Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil foi o enredo apresentado pela Acadêmicos de Niterói no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 2026. O samba-enredo homônimo foi composto por Teresa Cristina, André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr. O enredo, assinado pelo carnavalesco Tiago Martins, junto com o enredista e pesquisador Igor Ricardo, homenageou o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, narrando sua trajetória desde a infância em Garanhuns até o terceiro mandato na presidência brasileira. O desfile marcou a estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do carnaval carioca, três anos após o seu primeiro desfile.

Parlamentares de oposição a Lula moveram diversas ações na Justiça contra o desfile. A maioria questionando o recebimento de dinheiro público por parte da escola e uma possível propaganda eleitoral antecipada a favor de Lula, até então, pré-candidato a disputar a reeleição em 2026. A Justiça rejeitou as ações, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alertou que poderia reavaliar o caso após o desfile. Para evitar maiores desgastes com a Justiça, o Governo vetou a participação de ministros no desfile. Lula e a primeira dama, Janja Silva, também não desfilaram, mas acompanharam o desfile direto do Sambódromo.

A escola de Niterói foi a primeira a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, no domingo, dia 15 de fevereiro de 2026. Alguns especialistas apontaram o risco de rebaixamento da escola, listando problemas de evolução e harmonia, e a falta de acabamento nos quesitos plásticos. O desfile repercutiu na imprensa internacional e a escola foi a mais comentada do carnaval nas redes sociais. Causou polêmica uma ala chamada "Neoconservadores em conserva", que reproduzia uma lata de conserva com o desenho de uma família e a inscrição "Família em conserva". Parlamentares da oposição entraram com novas ações na Justiça, dessa vez, alegando preconceito religioso. A OAB-RJ, a Arquidiocese do Rio de Janeiro, e as frentes parlamentares Católica e Evangélica no Congresso Nacional emitiram notas em repúdio à polêmica ala.

A Acadêmicos de Niterói se classificou em último lugar entre as doze agremiações do Grupo Especial, sendo rebaixada de volta para a segunda divisão. A escola recebeu apenas duas notas máximas; sendo as duas no quesito Samba-enredo. A oposição comemorou o rebaixamento, enquanto governistas minimizaram a derrota, apontando que nos anos anteriores, as escolas promovidas do grupo de acesso também foram rebaixadas.

Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Desfile da Acadêmicos de Niterói no carnaval de 2025. Retrospecto A Acadêmicos de Niterói foi fundada em 26 de março de 2018, mas seu primeiro desfile foi no carnaval de 2023. A escola ocupou o lugar da Acadêmicos do Sossego, agremiação do município de Niterói, que cedeu seu direito de desfile para a Acadêmicos de Niterói. Com isso, a escola estreou no carnaval direto na segunda divisão, sem passar pelas divisões inferiores como normalmente acontece com as escolas novatas. Em seu primeiro carnaval, Niterói conquistou o quinto lugar. Em 2024 foi a oitava colocada. No carnaval de 2025 foi campeã da Série Ouro com um desfile sobre festas juninas, garantindo sua promoção inédita ao Grupo Especial com apenas seis anos de fundação e três anos de desfiles.

Preparação para 2026 Para fazer sua estreia na elite do carnaval carioca, a escola reformulou quase toda a sua equipe, com exceção do carnavalesco Tiago Martins, o único segmento renovado. Inicialmente, a escola contratou Mestre Vitinho para comandar a Bateria Cadência de Niterói. Posteriormente, Vitinho se desligou de Niterói para assumir a Bateria da Portela. Para ocupar seu lugar, foi contratado Mestre Branco Ribeiro. Emerson Dias assumiu o posto de intérprete oficial da escola. Emanuel Lima e Thainara Matias formaram o novo primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira; enquanto Weslley Cherry e Mariana Azevedo formaram o segundo casal. Marlon Cruz e Handerson Big foram contratados para coreografar a Comissão de Frente do desfile. A escola ainda montou uma Comissão de Direção de Carnaval com Saulo Tinoco, Hamilton Junior e Ricardo Simpatia; e uma Comissão de Direção de Harmonia com Marcelinho Emoção, Renato Kort e Fernando Honorato. A empresária e consultora fitness Vanessa Rangeli foi escolhida para ser a Rainha de Bateria da escola.miniaturadaimagem|280x280px|Presidente Lula foi o tema do enredo da Acadêmicos de Niterói.No dia 9 de julho de 2025, a escola divulgou oficialmente seu enredo para o carnaval de 2026: "Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil", uma homenagem ao então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. No dia 2 de agosto de 2025, a escola divulgou a sinopse e a logo oficial do enredo. O presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, foi recebido duas vezes, no Palácio do Planalto, pela então ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, nos dias 2 e 16 de outubro de 2025. A então primeira dama do Brasil, Janja Silva, visitou o barracão da escola, na Cidade do Samba, em 6 de outubro de 2025, acompanhada da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos. No dia 1 de janeiro de 2026 morreu Saulo Tinoco, um dos diretores de carnaval da escola, devido a problemas cardíacos.

Ao longo das semanas que antecederam o desfile, a agremiação realizou diversos ensaios em sua quadra e na Avenida Ernani do Amaral Peixoto, em Niterói. No seu primeiro ensaio técnico no Sambódromo, realizado na noite de 30 de janeiro de 2026, a escola levou telões de LED que exibiram memes, frases e montagens com a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro, em diálogo com trechos do samba-enredo da agremiação. Uma das imagens mostrava o ex-presidente com as mãos levantadas, sujas de sangue, acompanhadas da frase "Sem mitos falsos, sem anistia", verso presente na letra do samba da escola. Também foram exibidas montagens em que Bolsonaro surge vestindo uma roupa semelhante à de presidiário, abraçado à deputada federal Carla Zambelli. Na imagem, aparece a frase "Menino veste azul e menina veste rosa", com os dois políticos usando roupas nessas cores. Outra projeção mostrava o ex-presidente utilizando uma máscara de forma incorreta, acompanhada da pergunta "Quanto importa a vida?", em referência à Pandemia de Covid-19. Houve ainda uma imagem em que Bolsonaro aparece rindo, com a frase "Rindo igual a um condenado"; além de uma montagem simulando uma capa de revista, com o rosto do ex-presidente e o título "Pintou um clima". O uso das imagens causou reação em parlamentares da direita, que usaram suas redes sociais para protestar contra o ocorrido. Deputado estadual por São Paulo, Gil Diniz (do PL) denunciou a escola ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), definindo as imagens como "ofensivas", "humilhantes" e com "apologia à violência". No segundo ensaio técnico no Sambódromo, realizado na noite de 6 de fevereiro de 2026, debaixo de chuva, a escola não exibiu os memes de Bolsonaro, trocados por montagens sobre Lula. Janja acompanhou o ensaio direto da Sapucaí, junto com Anielle Franco e Bia Lula, neta de Lula.

Contestações na Justiça Parlamentares de oposição a Lula moveram cerca de dez representações contra o desfile, tanto na Justiça comum e na Justiça eleitoral, quanto no Tribunal de Contas da União (TCU) e na Procuradoria-Geral da República (PGR). A maioria das ações questionou o recebimento de dinheiro público por parte da escola e uma possível propaganda eleitoral antecipada a favor de Lula, até então, pré-candidato a disputar a reeleição em 2026. A Lei Eleitoral proíbe a propaganda de candidatos antes do dia 16 de agosto do ano da eleição. Sobre as acusações, o Governo Federal negou qualquer interferência no desenvolvimento ou na escolha do enredo do desfile.

Na Justiça comum

Em janeiro de 2026, o então deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP) ajuizou uma ação popular contra o repasse de um milhão de reais por parte da Embratur, órgão do Governo Federal, à Acadêmicos de Niterói. A verba é relativa a um termo de cooperação técnica firmado entre a Embratur e a Liesa, a liga das escolas de samba do Rio, para destinar doze milhões de reais às doze agremiações do Grupo Especial do carnaval carioca, sendo um milhão para cada escola. Na ação, Kataguiri argumentou que o repasse poderia configurar desvio de finalidade, afronta aos princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa, além de potencial dano ao erário; pedindo a suspensão imediata, em caráter liminar, do termo de cooperação, o bloqueio de novos repasses e a devolução dos valores já transferidos, além da responsabilização dos agentes envolvidos.

No dia 3 de fevereiro, a então senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também protocolou uma ação popular contra o desfile. Na ação, Damares pediu o ressarcimento integral ao erário dos valores recebidos pela agremiação e solicitou a proibição da transmissão de críticas políticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, sob pena de multa de dez milhões de reais a emissoras de rádio e televisão que descumprirem a eventual decisão judicial. No dia 11 de fevereiro, a Justiça Federal rejeitou as ações impetradas por Kim e Damares. Na decisão, o juiz federal Francisco Valle Brum argumentou que os pedidos não cumprem os requisitos necessários para a abertura de processo, visto que a ação popular só cabe quando o ato questionado, além de ilegal, causa ou pode causar prejuízo. No dia 9 de fevereiro, o senador Bruno Bonetti (PL-RJ) e o deputado estadual Anderson Moraes (PL-RJ) protocolaram uma ação popular na Justiça Federal contra o desfile. O vereador de Niterói Allan Lyra (PL) entrou com uma ação na 5.ª Vara Cível da Comarca de Niterói pedindo a devolução dos quatro milhões de reais de subvenção pagos pela Prefeitura da cidade à Acadêmicos de Niterói. O juiz Alberto Republicano de Macedo Junior entendeu não caber a decisão urgente, e concedeu prazo de quinze dias para que a Prefeitura de Niterói e a escola de samba se manifestassem nos autos.

No Ministério Público Eleitoral (MPE)

Em janeiro, o vereador Igor Porto, de Nova Iguaçu, pediu que o MPE investigasse uma possível propaganda eleitoral antecipada a favor de Lula. A representação solicitou a exclusão do número do PT da letra do samba, além da proibição de seu uso em fantasias, adereços e carros alegóricos, e pediu medidas para impedir que o conteúdo com viés político fosse exibido durante a transmissão do desfile. No dia 2 de fevereiro, Damares Alves protocolou junto ao MPE uma denúncia contra a Acadêmicos de Niterói por propaganda eleitoral antecipada. No documento protocolado, a parlamentar argumentou que o desfile além de homenagear Lula, teceria críticas provocativas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, inclusive com a "desinformação de que ele teria matado pessoas durante a pandemia". A senadora também questionou a verba pública recebida pela escola por meio da Embratur. No dia 11 de fevereiro, o Vice-Procurador-Geral Eleitoral, Alexandre Espinosa Bravo Barbosa, arquivou a denúncia alegando que o caso já estava sob a apreciação da Justiça Eleitoral e que tanto o Tribunal Superior Eleitoral, quanto a Procuradoria-Geral Eleitoral, iriam se "manifestar nos autos, oportunamente, como fiscal da ordem jurídica".

No Tribunal Superior Eleitoral (TSE)