Sopé é, em geomorfologia, a zona de transição entre a base de uma cadeia montanhosa ou de um maciço elevado e a planície ou depressão adjacente. Também denominado piemonte (do italiano piemonte, derivado do latim pes montis, "pé da montanha"), é um domínio morfológico caracterizado por superfícies de baixo declive resultantes da interação entre os processos erosivos que recuam a frente montanhosa e os processos deposicionais que acumulam sedimentos à sua frente. A zona de sopé concentra formas geomorfológicas distintas — o pedimento, os leques aluviais e a bajada — e ocupa posição central nas teorias de evolução do relevo, notadamente nos modelos de pediplanação desenvolvidos ao longo do século XX.

O termo é empregado tanto na acepção estritamente topográfica, referindo-se à base imediata de uma elevação, quanto no sentido geomorfológico mais amplo, que abrange toda a superfície inclinada desenvolvida ao pé de montanhas e escarpas, em especial em climas áridos e semiáridos. Na literatura científica brasileira e portuguesa coexistem as denominações sopé, zona de piemonte, glacis de piemonte (do francês glacis de piémont) e pedimento (do inglês pediment).

Terminologia A palavra piemonte deriva do latim pes montis ("pé da montanha") e tornou-se topônimo na região noroeste da Itália — o Piemonte —, área historicamente situada ao sopé dos Alpes. Na literatura geomorfológica de língua francesa, o equivalente piémont foi sistematizado pelo geógrafo Jean Dresch, que em 1938 empregou a expressão glacis de piémont para descrever superfícies aplainadas formadas ao sopé de maciços montanhosos no norte da África.DRESCH, J. Les surfaces du piémont dans les Djebilet et le massif central du Grand Atlas. Compte Rendu Congress Internationale de Géographie, Amsterdam, v. 2, section 2a, 1938.

Na tradição anglófona, o termo piedmont (tomado do francês piémont) designa tanto a zona em si quanto o perfil típico de declive nela observado (piedmont slope ou piedmont profile). O geomorfólogo estadunidense W. J. McGee foi o primeiro a utilizar o vocábulo pediment em sentido técnico, em 1897, para denominar as superfícies rochosas planas com suave inclinação que identificou em regiões áridas do sudoeste dos Estados Unidos.MCGEE, W. J. Sheetflood erosion. Geological Society of America Bulletin, v. 8, n. 1, p. 87–112, 1897. doi:10.1130/GSAB-8-87. Na literatura de língua alemã, o conceito foi sistematizado por Walther Penck, que denominou Piedmonttreppe ("degrau de piemonte") as superfícies escalonadas resultantes do recuo progressivo das vertentes.PENCK, W. Die morphologische Analyse. Stuttgart: J. Engelhorns Nachf., 1924.

Em português, o Novo Dicionário Geológico-Geomorfológico define sopé como a parte inferior da encosta de uma montanha ou colina, onde a vertente encontra o terreno subhorizontal.GUERRA, A. T.; GUERRA, A. J. T. Novo dicionário geológico-geomorfológico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

Morfologia

Ângulo de sopé A transição entre a vertente montanhosa e o sopé é marcada por uma quebra abrupta de inclinação, conhecida em inglês como piedmont angle e denominada em português ângulo de sopé ou cotovelo de erosão. Acima desse ângulo, a encosta pode apresentar inclinação de 15° a quase vertical; abaixo dele, a superfície decresce suavemente para valores entre 0,5° e 7°.CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. São Paulo: Edgard Blücher, 1974. A nítidez desse ângulo é maior em regiões áridas e semiáridas, onde os contrastes entre as forças erosivas que atuam sobre a frente rochosa e o regime de transporte laminar (sheetflood) no sopé são bem definidos.

Pedimento O pedimento (pediment em inglês; glacis d'érosion ou glacis rocheux em francês) é a feição erosional mais característica do sopé. Trata-se de uma superfície de muito baixo declive, talhada na rocha-base ou em material muito compacto, frequentemente recoberta por uma delgada camada de seixos e cascalhos de origem fluvial. Sua inclinação varia tipicamente entre 0,5° e 7°, e sua gênese está associada ao recuo paralelo das escarpas e à erosão laminar por lençóis d'água que percorrem a superfície durante eventos de precipitação intensa.BIGARELLA, J. J.; MOUSINHO, M. R.; SILVA, J. X. Pediplanos, pedimentos e seus depósitos correlativos no Brasil. Boletim Paranaense de Geomorfologia, n. 16/17, p. 117–151, 1965.

O debate sobre a gênese dos pedimentos opôs, ao longo do século XX, diferentes escolas. William Morris Davis enfatizou o papel da meteorização e do recuo da escarpa como mecanismo dominante, enquanto outros pesquisadores defenderam a erosão lateral de correntes canalizadas (streamfloods) como processo primordial. A sistematização mais influente coube a Lester King (1907–1989), que, a partir de estudos na África do Sul e no Brasil, propôs que o pedimento é a forma fundamental da paisagem em regiões tropicais e subtropicais, e que a coalescência de pedimentos em escala regional resulta no pediplano.KING, L. C. A geomorfologia do Brasil oriental. Revista Brasileira de Geografia, v. 18, n. 2, p. 147–265, 1956.

Leque aluvial miniaturadaimagem|Leques aluviais na frente montanhosa dos Andes, em Los Penitentes, Mendoza, Argentina. A coalescência lateral de múltiplos leques forma a bajada. O leque aluvial é uma feição deposicional em forma de cone ou leque que se forma onde uma corrente de água abandona um canal confinado (uma garganta ou cânion montanhoso) e passa a fluir livremente sobre o sopé. Com a perda brusca de confinamento, a velocidade do escoamento decresce e a carga sedimentar é depositada em uma estrutura radiante que afina distalmente. Os depósitos são tipicamente grossos na cabeceira (seixos, blocos) e progressivamente mais finos na parte distal (areias, siltes). Os maiores leques conhecidos encontram-se ao sopé do Himalaia, na Planície Indo-Gangética.CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia Fluvial. São Paulo: Edgard Blücher, 1981.

Bajada A bajada (do espanhol, "descida" ou "declive") é a feição deposicional resultante da coalescência lateral de múltiplos leques aluviais ao longo de uma frente montanhosa. Enquanto o pedimento é de natureza erosional e expõe a rocha-base, a bajada é construída por acumulação de sedimentos: constitui, portanto, a zona deposicional do sopé que se conecta, nas regiões áridas, às bacias fechadas com playas. A granulometria decresce da cabeceira para a zona distal, e a superfície pode exibir drenagem entrelaçada ou anastomosada.

Inselbergs Nas zonas de sopé em processo avançado de pediplanação, emergem comumente os inselbergs (do alemão, "montanha-ilha"): maciços rochosos residuais que se destacam isoladamente sobre a superfície aplainada, representando volumes de rocha mais resistente que resistiram ao recuo contínuo das escarpas. São abundantes no semiárido nordestino brasileiro, onde se apresentam como serras e morros residuais, e também em extensas áreas da África subsaariana e da Austrália.KING, L. C. The Morphology of the Earth: A Study and Synthesis of World Scenery. London: Oliver and Boyd, 1962.

Processos de formação A gênese das superfícies de sopé resulta da interação entre dois grupos de processos. O primeiro é o recuo das vertentes montanhosas por meteorização e erosão: a frente rochosa regride ao longo do tempo, deixando exposta a rocha-base que compõe o pedimento. O segundo é a ação dos lençóis d'água e de fluxos concentrados que removem os detritos produzidos e os transportam para a zona deposicional distal.

Entre os processos específicos identificados pela literatura, destacam-se: (a) a erosão laminar (sheetflood), responsável pelo transporte de material em fluxos difusos e pouco profundos sobre a superfície do pedimento; (b) a erosão lateral de canais, que alarga os vales ao sopé da escarpa; e (c) a meteorização diferencial, que enfraquece a base da escarpa e acelera seu recuo vertical. A importância relativa de cada processo varia com o clima, a litologia e o estado evolutivo da paisagem.

Em climas áridos, onde a cobertura vegetal é esparsa, o escoamento laminar e as sheetfloods constituem agentes particularmente eficazes na remoção de material e na manutenção do pedimento. Em ambientes mais úmidos, o papel da drenagem linear é mais pronunciado, e as superfícies de sopé podem ser parcialmente mascaradas por manto de alteração espesso.

Distribuição e contexto climático Embora mais facilmente identificáveis em ambientes áridos e semiáridos — onde a escassez de vegetação expõe a morfologia e favorece o escoamento laminar — as formas de sopé ocorrem em praticamente todos os climas. Em regiões de clima úmido e tropical, pedimentos podem estar cobertos por manto de intemperismo espesso e exigir sondagens para identificação, mas pesquisas no Brasil demonstraram a existência de extensas superfícies pediplanadas sob cobertura vegetal densa.

As regiões clássicas de estudo dos sopés áridos incluem o sudoeste dos Estados Unidos (fisiografia Basin and Range), o norte de África (Saara e Atlas marroquino e argelino), o deserto do Namibe e os sopés andinos na vertente leste da Cordilheira dos Andes, especialmente nas zonas áridas do Chile e da Argentina. Na Ásia, destacam-se os piedemontes do Himalaia, do Hindu Kush e do Planalto Tibetano.

O sopé no Brasil O Brasil possui extensas superfícies de aplainamento interpretadas como evidências de ciclos de pediplanação. O geógrafo Lester King, em trabalho publicado em 1956, identificou ao menos seis superfícies escalonadas no relevo do Brasil oriental, atribuindo sua formação a ciclos de erosão separados por soerguimentos epirogenéticos ocorridos desde o Mesozoico.KING, L. C. A geomorfologia do Brasil oriental. Revista Brasileira de Geografia, v. 18, n. 2, p. 147–265, 1956.

Estudos de João José Bigarella, Mary Rosa Mousinho e João Xavier Silva (1965) detalharam os pedimentos e pediplanos brasileiros, demonstrando que as superfícies quaternárias do Sul e do Sudeste do país se formaram, ao menos em parte, durante as regressões glácio-eustáticas do Pleistoceno, quando o nível do mar era mais baixo e as redes de drenagem aprofundavam seus vales, expondo novas frentes de erosão nas bordas dos planaltos.

No semiárido nordestino, os sopés das serras cristalinas que circundam o Planalto da Borborema e os maciços residuais da região são compostos por pedimentos cobertos com delgada camada de material residual ou aluvionar. Essas superfícies planas de inclinação suave são fundamentais para o planejamento do uso da terra e para a avaliação da vulnerabilidade à desertificação na região.

Ocupação humana Historicamente, a zona de sopé atraiu assentamentos humanos em razão de vantagens naturais: solos relativamente férteis enriquecidos por detritos carreados das altitudes, disponibilidade de água subterrânea armazenada nos leques aluviais, topografia favorável à agricultura e proteção relativa contra inundações do fundo de vale. A distribuição de cidades ao sopé de cadeias montanhosas repete-se em todos os continentes, desde os assentamentos históricos no sopé dos Alpes e dos Apeninos até as metrópoles modernas desenvolvidas sobre leques aluviais nas costas oeste da América do Norte e nas planícies asiáticas.

Contudo, os sopés apresentam riscos naturais significativos: leques aluviais são frequentemente sujeitos a inundações súbitas (flash floods) e corridas de lama, em especial após eventos pluviométricos intensos sobre solos pouco permeáveis ou encostas desnudas. O crescimento urbano desordenado sobre leques aluviais, sem mapeamento geomorfológico prévio, expõe populações a risco geomorfológico expressivo.

Ver também

Contraforte Pediplanação Encosta Erosão Planície Intemperismo Serra Piemonte — região italiana homônima, localizada ao sopé dos Alpes

Ligações externas

Revista Brasileira de Geomorfologia — periódico científico com artigos sobre formas de sopé no Brasil. William Morris Davis — Revista de Geomorfologia — publicação acadêmica em acesso aberto sobre geomorfologia brasileira e mundial.