Cleone Santos (Juiz de Fora, 22 de dezembro de 1957 — São Paulo, 10 de maio de 2023) foi uma ativista feminista brasileira, sindicalista, líder comunitária e gestora pública. Mulher negra e pobre, viveu por 18 anos em situação de prostituição no centro de São Paulo e tornou-se referência nacional na defesa dos direitos de mulheres nessa condição, na luta por moradia e no desenvolvimento de políticas públicas voltadas a populações marginalizadas. Cofundadora da ONG Mulheres da Luz, articulou a experiência vivida com a militância feminista, sindical e pelo direito à moradia, a partir de uma perspectiva crítica de classe, raça e gênero.

Biografia Cleone Santos nasceu em 22 de dezembro 1957, em Juiz de Fora, estado de Minas Gerais, em família pobre. Aos 14 anos migrou para São Paulo, onde rapidamente se inseriu em redes de militância popular. Mãe de três filhos e avó de três netos, iniciou sua trajetória como operária nas indústrias do ABC paulista, onde se aproximou do movimento sindical e deu os primeiros passos na militância social.

Depois de trabalhar em lojas do Bom Retiro, ao final de um casamento abusivo, acabou em situação de prostituição nas ruas do centro de São Paulo, onde passou 18 anos.

Trajetória na militância

Sindicalismo nas metalúrgicas e movimento de desempregados A formação política de Cleone Santos teve início na fábrica, com a militância sindicalista. Como operária, trabalhou em metalúrgicas no ABC paulista, onde aprendeu sobre organização sindical e luta de classes, e acabou sendo demitida em decorrência de sua atuação em movimentos grevistas. Engajou-se também no movimento de desempregados do ABC e no movimento de mulheres — dois eixos centrais das mobilizações populares das décadas de 1980 e 1990. Essa experiência contribuiu para a formação de uma liderança cuja legitimidade derivava não de mandatos ou cargos institucionais, mas da experiência direta com as condições de vida dos grupos que mobilizava.

Luta por moradia Paralelamente à militância sindical, Cleone atuou na organização de núcleos de trabalhadores desempregados e nas mobilizações pelo direito à moradia. Essa experiência no movimento de moradia seria retomada décadas depois, quando participou da ocupação da Casa Carolina Maria de Jesus, em Santo André, e do Movimento de Mulheres Olga Benário.

Pastoral das Mulheres Marginalizadas e Marcha Mundial das Mulheres Durante o período em que viveu em situação de prostituição, Cleone manteve sua militância ativa. Aproximou-se da Pastoral das Mulheres Marginalizadas, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), espaço onde se discutiam questões práticas e políticas relativas à situação das mulheres marginalizadas.

Sua entrada na Marcha Mundial das Mulheres representou um momento de tensão e superação. Ao questionar freiras que conduziam os debates sobre o então chamado "Projeto Gabeira" — por que elas falavam pelas mulheres, se as próprias mulheres estavam lá e podiam falar —, foi desafiada a ir ela mesma às reuniões. Aceitou o desafio, levou outras mulheres consigo e foi dali que nasceu a ideia de um trabalho orgânico com as mulheres em situação de prostituição.Nesse contexto, conheceu a freira Regina, da ordem Passionista, com quem fundou a ONG Mulheres da Luz, no Bom Retiro, em São Paulo, dedicada ao acolhimento e à emancipação de mulheres em situação de prostituição.

Entrada na Prostituição A entrada de Cleone na prostituição não resultou de uma decisão planejada, mas de uma sequência de circunstâncias materiais. Após perder o emprego nas metalúrgicas, passou a realizar trabalhos pontuais como empregada doméstica e faxineira, entre eles um serviço na rua José Paulino, no Bom Retiro, o que a levou a frequentar o Parque Jardim da Luz para passar as horas vagas. Nesse ambiente, foi abordada por um homem interessado em fazer programa. Recusou na primeira abordagem, mas o homem seguiu retornando com ofertas progressivamente maiores. Cleone, então solteira e com três filhos, preocupada com contas acumuladas, acabou aceitando. O encontro tornou-se rotineiro e, gradualmente, ela passou a atender outros clientes. A remuneração obtida era cerca de cinco vezes superior à do trabalho doméstico que realizava.

Permaneceu em situação de prostituição por 18 anos, sempre sonhando em deixá-la. Era com essa vivência que ela depois falava às outras mulheres, e era também a partir dela que recusava qualquer romantização do que havia passado. Em suas palavras:

Ao conseguir sair, não se afastou do universo que havia habitado: aproximou-se ainda mais dele por meio da militância, agora com a experiência vivida como instrumento de compreensão e de ação coletiva.

O perfil das mulheres que Cleone encontrou no Parque da Luz era socialmente homogêneo, composto por negras, com baixa escolaridade, muitas migrantes de outras regiões do Brasil, na faixa etária dos 35 aos 70 anos — em muitos casos mulheres ainda mais velhas. Em sua maioria mães, avós e bisavós, responsáveis pela principal fonte de renda de suas famílias.A maioria havia chegado à prostituição para complementar a renda ou pagar dívidas, encarando-a como situação passageira, de onde se originou o termo "situação de prostituição". Embora poucas conseguiam sair e algumas permaneciam em atividade até idades bastante avançadas, passando dos 60 anos.As mulheres viviam uma vida dupla em que circulavam pelos bairros onde moravam sem mencionar à família a origem dos recursos, o que aprofundava o isolamento e o sofrimento.

A manutenção dessa dupla rotina frequentemente envolvia a omissão da atividade para o núcleo familiar. Muitas dessas mulheres justificavam seus rendimentos declarando atuar em profissões como as de diarista, faxineira ou cozinheira — funções que, em alguns casos, exerciam de maneira concomitante para complementar a renda. O sigilo sobre o trabalho sexual muitas vezes se estendia por anos; a própria Cleone relatou que seus filhos apenas tomaram conhecimento de seu histórico na prostituição de forma acidentalː

Levantamento realizado pelo próprio coletivo em 2023 registrou que os valores cobrados por programa variavam entre R$ 20 e R$ 50, evidenciando a extrema precariedade econômica desse segmento.

ONG Mulheres da Luz

Fundação e contexto histórico Em meados de 2011, Cleone conheceu a freira católica Célia Regina Coradin, participante da Ordem Passionista de São Paulo da Cruz, que desde a década de 1980 trabalhava com mulheres em situação de prostituição.A partir de uma compreensão mútua das dificuldades vivenciadas pelas mulheres da região do Parque da Luz, as duas tiveram a iniciativa de criar uma rede de apoio, que se consolidou em 2013 com o Coletivo Mulheres da Luz. Em 2015, o coletivo constituiu-se juridicamente como parte da Associação Agentes da Cidadania, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) voltada à assistência social ampla e gratuita.

A escolha do Parque da Luz como território de atuação tem razões históricas profundas: trata-se de uma das regiões mais antigas de prostituição em São Paulo, com origens que remontam ao período colonial e que atravessou sucessivos processos de "higienização urbana", em que as mulheres foram deslocadas, mas permaneceram presentes naquele território.

Metodologia e serviços O trabalho da organização parte de uma perspectiva que recusa o assistencialismo e busca a educação de políticas públicas e o protagonismo das próprias mulheres atendidas. Cleone sintetizou essa orientação ao afirmar que a organização trabalhava "com elas", e não "para elas". O coletivo atua com base em três pilares — escuta, educação e saúde —, facilitando o acesso a políticas públicas de assistência social, saúde física e mental, além de oferecer atividades de alfabetização, formação e geração de renda.

As atividades abrangem: acolhimento e escuta individualizada; suporte em saúde mental, com equipe de psicólogos e psicanalistas que oferecem sessões individuais; promoção da saúde (bucal, ginecológica, fisioterapia, nutrição, oftalmologia); alfabetização e reforço escolar pelo programa "Escola da Luz", baseado em modelo de educação popular; cursos profissionalizantes e oficinas culturais; cooperativa de artesãs, com venda dos produtos e divisão do valor entre as participantes; atendimento psicológico e de assistência social; encaminhamento a advogados voluntários; distribuição de cestas básicas, kits de higiene e itens essenciais; e realização de bazares beneficentes com roupas doadas.

Na área de saúde pública, o coletivo mantém parcerias com a Faculdade de Medicina da Santa Casa e com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo para testagem, vacinação e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Parte das próprias mulheres atendidas atua como agentes de prevenção em campo, abordando colegas e distribuindo preservativos e orientações — um modelo que valoriza o saber experiencial e facilita a criação de vínculos de confiança.

Em 2023, a ONG contava com cerca de 300 mulheres cadastradas, chegando as ações a impactarem mais de 500 mulheres em situação de prostituição na região da Luz. Atualmente, o coletivo atende aproximadamente 120 mulheres por semana. A média de idade das mulheres atendidas é de 40 anos, com um espectro que vai de jovens de 18 anos a senhoras septuagenárias. As atividades incluem rodas de conversa e encontros definidos a partir das demandas das próprias participantes.

Em 2026, o coletivo atende aproximadamente 120 mulheres por semana, com atividades definidas a partir das demandas das próprias participantes, incluindo rodas de conversa, oficinas e acompanhamentos individuais. Em 2023, o público cadastrado já somava cerca de 300 mulheres em situação de prostituição, com impacto estimado em mais de 500 na região da Luz. A faixa etária é ampla, de 18 a mais de 70 anos, com média de 40 anos.

A noção de "mulheres em situação de prostituição" O coletivo adota a expressão "mulheres em situação de prostituição" em lugar de "trabalhadora sexual" ou "profissional do sexo" — escolha construída coletivamente desde 2005, em encontro nacional articulado pela Pastoral das Mulheres Marginalizadas, e reafirmada pela escuta direta nas rodas de conversa, nas quais a maioria das participantes declarou não se identificar com a prostituição como profissão, mas como condição transitória imposta pelas circunstâncias.

Para Cleone, manter o "direito de sonhar" era condição essencial para a sobrevivência naquele contexto de exclusão, violência e invisibilidade. A possibilidade de imaginar uma vida diferente — com acesso à educação, moradia e condições dignas de criação dos filhos — funcionava, em seu ponto de vista, como fator de resistência e de engajamento no processo de organização coletiva.

Posicionamentos políticos

Crítica à regulamentação da prostituição Cleone Santos posicionou-se publicamente contra os projetos de regulamentação da prostituição no Brasil, como o "Projeto Gabriela Leite", de autoria do então deputado Jean Wyllys (PSOL). Sua convicção, orientada pelas vivências com as mulheres do coletivo, era de que a regulamentação traria ganhos apenas aos donos de casas de prostituição, marginalizando ainda mais a maioria das mulheres em situação de prostituição — especialmente as que atuavam nas ruas, que passariam à condição de clandestinas no novo marco jurídico.Apontava ainda que, em países onde a regulamentação foi implementada, o tráfico de pessoas cresceu, com mulheres de países pobres sendo recrutadas para suprir a demanda das "casas", enquanto as nativas recusavam a exposição.

Sua posição era uma voz dissonante em parte do campo progressista, o que gerava tensões nos espaços onde circulava. A alternativa que defendia era estrutural, centrada na garantia de acesso às políticas públicas universais, como saúde, moradia, educação, assistência social e previdência, combinada com formação política de base nos territórios onde essas mulheres vivemː