uma forte implantação na área linguística celta e indo-europeia da Península Ibérica. O étimo encontra-se documentado na forma de genitivos de plural e antropónimos (nomes de pessoas) registados no interior do território, tais como os clãs Caburateicum, Caburicum e Caburonicum em Ávila, além de derivar no teónimo galaico dos Bracari conhecido como Cabuniaegenis"Cabar- surge também nos genitivos de plural Caburateiq(um) e no teónimo indígena Cabuniaeginus". In: Epigrafia romana na região de Bragança / Coimbra (2001). p. 125.. Esta ligação onomástica reforça a teoria de que Cabar atuava simultaneamente como uma divindade de soberania, protegendo a elite e os chefes das aristocracias locais que lideravam os Castros tribais.
Ver também Cabuniaegenis Sulis Mitologia lusitana
Referências
Categoria:Mitologia lusitana Categoria:Mitologia celta Categoria:Deuses das águas