Atlantodesmus sierwaldae, popularmente chamado piolho-de-cobra, é uma espécie de diplópode da família dos (Chelodesmidae) e do gênero Atlantodesmus. É endêmica do Brasil e conhecida exclusivamente a partir de um único exemplar coletado no município de Paracatu, em Minas Gerais. Descrita em 2019 por Rodrigo Salvador Bouzan, Luiz F. Iniesta e Antonio Domingos Brescovit, a espécie foi descoberta durante uma revisão sistemática do gênero Atlantodesmus, grupo de milípedes neotropicais distribuídos principalmente na Mata Atlântica e, em menor medida, no Cerrado. O epíteto específico homenageia a miriapodóloga Petra Sierwald, e a espécie permanece conhecida apenas pelo macho holótipo depositado no Instituto Butantan.
A espécie distingue-se das demais representantes do gênero por uma combinação singular de características morfológicas, incluindo a coloração esbranquiçada dos paranotos e da margem posterior dos metatergitos, além da estrutura peculiar dos gonópodes masculinos, cujo acropódito apresenta extremidade em forma de capuz e processo prefemoral sem serrilhas. A análise cladística que acompanhou sua descrição confirmou a monofilia de Atlantodesmus e recuperou A. sierwaldae como integrante de um clado associado principalmente a áreas de Cerrado, juntamente com A. itapurensis. Apesar disso, pouco se conhece sobre sua biologia, ecologia ou distribuição real, uma vez que nenhum exemplar adicional foi encontrado desde sua descrição.
Devido à extrema escassez de informações disponíveis, Atlantodesmus sierwaldae foi classificado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) como dados insuficientes (DD). A única área conhecida de ocorrência situa-se em uma região sujeita a intensa transformação ambiental decorrente da expansão agrícola, do cultivo de pinheiro (Pinus) e da mineração. Como a espécie permanece conhecida apenas pela localidade-tipo e não existem informações sobre tamanho populacional, exigências ecológicas ou ocorrência em áreas protegidas, sua situação de conservação permanece incerta, ressaltando a necessidade de novos levantamentos de campo e estudos sobre sua história natural.
Taxonomia e sistemática
Atlantodesmus sierwaldae é uma espécie de diplópode da ordem dos polidésmidos, pertencente à família dos (Chelodesmidae) e à subfamília dos (Chelodesminae). Foi descrita em 2019 por Rodrigo Salvador Bouzan, Luiz F. Iniesta e Antonio Domingos Brescovit, com base em um macho adulto coletado no município de Paracatu, no estado de Minas Gerais. A descrição foi publicada no contexto de uma análise cladística do gênero Atlantodesmus, cujo objetivo foi testar sua monofilia e revisar caracteres morfológicos relevantes para a delimitação do grupo. O gênero Atlantodesmus havia sido estabelecido por Hoffman em 2000, tendo como espécie-tipo Leptodesmus eimeri Attems, 1898. O mesmo autor também havia descrito o gênero Iemanja, posteriormente sinonimizado com Atlantodesmus por Bouzan et al. em 2017. Com essa sinonimização, espécies anteriormente tratadas em Iemanja passaram a integrar Atlantodesmus. Na revisão de 2019, o gênero foi considerado composto por seis espécies: A. eimeri, A. itapurensis, A. pickeli, A. pintoi, A. teresa e A. sierwaldae. O epíteto específico sierwaldae é um patronímico em homenagem à pesquisadora Petra Sierwald, reconhecida por suas contribuições ao conhecimento dos milípedes. O holótipo é um macho adulto depositado no Instituto Butantan, sob o número IBSP 180. A fêmea da espécie permanece desconhecida.
Diagnóstico
Atlantodesmus sierwaldae distingue-se das demais espécies do gênero principalmente por caracteres da coloração corporal e da morfologia dos gonópodes masculinos. A espécie apresenta paranotos e borda posterior dos metatergitos esbranquiçados, além de acropódito com extremidade em forma de capuz, cobrindo o solenômero apenas em vista mesal. Outro caráter diagnóstico importante é o processo prefemoral do gonópode com margem lisa, sem serrilha distal, característica que a separa de espécies como A. pickeli e A. itapurensis, nas quais o processo prefemoral é serrilhado em diferentes graus. Os machos de Atlantodesmus, de modo geral, diferem de outros gêneros de quelodesmídeos por uma combinação de caracteres: ausência de projeções ventrais nos esternitos, embora A. itapurensis e A. teresa possuam um par de projeções no quarto esternito; presença de dobras na margem dorsal da região prefemoral do gonópode, exceto em A. pickeli; presença de cíngulo; e acropódito ramificado, formando um solenômero longo, fino e falciforme, acompanhado por um processo acropodital amplo, com região apical alargada e ultrapassando a ponta do solenômero.
Descrição
O macho holótipo mede 47,6 milímetros de comprimento total, com largura de 7,2 milímetros no quinto anel corporal. O mede 1,3 milímetro de comprimento e 5,5 milímetros de largura. Preservado em etanol a 70%, apresenta cabeça castanho-clara, com região labral esbranquiçada, antenas branco-amareladas e corpo castanho. Os paranotos e a margem posterior dos metatergitos são esbranquiçados, formando um padrão de coloração contrastante em relação ao restante do corpo. Os anéis corporais possuem tegumento levemente rugoso. Os paranotos são ligeiramente curvados dorsalmente, com cantos anteriores arredondados e margens posteriores agudamente projetadas. Os ozóporos e peritremas situam-se na borda posterior dos paranotos. Os esternitos não apresentam modificações. As pernas são branco-amareladas, sem modificações evidentes, e possuem cerdas finas e ligeiramente alongadas. A abertura gonopodal é transversalmente oval, com borda posterior escavada e provida de dobras. O télson é castanho-claro, com ápice esbranquiçado; o hipoprocto é triangular e possui duas cerdas.
Os gonópodes apresentam comprimento de 2,22 milímetros e largura de 1,79 milímetro. As coxas equivalem a cerca de metade do comprimento do telopodito e são proeminentemente arredondadas em vista ectal. Possuem duas ou três cerdas longas na região distal dorsal e duas ou quatro cerdas curtas acima da cânula, mas não apresentam processo espiniforme. A cânula tem formato de gancho. A região prefemoral corresponde a cerca de um terço do telopodito e possui dobras na face dorsal. O processo prefemoral é longo, largo, laminar e liso, com porção terminal expandida e ápice acuminado. O cíngulo é conspícuo e está situado abaixo das bases do solenômero e do acropódito. O solenômero é longo e falciforme, estreitando-se em direção a uma extremidade acuminada, e conduz o sulco seminal até o ápice. O acropódito é longo, ultrapassa o solenômero e o obscurece em grande parte de sua extensão quando observado em vista ectal. Sua extremidade possui formato de capuz. Em vista mesal, o processo prefemoral cobre o solenômero em grande parte de seu comprimento. O processo acropodital é fracamente esclerotizado, irregular e cobre a porção apical do solenômero em vista ectal.
Distribuição e habitat
Atlantodesmus sierwaldae é uma espécie endêmica do Brasil, conhecida exclusivamente do município de Paracatu, no estado de Minas Gerais. Sua ocorrência está inserida no domínio do Cerrado, na sub-bacia do Médio São Francisco. A espécie permanece conhecida apenas a partir do espécime-tipo utilizado em sua descrição original, não havendo registros adicionais confirmados desde então. Embora a localidade-tipo esteja situada em uma região de Cerrado, pouco se conhece sobre as preferências ambientais da espécie. O local exato de coleta do holótipo e a data de sua obtenção não foram registrados, o que limita o conhecimento sobre sua distribuição real, habitat específico e exigências ecológicas. Até o momento, não foram publicados dados sobre o uso de habitat, comportamento, ciclo de vida ou padrões de reprodução da espécie.
Biologia e ecologia
O conhecimento sobre a biologia de Atlantodesmus sierwaldae é extremamente limitado. Não existem informações publicadas sobre alimentação, reprodução, desenvolvimento, longevidade ou interações ecológicas. Assim como outros representantes da classe dos diplópodes, presume-se que a espécie possua hábitos terrestres e esteja associada ao solo e à serapilheira, mas essa hipótese ainda não foi confirmada por observações de campo. Também não há evidências de comportamento migratório ou de deslocamentos sazonais.
Relações filogenéticas
A análise cladística de Atlantodesmus foi baseada em 11 táxons e 30 caracteres morfológicos. Todas as espécies reconhecidas do gênero foram incluídas, juntamente com representantes externos pertencentes ou relacionados a diferentes linhagens de quelodesmídeos. A análise empregou pesagem implícita dos caracteres e recuperou duas árvores igualmente mais parcimoniosas sob constante k = 3, com comprimento de 58 passos, ajuste total de 23,150, índice de consistência de 0,64 e índice de retenção de 0,64. O consenso estrito dessas árvores recuperou Atlantodesmus como um grupo monofilético. A monofilia de Atlantodesmus foi sustentada por duas sinapomorfias e uma transformação homoplásica. As sinapomorfias indicadas foram a ausência de projeção ventral no esternito imediatamente posterior aos gonópodes e a presença de dobras na margem dorsal da região prefemoral do gonópode. A presença de cíngulo também foi recuperada como caráter de suporte, mas interpretada como transformação homoplásica, pois ocorre igualmente em Arthrosolaenomeris pantalanensis. Assim, o cíngulo pode ter surgido de forma recorrente em diferentes grupos de quelodesmídeos.
Apesar do suporte à monofilia do gênero, as relações internas entre as espécies permaneceram parcialmente incertas. Na topologia obtida, A. teresa foi recuperada como a primeira linhagem divergente dentro do gênero. As demais espécies formaram uma tricotomia envolvendo A. eimeri, o agrupamento A. itapurensis + A. sierwaldae e o agrupamento A. pickeli + A. pintoi. O clado formado por A. itapurensis e A. sierwaldae foi considerado biogeograficamente relevante por reunir espécies que ocorrem principalmente em áreas associadas ao Cerrado, enquanto os demais táxons do gênero são distribuídos exclusivamente na Mata Atlântica. A análise também indicou que Atlantodesmus não foi recuperado como próximo de Leiodesmus ou Arthrosolaenomeris, embora Hoffman tivesse sugerido anteriormente uma possível relação com esses gêneros, especialmente devido à presença do cíngulo no gonópode. Com base nos resultados obtidos, os autores consideraram que a posição tribal de Atlantodesmus permanece indefinida e ressaltaram que as relações filogenéticas dos quelodesmídeos ainda necessitam de estudos adicionais, tanto para melhor compreensão dos caracteres morfológicos quanto para a delimitação de gêneros e tribos dentro da família.
Conservação
O tamanho populacional de Atlantodesmus sierwaldae é desconhecido. Desde sua descrição científica, nenhum exemplar adicional foi registrado, mesmo após coletas realizadas em áreas próximas à localidade conhecida da espécie. Em razão da ausência de dados, a tendência populacional permanece classificada como desconhecida. A inexistência de registros recentes não permite determinar se a espécie é naturalmente rara, possui distribuição extremamente restrita ou se simplesmente permanece subamostrada em razão da escassez de levantamentos direcionados. Atlantodesmus sierwaldae foi avaliado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) como dados insuficientes (DD), em avaliação publicada em 2023 e baseada na categoria atribuída em 15 de dezembro de 2021. A classificação reflete a escassez de informações disponíveis sobre sua distribuição, ecologia, biologia e tamanho populacional, que impossibilita uma avaliação adequada de seu risco de extinção.