Urbanismo renascentista é o estudo das transformações urbanas realizadas durante o Renascimento, entre os séculos XV e XVI, bem como das formulações teóricas sobre a cidade desenvolvidas nesse período.

As teorias da cidade ideal

Um elemento novo e fundamental da arquitectura renascentista foi a elaboração teórica sobre a forma da cidade. Estas reflexões, expressas em escritos, esquemas e tratados, são geralmente reunidas sob a noção de cidade ideal e identificam-se sobretudo em esquemas radiocêntricos de simetria central, relacionados com as pesquisas sobre a planta central.

A ideia de conferir à cidade uma forma ordenada e racional, tornando-a símbolo da concepção artística e filosófica do Renascimento, desenvolveu-se progressivamente nos tratados do século XV, a partir de Leon Battista Alberti. Alberti compreendia a ação urbanística como uma atividade de caráter moral, na qual o arquiteto desempenharia o papel de mediador e unificador dos diversos aspectos da vida pública e privada. Para Alberti, a cidade era entendida como uma forma de construção no sentido amplo, isto é, um encaixe lógico e racional de princípios morais, civis e religiosos que deveriam orientar a organização da sociedade.ALBERTI, Leon Battista. De re aedificatoria. Florença, c. 1452. Ao buscar definir regras universais para a construção e remodelação das cidades, Alberti associou a ordem urbana à ideia de perfeição geométrica. Nesse contexto, a forma radio-concêntrica da cidade foi interpretada como uma expressão ideal dessa perfeição, tornando-se objeto de diversas especulações renascentistas sobre a chamada cidade ideal. Essas concepções dialogavam com a recuperação dos princípios da arquitetura clássica, reinterpretados à luz das necessidades sociais e políticas do Renascimento.BENEVOLO, Leonardo. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 1993.

Uma característica marcante da teoria urbanística albertiana é sua capacidade de articular novas concepções de planejamento urbano com estruturas herdadas do período medieval. Em vez de propor a ruptura total com a cidade existente, Alberti defendia a adaptação e reorganização racional do tecido urbano, conciliando tradição e inovação.CHOAY, Françoise. O urbanismo: utopias e realidades. São Paulo: Perspectiva, 2005.

Esses princípios também podem ser observados nas suas intervenções arquitetónicas, como na remodelação da fachada da Igreja de Santa Maria Novella (1456–1470), em Florença, na qual Alberti aplicou conceitos de harmonia, proporção e ordem clássica sobre uma estrutura preexistente medieval, exemplificando sua visão integradora da arquitetura e da cidade.TAVERNOR, Robert. On Alberti and the Art of Building. New Haven: Yale University Press, 1998.

O primeiro a propor um esquema geométrico rigoroso para uma cidade utópica foi Filarete, que no seu tratado desenhou a planta de Sforzinda, baseada num esquema radial que influenciaria as teorizações posteriores. No entanto, a escala excessiva da cidade em relação à realidade urbana da época impediu uma definição clara dos espaços urbanos e do tecido edificado.Rosario Pavia, L'idea di città: teorie urbanistiche della città tradizionale, 1994, pp. 25–28.

Francesco di Giorgio Martini propôs um repertório de formas simétricas, combinando esquemas radiocêntricos e ortogonais, tendo em conta as novas exigências defensivas decorrentes da artilharia. A evolução das técnicas de fortificação à moderna permitiu que a ideia renascentista de cidade geométrica se materializasse.

Também Sebastiano Serlio, Andrea Palladio e Vincenzo Scamozzi abordaram o tema da cidade perfeita, definida geometricamente.

As realizações

As realizações urbanas dos séculos XV e XVI afastaram-se dos esquemas teóricos, embora partilhassem a intenção de organizar os espaços urbanos segundo princípios geométricos.Benevolo, Leonardo, La città rinascimentale, Bolonha, Il Mulino, 1969.

Generalizou-se a abertura de ruas mais largas, a criação de espaços públicos regulares e a procura de simetria e decoro urbano.Guidoni, Enrico, Storia dell’urbanistica. Il Cinquecento, Roma-Bari, Laterza, 1974. O princípio da regularidade surge também nas normas urbanísticas dos estatutos municipais do século XV.Calabi, Donatella, La città del primo Rinascimento, Roma-Bari, Laterza, 2006.

Em cidades como Roma realizaram-se intervenções de rectificação e ampliação de vias (por exemplo, Via Giulia, Via della Lungara, Via del Corso), bem como a regularização geométrica de praças.Frommel, Christoph Luitpold, Architettura alla corte papale nel Rinascimento, Milão, Electa, 2003. Paralelamente, melhoraram as condições higiénicas com a construção de aquedutos, canais e pavimentações em pedra.Cipolla, Carlo M., Miasmi e umori. Ecologia e malattie nel Rinascimento, Bolonha, Il Mulino, 1989.Donatella Calabi, La città del primo Rinascimento, 2006.

Estas transformações associam-se ao reforço do poder senhorial e à figura do príncipe como comitente e mecenas.Burke, Peter, O Renascimento Italiano, Lisboa, Texto & Grafia, 2010. Surgem também bairros diferenciados, como os guetos destinados às comunidades judaicas.Calabi, Donatella, Storia della città. L’età moderna, Veneza, Marsilio, 2001.

A cidade renascentista enriquece-se com novas tipologias edilícias, nomeadamente os palácios senhoriais e os hospitais.Argan, Giulio Carlo, História da arte italiana, vol. II, Lisboa, Estampa, 1994. As novas praças caracterizam-se por um desenho unitário, simetria e intenção perspectívica, como a Piazza della Santissima Annunziata em Florença ou a Piazza Ducale de Vigevano.Zucker, Paul, Town and Square, Nova Iorque, Columbia University Press, 1959.

Entre os exemplos mais significativos destacam-se a transformação de Pienza por Bernardo RossellinoBenevolo, Leonardo, La città rinascimentale, Bolonha, Il Mulino, 1969. e a Addizione Erculea de Ferrara (1492), projectada por Biagio Rossetti.Rosenberg, Charles M., “Biagio Rossetti and the Addizione Erculea”, Journal of the Society of Architectural Historians, 1961.

As cidades de fundação As cidades de fundação renascentistas são poucas e surgem sobretudo a partir da segunda metade do século XVI, maioritariamente por razões defensivas.Benevolo, Leonardo, Storia della città, vol. II, Roma-Bari, Laterza, 1993.

Algumas adoptam traçados ortogonais simples, como Terra del Sole, Cortemaggiore, Gattinara, Acaya e Carlentini.Guidoni, Enrico, Storia dell’urbanistica. Il Cinquecento, Roma-Bari, Laterza, 1974. Outras, como Guastalla e sobretudo Sabbioneta, combinam uma malha ortogonal com um perímetro poligonal fortificado.Lotz, Wolfgang, Architecture in Italy 1500–1600, New Haven, Yale University Press, 1995.

A reflexão teórica sobre a forma urbana concentrou-se progressivamente no desenho geométrico das fortificações, que evoluíram para esquemas poligonais e estrelados.Tafuri, Manfredo, Architettura e Utopia, Lisboa, Presença, 1985. O ideal utópico da cidade renascentista sobreviveu sobretudo na arquitectura militar.Choay, Françoise, A regra e o modelo, Lisboa, Presença, 1980.

Mesmo assentando sobre um núcleo pré-existente, Livorno pode ser considerada uma fundação renascentista, na qual o perímetro defensivo poligonal determina a forma da cidade, enquanto o interior adopta um traçado ortogonal.Calabi, Donatella, Storia della città. L’età moderna, Veneza, Marsilio, 2001.

Fora de Itália destacam-se Vitry-le-François, Phalsbourg, Freudenstadt e Lixheim.Mumford, Lewis, A cidade na história, São Paulo, Martins Fontes, 1998. Algumas destas cidades baseiam-se num esquema quadrangular com praça central, influenciado pelo modelo do castrum romano descrito por Vitrúvio.Vitrúvio, De Architectura, livro I.

A única cidade com um claro esquema radiocêntrico construída no final do século XVI foi Palmanova, cujo modelo foi posteriormente replicado em Coevorden, nos Países Baixos.Benevolo, Leonardo, La città rinascimentale, Bolonha, Il Mulino, 1969.

Os utopistas

Paralelamente aos arquitectos tratadistas, vários pensadores utópicos abordaram a cidade ideal como expressão de uma organização social perfeita.Choay, Françoise, A regra e o modelo, Lisboa, Presença, 1980. Destacam-se Tomás Moro com UtopiaMoro, Tomás, Utopia, 1516. e Tommaso Campanella com A Cidade do Sol.Campanella, Tommaso, La Città del Sole, 1602.

Realizações pós-renascentistas

O modelo radiocêntrico da cidade ideal teve poucas aplicações directas no século XVI, mas persistiu na teoria urbanística e na arquitectura militar dos séculos XVII e XVIII.Choay, Françoise, A regra e o modelo, Lisboa, Presença, 1980.Tafuri, Manfredo, Arquitetura e Utopia, Lisboa, Presença, 1985.

Surgiram então novas cidades fortificadas, como Neuf-Brisach, projectada por Vauban,Duffy, Christopher, Fire and Stone: The Science of Fortress Warfare 1660–1860, Londres, Greenhill Books, 1996. e numerosos centros urbanos fundados segundo malhas ortogonais, quer para repovoamento agrícola, quer como reconstruções após sismos, nomeadamente no Val di Noto após o terramoto de 1693.Calabi, Donatella, Storia della città. L’età moderna, Veneza, Marsilio, 2001.Benigno, Francesco, Il terremoto del 1693 e la ricostruzione della Sicilia sud-orientale, Roma-Bari, Laterza, 2005. Exemplos notáveis incluem Avola e Grammichele, cujos esquemas geométricos derivam directamente dos tratados renascentistas de arquitectura militar.L. Dufour; H. Raymond, Dalla città ideale alla città reale, 1993.

Notas

Ver também Cidade ideal História do urbanismo Urbanismo de Pienza

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